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Os organismos geneticamente modificados (OGM) são ou não uma ameaça para a saúde humana? Um artigo que concluía que sim – e que fora retirado de publicação por falta de provas e falhas graves – acaba de ser republicado sem motivo, deixando-nos mais longe da resposta.

 

 

O artigo sobre os efeitos dos OGM fora retirado da publicação DR

 

 

Gilles-Éric Séralini, cientista da Universidade de Caen (França) e autor principal de um controverso artigo que, supostamente, associava o cancro ao consumo de organismos geneticamente modificados (OGM) – mais precisamente de cereais transgénicos –, não parece estar interessado em tratar seriamente do assunto. Está convencido de que tem razão – e disposto a adoptar uma posição nada científica para ter a última palavra.

A prova disso: a saga do artigo assinado por ele e a sua equipa, que foi publicado, em 2012, numa revista científica; retirado de publicação, em 2013, pela própria revista e devido a diversas falhas graves; e, apesar de tudo,tornado a publicar há dias, numa outra revista. Só que, desta vez, sem passar por qualquer crivo científico de avaliação – e sem qualquer novo resultado que venha agora demonstrar a justeza das conclusões iniciais dos seus autores.

Muitos leitores lembrar-se-ão das horrorosas imagens de ratos de laboratório com tumores subcutâneos do tamanho de bolas de pingue-pongue que correram mundo em Setembro de 2012. Segundo a equipa de Séralini, que publicaria os seus resultados no mês seguinte de Novembro na conceituada revista Food and Chemical Toxicology, do grupo Elsevier, o estado de saúde dos animais devia-se a terem sido alimentados com uma variedade de milho transgénico, produzido pelo gigante Monsanto e geneticamente manipulado para ser resistente a um herbicida (já agora, também comercializado pela Monsanto).

A maneira como os resultados foram divulgados junto dos media também sugere fortemente que, já naquela altura, os autores queriam minimizar as eventuais controvérsias em torno do seu trabalho. Acontece que os jornalistas só tinham acesso antecipado aos resultados, se tivessem previamente assinado um acordo de confidencialidade que os tornaria passíveis, caso mostrassem o artigo a outros cientistas para recolher a sua opinião, de terem de pagar uma elevada indemnização aos autores. Nem as revistas científicas mais estritas proíbem os jornalistas de solicitar opiniões independentes acerca de resultados prestes a serem publicados.

A experiência realizada por Séralini e colegas (franceses e italianos da Universidade Verona) consistira em distribuir 200 ratos por 20 grupos de 10 animais e em alimentá-los, durante toda a vida (dois anos), com diferentes dietas. Em particular, enquanto certos grupos comiam diferentes doses de um tipo de milho transgénico chamado NK603, outros comiam diversas doses desse milho transgénico e ao mesmo tempo bebiam água que continha diferentes quantidades do herbicida, chamado RoundUp, ao qual o milho transgénico em causa é resistente. E outros ainda comiam alimentos não transgénicos mas bebiam água contaminada com diversos teores de herbicida. Animais que não consumiam nem alimentos transgénicos, nem herbicida serviam de referência para testar os efeitos do OGM e do RoundUp.

Conclusão dos cientistas: os ratos dos grupos alimentados quer com milho transgénico (com ou sem água “temperada” com herbicida), quer com dietas não transgénicas (mas contaminadas pelo herbicida), apresentavam mais problemas de saúde – e em particular maiores taxas de cancro – do que os outros. Ou seja, o milho transgénico era, segundo eles, tão perigoso para a saúde como o próprio herbicida que era suposto neutralizar.

Os opositores dos OGM saudaram logo o estudo como sendo a prova de que tanto esperavam para banir estes perigosos produtos do mercado para sempre. Mas rapidamente numerosos cientistas começaram também a questionar, em particular junto da revista, a forma como os resultados tinham sido obtidos.

Publicação, retractação

Um ano mais tarde, em Novembro de 2013, a Food and Chemical Toxicologydava razão aos críticos e “despublicava” o artigo de Séralini (que continua, contudo, a estar acessível no site daquela revista, com a palavra “RETRACTED”, a vermelho, a barrar cada página do texto). A revista retirou o artigo depois de os autores se terem recusado a fazê-lo de motu proprio.

