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O Professor António Mexia, Docente do ISA, foi um dos poucos portugueses que, em 2010, foi incluido na publicação americana Who’s Who in the World.

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Homenagem do IBMC a Miguel Mota

por papinto, em 12.03.09

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Miguel Mota

por papinto, em 12.03.09


PÚBLICO, 12.03.2009, Andrea Cunha Freitas
 

Miguel Mota esperou 30 anos para ver comprovada a sua teoria sobre divisão celular, publicada em 1957. Esta semana, um grupo de investigadores quis homenagear o cientista português. Chamam-lhe visionário


 

a Os olhos, pequeninos e quase transparentes à volta de uma pupila negra, brilham quando fala de ciência. O corpo agita-se quando fala de política e, principalmente, da actual política do Ministério da Agricultura. Os braços caem, rendidos, quando fala da mulher que teve de "ir buscar" à Suécia e que é a sua companheira há mais de meio século. O peito incha quando fala do filho - "Descobriu a doença do pinheiro, conhece?" - e da filha - "É ela que põe os textos que escrevo no meu blogue". Cercado por um bigode aparado, o sorriso abre-se com a perspectiva da homenagem que está prestes a começar no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto, com o simpósio sobre os mecanismos de segregação de cromossomas. O título do comunicado do IBMC onde o apresentam como um investigador visionário é: "À frente do seu tempo: Miguel Mota".
Tem 83 anos. Passaram mais de 50 da publicação do artigo A new hypothesis for the anaphase movement, na revista International Journal of Cytology. O trabalho descrevia uma nova teoria para o chamado "movimento anafásico", a divisão celular que acontece "quando os cromossomas se separam e marcham para os pólos da célula".
Miguel Mota defendeu que uma estrutura em especial dos cromossomas, os cinetócoros, era determinante neste processo de divisão celular. Os cinetócoros eram o "motor a jacto" na anáfase, conseguindo mover os cromossomas para os pólos. Trinta anos após a divulgação da teoria, um investigador chamado Gary Gorbsky conseguiu finalmente comprovar experimentalmente a teoria de Miguel Mota.
Mostrar o que se faz
Gorbsky era uma das muitas pessoas sentadas no início da semana na plateia do auditório do Porto. Hélder Maiato, investigador do IBMC e organizador desta homenagem e simpósio, ocupava outro dos lugares. Tinha já elogiado o cientista português que "nos anos 50, sem recurso às tecnologias que hoje são comuns nos laboratórios, avançou com uma hipótese que revolucionou a compreensão dos mecanismos da divisão celular". O resultado do trabalho foi citado em diversos artigos, mas o nome foi muitas vezes esquecido. Talvez por isso o nome deste cientista não seja conhecido da maioria das pessoas. Miguel Mota não parece estar muito preocupado com isso. Sorri, encolhe os ombros e conclui: "Já passou."
A homenagem é recebida com "grande surpresa", diz o homem que em 1948 assumiu a liderança do Laboratório de Citogenética da Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, após ter concluído o curso no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Não há aqui falsa modéstia. Apesar de sempre se ter mostrado "mais empenhado em conseguir cereais melhorados do que artigos científicos" - como notou o fundador do IBMC, Teixeira da Silva, que apresentou o homenageado -, Miguel Mota sabe que é importante mostrar o que se faz. "Acho que os investigadores que não querem que se saiba o que estão a fazer prejudicam-se a si e à ciência portuguesa e ao país."
O cientista que esperou décadas pela experiência que provou que ele estava certo sabe do que está a falar. O investigador Hélder Maiato comparou-o a George Mallory. Quem? Pois. Terá sido o primeiro homem a subir ao topo do Evereste, mas como nunca foi visto depois disso nunca foi reconhecido por esse facto. E consagrou-se o nome de Sir Edmund Hillary como o homem que chegou ao pico do mundo e voltou para contar.
Hoje, Miguel Mota está afastado da aventura das descobertas que fazia atrás das lentes dos microscópios, mas ainda está muito perto do que se discute na sua área de investigação: a genética, em particular na sua aplicação aos problemas na agricultura. Quando em 2006 recebeu um Honoris causa da Universidade de Évora, não quis "aborrecer" ninguém com o assunto da anáfase e a história da sua teoria, publicada em 1957. Preferiu falar de clonagem, um tema que "tem andando pelo mundo com grande divulgação".
Clones e estaminais
E no discurso, que está no seu blogue Melhor Portugal (http://agriciencia.blogspot.com/), Miguel Mota dá algumas lições, insistindo, por exemplo, que o termo "clone" tem sido mal usado. "'Clone' é um substantivo colectivo. Assim, como nenhuma pessoa é 'família', nenhum organismo isolado é 'clone'. Mas esse disparate, filho da ignorância, mesmo de quem tinha obrigação de não o cometer, é um dos erros que vemos pelo mundo e, naturalmente, também em Portugal", argumenta.
O investigador lembra assim que o conceito "clone" recebeu esse nome em 1903, quando o agrónomo americano Herbert J. Webber, num artigo na Science, o propôs para "um conjunto de organismos derivados de um único por reprodução assexuada".
Mas "clone" não é o único disparate que anda nas bocas do mundo, segundo Miguel Mota. O investigador prefere falar em "variabilidade" para se referir àquilo a que "agora gostam de chamar 'biodiversidade'" e também continua a tentar convencer as pessoas a desistir da expressão "células estaminais" para o substituir por "células tronco" (segundo explica, a confusão foi gerada por uma tradução mal feita do termo stem cells). "Células estaminais são as células dos estames das flores (em inglês staminal cells) e, no estado actual da ciência, não podemos obter com elas qualquer uso em humanos para curar tecidos danificados."
E sobre "o ridículo nome de 'agricultura biológica'"? "Enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas e bifes sintéticos, toda a agricultura é biológica", nota o especialista.
Falemos de agricultura, então. Pela voz do homem que é o "pai" de algumas linhas de centeio melhoradas que estarão implantadas em várias regiões do país, nas Beiras e Trás-os-Montes. "Foi o resultado de um trabalho que fiz em Elvas. São centeios aos quais dupliquei o número de cromossomas, fiz aquilo a que hoje se gosta de chamar 'biotecnologia', criando plantas com 28 cromossomas que nalgumas zonas podem, com rearranjos, autofecundações e selecção, dar 50 por cento mais do que os outros centeios cultivados." Onde estão? "Não sei o que é feito disso, porque o Ministério da Agricultura teve a gentileza de cortar e impedir uma série de trabalhos."
Por essas e por outras, está zangado. "Não pode haver agricultura que preste se o Ministério da Agricultura não tiver uma investigação agronómica em grande. E os últimos governos, de várias cores - qual deles o pior? -, têm seguido o caminho contrário", critica. Indignado com os rabanetes holandeses e os alhos da China que vemos no supermercado, questiona: "Qual é a dificuldade de produzir alhos em Portugal?" O que é um facto é que os agricultores alegam que há, cada vez mais, dificuldades em produzir. "Claro, com o Ministério da Agricultura a fazer os possíveis para destruir a agricultura e, assim, a assassinar a economia!", reage o especialista, que ainda acredita num futuro nacional apoiado na agricultura.
E reforça: "A base de um progresso na agricultura é a investigação agronómica." Miguel Mota não perdoa a decisão "idiota e criminosa" tomada em 2007 pelo Governo, que juntou num só organismo toda a investigação nesta área e "extinguiu" a Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, onde assumiu vários cargos de chefia. E denuncia ainda: "O Laboratório Nacional de Engenharia Civil é hoje uma sombra do que foi."
O investigador gostaria também de ver chegar o dia em que se acabasse com o Ministério da Ciência e se criasse um "conselho nacional de ciência" com especialistas de topo de várias áreas. Como vê a ciência que se produz em Portugal? "Há uma quantidade de gente nova excelente. Ainda há alguns restos dos antigos que são excelentes e depois há uma quantidade de senhores medíocres, alguns em lugar de comando, que conseguem estrafegar uma porção de trabalho em vários sectores."
Olhar e ver
Aos mais novos deixa ainda o conselho que se espera de quem revolucionou ou inovou, próprio de um visionário. "Não se deixem cegar pelos livros. Tenham sempre as mentes abertas. Se as vossas experiências disserem o contrário dos livros, confirmem, confirmem de novo e publiquem-no. Os livros podem estar errados."
Miguel Mota é um espectador de primeira fila da actualidade do país. Agora tem mais tempo para "olhar e ver" - o que fez ao longo de toda a sua vida profissional, segundo notou Teixeira da Silva. Reformou-se em 1992 e, desde aí, escreve mais do que nunca. Para os jornais, para o Linhas de Elvas, onde é colaborador regular de opinião. Também ainda dá aulas de Genética em universidades séniores, entre outras actividades académicas. A mulher que hoje o observa (sem esconder um pingo de orgulho) enquanto é fotografado para o P2 foi sua aluna na sala de aula. Alguém diz: "O Miguel está bonito hoje. É para a homenagem?"
Ela corrige: "Ele é bonito."