Os editores da revista escreveram então que não tinham detectado qualquer indício de fraude, mas sim falhas graves na metodologia utilizada pela equipa de Séralini. “Uma observação mais aprofundada dos dados revelou que, com o reduzido tamanho da amostra [de ratos], não é possível chegar a conclusões definitivas”, lia-se no editorial então publicado para explicar a decisão da revista.

A estirpe de ratos utilizada também levantava problemas, uma vez que é particularmente propensa a desenvolver tumores malignos após os 18 meses de vida. Portanto, não era possível excluir que a mortalidade elevada observada nos grupos de animais tratados não fosse devida à variabilidade fisiológica natural destes animais e não a um qualquer efeito da alimentação. Podemos, aliás, perguntar-nos por que é que a revista não detectara estes problemas, no fundo bastante evidentes, na altura da avaliação inicial. Mas essa seria outra história.

As falhas do estudo não se ficavam por aí: o próprio tratamento estatístico dos resultados levantava dúvidas. “Os toxicólogos costumam realizar um teste, dito do desvio-padrão, para determinar se as diferenças observadas neste tipo de dados seriam expectáveis com um fenómeno aleatório ou se podem ser consideradas significativas”, lê-se na revista New Scientist por ocasião da republicação do artigo de Séralini.

Ora, Séralini e colegas não apresentaram testes deste tipo no seu artigo, utilizando, pelo contrário, “uma análise complicada e não convencional” que Tom Sanders, especialista de nutrição do King’s College de Londres, citado por aquela revista semanal britânica, compara a “ir à pesca das estatísticas”.

Para mais, diz Sanders, não se percebe bem por que é que o herbicida e o milho transgénico teriam efeitos semelhantes, uma vez que o milho transgénico não contém ele próprio qualquer herbicida, mas apenas um gene que permite torná-lo resistente ao herbicida.

Mais precisamente, e como se pode ler no site do Centro de Avaliação dos Riscos Ambientais (cera-gmc.org), organismo internacional sem fins lucrativos que reúne políticos, cientistas e industriais, o herbicida RoundUp mata as plantas inactivando uma enzima que é vital para elas (mas que não existe nos animais). Quanto ao milho NK603, foi-lhe introduzido um gene, vindo de uma bactéria, que comanda o fabrico de uma variante dessa mesma enzima, mas que tem justamente a particularidade de não ser inactivada pelo herbicida. Portanto, as ervas daninhas podem ser erradicadas pelo RoundUp das culturas de milho NK603 sem afectar este milho transgénico.

OGM entre nós

Impõe-se um breve parêntese sobre a presença comercial dos OGM na Europa. Como se pode ler num recente dossier do diário Le Monde, o único milho transgénico produzido neste continente (e desde 1998) chama-se MON810. Esta variedade, também criada pela Monsanto e na qual também foi integrado um gene de bactéria, foi feita para ser venenosa para os insectos que se alimentam de milho – e em particular para combater uma importante praga, a broca-do-milho.

A produção europeia de milho MON810 é muito limitada e praticamente confinada a Portugal (9000 hectares em 2012) e Espanha (116 mil hectares em 2012). Mas isso não significa que os OGM não cheguem à nossa mesa. Hoje em dia, ainda segundo o diário francês, 51 tipos de OGM estão comercializados na Europa, vindo de grandes produtores como os EUA, o Brasil ou a Agentina. Aliás, nos EUA, por exemplo, em 2010, 70% de todo o milho cultivado era milho transgénico resistente aos herbicidas, tal como o NK603 posto em causa pela equipa de Séralini.

Esta situação faz dizer a defensores dos OGM que, em 20 anos de utilização, não tem havido efeitos adversos “substantivos” e que o risco de os OGM serem inaptos para consumo humano ou animal é muito baixo. Mas também põe em evidência o facto de, se se quiser saber qual o seu risco real, ser preciso fazerem-se estudos cientificamente sólidos. Ora, o estudo que a equipa de Séralini publicou em 2012 não pertence a esta categoria.

Nada de novo

Voltando aos resultados desses investigadores, outros especialistas contactados pela New Scientist salientam ainda que os resultados não mostram de todo, ao contrário do que é habitual, que a toxicidade de uma substância aumenta com a dose do tratamento aplicado. O efeito é o mesmo seja qual for a dose de milho transgénico ou de herbicida. “A única coisa que é possível concluir [deste estudo]”, remata Mark Tester, da Universidade de Adelaide (Austrália), “é que os ratos idosos desenvolvem tumores e morrem”.