 

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Os nossos amortecedores agradecem...

por papinto, em 18.02.09

 

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Cork Oak Woodlands on the Edge

por papinto, em 07.02.09

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Parabéns ao editor e aos diversos co-autores do ISA

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Conversas à volta do vinho

por papinto, em 11.12.08

Notável a organização destas conversas à volta do vinho. Parabéns!

Notável a organização destas conversas à volta do vinho! Parabéns e obrigado.

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A arte de construir jardins e o seu significado
Público, 07.12.2008
 

Primeiro volume de um conjunto de obras dedicadas aos jardins dos vice-reis. Fruto de várias fases de investigação da arquitecta paisagista Cristina Castel-Branco, chega amanhã às livrarias
 


 

A Quinta de Fronteira está localizada no vale de Benfica e ocupa uma área de aproximadamente seis hectares. Consiste num palácio, jardins formais e uma capela, uma área arborizada com vegetação autóctone, uma vinha, hortas e pomares. É uma propriedade nobre que começou por servir como pavilhão de caça e depois foi adaptada para se converter na residência principal da família Mascarenhas.
O corpo principal do palácio e os jardins foram construídos no terceiro quartel do século XVII, no pequeno vale rural de Benfica, na protegida encosta nordeste da serra de Monsanto. Vários nobres, incluindo o marquês de Fronteira, costumavam caçar ali e tinham lá os seus pavilhões de caça, rodeados de áreas rurais e floresta. Nem toda a construção da quinta foi feita no século XVII. A ala poente só foi construída depois do terramoto de 1755, quando a família teve de abandonar as ruínas do seu palácio na cidade, no Chiado, perto do coração de Lisboa, e ir para o pavilhão de caça de Benfica.
(...) O pavilhão de caça, em Benfica, a dez quilómetros do centro de Lisboa, resistiu ao tremor de terra. Um mapa geológico oferece uma explicação para a sua sobrevivência a um choque como aquele que abalou a capital. O palácio de Benfica foi construído sobre uma camada de basalto, enquanto o centro de Lisboa tinha sido construído sobre calcários e zonas de depósitos de argilas. Benfica tinha-se mostrado um lugar bem mais seguro para se viver e os Mascarenhas mudaram-se para lá e transformaram o pavilhão de caça em residência permanente até aos dias de hoje.
Para além da segurança do substrato rochoso, outras qualidades físicas do vale de Benfica tornavam o local apetecível, e a localização do pavilhão do século XVII mostra que os proprietários de Fronteira estudaram aprofundadamente o local e desenharam o palácio e os jardins de forma a responder às principais dificuldades da região: os fortes ventos de noroeste e a escassez de água no Verão. Os efeitos do vento eram reduzidos pela colina protectora de Monsanto, permitindo também uma exposição a nascente, mais agradável para a instalação do palácio e dos jardins. Sendo a água um elemento crucial na manutenção dos jardins mediterrânicos, o facto de haver nascentes naturais dentro da propriedade era uma vantagem. A suave encosta da colina, combinada com a disponibilidade da água, desempenhou um papel importante na disposição dos parterres, pois o sistema de irrigação depende da gravidade.
Outro factor determinante para a localização do palácio foi a presença de um convento dominicano que já existia antes da construção do palácio. Na paisagem portuguesa, a presença de conventos, alguns já do século XII, é um indicador de uma excelente localização para a agricultura e actividades afins. Os monges tinham estudado e acumulado conhecimentos milenares sobre a selecção dos locais mais adequados para construir e viver. Uma descrição do século XVII, escrita por um monge dominicano, resume bem as qualidades do vale de Benfica, as suas características naturais e a presença do convento e das quintas: "A huma piquena legoa da cidade, pela estrada que corre pera Sintra, pouco desviado d'ella pera a parte do Poente, fica como escondido, e furtado a comunicação da gente hum pequeno vale, que sendo naturalmente aprasivel por frescura de fontes e arvoredo, mereceo, ao que se póde crer, o nome que tem de Bem-fica (...). De huma e outra parte (do convento), correm quintas, que cercão os outeiros, e vale em roda, algumas de bom edificio, outras mais ao natural: todas ricas de bosques, e pumares, e cercadas de suas vinhas, com que a mór parte do ano mantém o vale huma frescura, e verdura perpetua."