Mas será que o artigo republicado há dias, desta vez na revista de livre acessoEnvironmental Sciences Europe (Eseu), do gigante editorial Springer, traz na realidade algo de novo? Só assim é que se poderia compreender que o veredicto da nova avaliação, antes da republicação, tenha sido o oposto do anterior. Ora, nada disso.

Segundo a revista Nature, que cita a Eseu, aquela revista decidiu republicar o artigo da equipa de Séralini simplesmente “para garantir o acesso a longo prazo aos dados”. E os seus responsáveis não realizaram qualquer avaliação científica do material… “porque isso já fora feito pela Food and Chemical Toxicology, que tinha concluído que não tinha havido fraude nem apresentação enganosa” por parte dos autores.

Resumindo: o artigo continua tão pejado de falhas como sempre – e a conclusão tão errada como quando foi publicado pela primeira vez. “Tanto quanto sei, ainda ninguém mostrou que o facto de alimentar esses ratos [com NK603] durante dois anos revele um risco que representa uma ameaça real para a saúde dos humanos e dos animais de criação”, diz Richard Goodman, editor de biotecnologia da Food and Chemical Toxicology, também citado pela Nature.

Ficamos portanto na mesma. Os OGM – e em particular este milho transgénico – até podem apresentar perigos para a saúde e o ambiente. Mas uma coisa é certa: não é com má ciência – pois tudo indica que é disso que se trata aqui – que as boas respostas poderão ser obtidas.
 

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GMCC13, an impression

por papinto, em 04.01.14

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 Agro-Portal, 2011-02-24

A área cultivada com culturas geneticamente modificadas aumentou 10,5% em relação a 2009. A agrobiotecnologia é já hoje utilizada em 10% do total dos solos agrícolas do planeta, o equivalente à área do território dos Estados Unidos da América.


[Gráfico - Área global de culturas transgénicas entre 1996 e 2010]

De 1996 até hoje a área utilizada aumentou de 1.7 milhões de hectares em 1996 para 148 milhões de hectares, o que demonstra que esta foi a tecnologia agrícola mais rapidamente adoptada da história da agricultura moderna, reflectindo a importância da sua utilização para os 15.4 milhões de agricultores (93,5 % dos quais são pequenos agricultores de países em desenvolvimento) em 29 países (19 dos quais sendo países em desenvolvimento).

O cultivo de plantas transgénicas iniciou-se há 15 anos e os benefícios da utilização da engenharia genética de plantas tem-se tornado cada vez mais visíveis desde 1996, sobretudo se as vantagens forem observadas através dos resultados dos pequenos agricultores em todo o mundo, principalmente os que se encontram nos países em desenvolvimento.

Na Europa a utilização de culturas geneticamente modificadas (GM) realizou-se apenas em oito países. Seis deles cultivaram milho Bt, três cultivaram batata Amflora e um país cultivou ambas as culturas. Depois de 13 anos de espera a União Europeia aprovou finalmente a utilização de uma segunda cultura transgénica, a batata Amflora. Segundo Pedro Fevereiro, presidente do CiB – Centro de Informação de Biotecnologia, “o enorme atraso da aprovação de culturas GM na Europa impede a competitividade dos agricultores europeus face aos agricultores dos países exportadores aos quais a Europa compra variedades de culturas essenciais aos seus cidadãos e que poderiam ser produzidas pelos próprios agricultores da Europa. Com a sua postura de recusa de utilização desta tecnologia a União Europeia promove também o aumento do custo da alimentação”.

A utilização de plantas transgénicas tem uma contribuição fundamental para a sustentabilidade da agricultura ao nível global, nomeadamente em relação aos seguintes aspectos:

Aumento da segurança alimentar ao nível da auto-suficiência, aumento da qualidade dos alimentos, aumento da produtividade e aumento dos benefícios económicos para os agricultores e para os países onde se cultivam plantas geneticamente modificadas;

Mais conservação dos solos, redução da utilização de combustíveis fósseis, redução da emissão de dióxido de carbono para a atmosfera, redução na utilização de pesticidas, gestão mais eficiente de água, o que significa uma enorme redução da pegada ambiental da agricultura e em consequência a protecção da água, da biodiversidade e dos ecossistemas globais;

Redução dos gases com efeito de estufa e mitigação das alterações climáticas.