O vale também oferecia solos férteis. Um mapa de Fronteira do século XIX mostra os diferentes níveis da propriedade, plantados com uma variedade de culturas. Havia um pomar, uma vinha, uma horta e um jardim de roseiras. Este mapa, apesar de ter sido desenhado dois séculos depois, não se deve afastar muito do projecto original do século XVII. Nele aparece representada a mata, cujo coberto vegetal apresenta nesta quinta uma situação única. Ao contrário daquilo que sucede noutras quintas situadas em zonas rurais, em que as matas existem no exterior dos muros da quinta e dentro dela a vegetação natural foi substituída, aqui sucede o contrário; Fronteira tem dentro dos seus muros a única mata original de Monsanto. Esta mata é um exemplo típico da floresta Perenifolia desta região. A composição desta mata de quatro andares demonstra uma associação perfeitamente desenvolvida, onde pouco foi perturbada a vegetação climácica. A floresta é composta por um plano superior de árvores de grandes dimensões tais como a Quercus rotundifolia e a Olea europea, seguido por um andar arbustivo de porte médio, tal como o Laurus nobilis, o Arbutus unedo e a Phillyrea latifolia.
Um andar de plantas herbáceas vivazes, como o Ruscus aculeatus e a Coronilla valentina, e uma camada de plantas rasteiras em que domina a Vinca difformis, que se estende sobre a camada de detritos, sendo esta última um bom indicador da existência e diversidade do coberto vegetal superior.
(...) A propriedade está cercada por um muro que envolve toda a mata e, como os passeios a cavalo e a caça já aí não se praticam há mais de um século, a vegetação desenvolveu-se com poucas perturbações. O reduzido número de utentes não afectou o ecossistema acima descrito e a mata é, por isso, uma comunidade única isolada no meio da vegetação da serra de Monsanto a qual foi, pelo contrário, profundamente "manuseada" durante a década de 40 do século XX.
Em resultado da sobre-exploração agrícola de Monsanto, a erosão transformara-a numa terra de baixa produtividade. Na década de 1940, Duarte Pacheco, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ministro das Obras Públicas, propôs a reflorestação da área de Monsanto, que foi projectada sob a supervisão de um agrónomo, Francisco Flores, pelo arquitecto Keil do Amaral, e foram plantadas 10 000 árvores, essencialmente Cupressus, Eucalyptus e Pinus, de acordo com um programa extraordinariamente rápido que pretendia preservar a serra de Monsanto como área verde não urbanizada. Arbustos e árvores foram plantados de forma quase geométrica numa área anteriormente cultivada com cereais. Atingiram agora a maturidade e constituem o "pulmão verde", de cerca de mil hectares, de Lisboa. É esta floresta plantada no século XX que rodeia a mata de Fronteira, servindo de pano de fundo a toda a quinta.
Ainda no século XIX e, segundo um relatório de 1838 escrito por um feitor, na zona mais baixa da quinta, onde a mata acaba, foram plantados pomares e vinhas cujos rendimentos são descritos nas contas agrícolas da quinta. "O Palacio com todas as oficinas, palheiros, cavalariças e abeguarias, jardim, pomar, vinha, arvores de fruto, e alguma hortaliça, a sua produção n'este semestre, he laranja que se vendeu por duzentos e vinte mil reis..." José Cassiano Neves, que publicou este documento na monografia que temos vindo a citar, escreveu também que a tradição oral dizia que na Quinta dos Loureiros tinha havido um imponente laranjal, e acrescenta: "D. Francisco Mascarenhas manda vir da China para Goa a primeira laranjeira, que trouxe para Lisboa em 1635, plantando-a no seu jardim."


Os Jardins dos Vice-Reis - Fronteira
Autor: Cristina Castel-Branco
Editor: Oceanos
192 págs.
40 euros

 

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Bes

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