Pedro Fevereiro declara ainda que “estes dados, divulgados pelo ISAAA – International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications, demonstram o enorme sucesso da adopção destas culturas. O aumento médio anual de 10,5% do solo arável cultivado com variedades GM permite aos agricultores em todo o mundo, em particular os pequenos e médios agricultores, melhorarem a eficiência da sua actividade e aumentarem os seus lucros reduzindo em simultâneo os impactos ambientais. É impensável que a Europa e Portugal continuem a prejudicar os produtores nacionais, impedindo-os de ter acesso a esta ferramenta agrícola”.

Os dados apresentados foram publicados no relatório anual sobre avaliação global da comercialização de culturas geneticamente modificadas em 2010 e divulgados pelo ISAAA e têm como base os seguintes documentos:

Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops: 2010
http://www.isaaa.org/resources/publications/briefs/42/executivesummary/default.asp

ISAAA Brief 42-2010: Press Release
http://www.isaaa.org/resources/publications/briefs/42/pressrelease/default.asp

ISAAA Brief 42-2010: Highlights of "Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops: 2010"
http://www.isaaa.org/resources/publications/briefs/42/highlights/default.asp

ISAAA Brief 42-2010: Slides & Tables
http://www.isaaa.org/resources/publications/briefs/42/pptslides/default.asp

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Feb 23rd 2011, 14:57 by The Economist online

Growth areas

 

THE world's farmers planted148m hectares of genetically modified crops in 29 countries last year, according to the International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications, an industry body. America is by far the biggest GM farmer, with 66.8m hectares under cultivation, 2.8m more than in 2009. As can be seen in our map, GM techn

ology has been enthusiastically embraced in the Americas and in many Asian countries. By contrast, many European countries are subject to severe restrictions on growing GM crops. Developing countries are planting GM crops at a more rapid rate than rich countries. Brazil has added some 10m hectares

since 2008 and overtook Argentina as the second-biggest grower in 2010. India, too, increased its area by over 10% last year. The most popular crop is soya, while the most common modification is tolerance to herbicides.

 

 

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Engenharia Genética

por papinto, em 20.01.11

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Público, 20100303 Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas

 


Durão Barroso reabriu ontem a polémica sobre a utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) ao autorizar o cultivo na União Europeia da batata transgénica Amflora produzida pela empresa alemã BASF.

Esta decisão quebra 12 anos de prudência, durante os quais a UE não autorizou o cultivo de novos OGM depois de uma primeira luz verde ao milho transgénico MON 810, da Monsanto. A decisão de ontem abre aliás a porta à renovação, nas próximas semanas, da autorização do MON 810, que expirou há dois anos.

Consciente da oposição esmagadora dos cidadãos europeus aos OGM, por receios ligados à saúde humana e ao ambiente, Bruxelas insistiu que todos os passos previstos no processo de autorização foram cumpridos, incluindo a luz verde da Agência Europeia de Segurança Alimentar (AFSA). Esta agência baseia o essencial das suas análises nas informações fornecidas pelos fabricantes de transgénicos.

"Foram fornecidas respostas a todas as questões científicas, sobretudo as que se referem à saúde", afirmou John Dalli, comissário responsável pela protecção dos consumidores, frisando que a Comissão tem o dever de "utilizar todos os conselhos profissionais" nas decisões. Mas, ao mesmo tempo, frisou, "temos de continuar a avançar na nova era das novas tecnologias".

A sua convicção está longe de ser partilhada pelos estados-membros. O ministro da Saúde da Áustria, Alois Stöger, anunciou de imediato que vai legislar para impedir o cultivo da Amflora no país. Viena já desafiou a Comissão em 1999 ao introduzir uma cláusula de salvaguarda para impedir a importação e cultura de dois OGM.

Em Itália, o ministro da Agricultura, Luca Zaia, criticou Bruxelas e apelou para os outros países da UE fazerem uma "frente comum" contra o cultivo da Amflora. Em França, o Governo está sob uma forte pressão de vários partidos políticos para accionar a cláusula de salvaguarda que foi desencadeada em 2008 contra a cultura do milho MON 810. Cinco outros países fizeram na altura o mesmo, impondo a anulação de uma decisão da Comissão.

A Amflora será utilizada na indústria, incluindo no fabrico de pasta de papel, e nas rações para animais. 

Também ontem, a Comissão autorizou a comercialização na UE de três variedades de milho transgénico da Monsanto para fins alimentares.

 

 

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