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rbraga2.gifRicardo Braga

Agroportal, 2014.11.18

A nova PAC sugere a necessidade de produzir mais quantidade e qualidade reduzindo simultaneamente custos de produção e impactes ambientais.

A solução deste verdadeiro quebra-cabeças agronómico terá que passar forçosamente pela utilização mais eficiente e eficaz dos recursos e factores de produção.

Este aumento de eficiência e eficácia, por seu lado, terá que passar pela inovação tecnológica quer a nível de genótipos (biotecnologia/melhoramento) quer a nível de equipamentos (mecatrónica/automatização) quer ainda a nível de TICs - tecnologias de informação e comunicação.

A nível das TICs, os sistemas de informação para apoio à decisão baseados em sensores e outras fontes de dados (modelos, previsões meteo, preços, etc.) terão que ter cada vez mais peso na exploração agrícola fazendo com que a tomada de decisão seja cada vez menos um processo empírico para passar a ser um processo baseado em factos e em conhecimento.

A intensificação do uso de dados/informação e conhecimento (incorporado ou mais explicito) ao nível da gestão agrícola será então uma chave para o aparente paradoxo da “intensificação sustentável”.

A gestão da variabilidade espacial no seio das parcelas dos recursos e factores de produção levada a cabo nos últimos 20 anos demonstra que existe uma enorme oportunidade para melhorar a eficiência e eficácia dos sistemas agrícolas com a contemplação da componente espacial na gestão. Como exemplo, podem dar-se situações correntes de variação do simples para o quíntuplo da produtividade em culturas como o milho ou a vinha no espaço de escassos hectares. Continuar a gerir as parcelas agrícolas como se de unidades homogéneas se tratassem é cada vez mais uma ineficiência inaceitável. De facto, toda a escola agronómica clássica assume a homogeneidade no espaço das parcelas (dos solos, da cultura, das taxas de aplicação de factores, etc.) por questões de ordem prático-logística, embora conhecendo bem a sua existência. No entanto, hoje em dia, existindo técnicas para gerir essa variabilidade, designadas por Agricultura de Precisão, torna-se possível adequar no espaço (e tempo) a aplicação de factores de produção a cada uma das unidades homogéneas incluídas no seio de cada parcela de acordo com as suas necessidades ou potencial produtivo.

Deste modo, aplica-se, por exemplo, maior quantidade de um dado nutriente onde as necessidades são maiores e vice-versa. Ou, aplica-se maior volume de calda de um tratamento onde a vegetação apresenta maior densidade e vice-versa. É este tipo de actuação (3Rs) “the Right time, the Right amount and the Right place” que permite melhorar a eficiência e eficácia de utilização dos recursos e factores de produção e desse modo promover a “intensificação sustentável”. De facto existem casos práticos em que na globalidade da parcela se utiliza a mesma quantidade de factor ou até menor quantidade, ficando contudo melhor distribuído e, por tanto, resultando em incremento de produção final.

A implementação da agricultura de precisão não é trivial e faz-se segundo um procedimento sequencial e cíclico, que geralmente inclui 4 fases:

(1) avaliação e caracterização da variabilidade espacial;

(2) análise de dados e aplicação de conhecimento para identificação da(s) causa(s) da variabilidade;

(3) elaboração da carta de prescrição do factor de produtividade; e

(4) aplicação diferenciada de factor de produtividade.

A fase (1) incluiu levantamentos georreferenciados das parcelas, nomeadamente a monitorização da produtividade (através de um monitor de produtividade associado ao posicionamento geográfico), análises de solo, índices de vegetação da cultura entre outros.

Os dados colhidos em (1) são analisados em (2) e através do conhecimento agronómico são diagnosticadas a(s) causa(s) da variabilidade. Uma vez identificada(s) a(s) causa(s) da variabilidade, e apenas após essa condição estar satisfeita (aspecto fundamental para o sucesso da estratégia!), é elaborada a carta de prescrição em (3) e implementada em (4) através de equipamentos munidos com tecnologia de taxa variável (VRT – Variable Rate Technology).

O elemento central neste ciclo de actuação são os sistemas informação georreferenciada (conhecidos por Sistemas de Informação Geográfica) que permitem a análise multidisciplinar da variabilidade espacial assim como a criação de cartas de prescrição a serem utilizadas para comando das aplicações diferenciadas através da VRT e do posicionamento geográfico.

O posicionamento geográfico, presente em qualquer das 4 fases é fornecido pelos Global Navigation Satalite Systems (GNSSs), em que o mais utilizado é o GPS – Global Positioning System. Além de estarem na base das 4 fases do ciclo da agricultura de precisão, os GNSSs permitem também a utilização de mais 3 importantes equipamentos/aplicações em agricultura de precisão:

(1) condução assistida - em que o operador é auxiliado por um dispositivo visual/sonoro de modo a reduzir sobreposições e falhas de aplicação de factores (adubos, semente, etc.);

(2) condução automática – em que o operador é substituído por um dispositivo mecânico/hidráulico com o mesmo objecto que em (1) mas com maior eficácia;

(3) ajuste automático da largura de trabalho (swath control) – em que a largura de trabalho em (alguns) distribuidores/semeadores é controlada troço a troço permitindo o ligar/desligar de forma independente de cada troço com vista à eliminação das sobreposições. Todos estes equipamentos, incluindo os monitores de produtividade e equipamentos de tecnologia de taxa variável podem ser instalados em máquinas existentes não sendo necessário adquirir modelos topo de gama para poder disfrutar das suas funcionalidades.

Face ao que foi dito nomeadamente em relação às vantagens da Agricultura de Precisão é difícil de compreender que a taxa de adopção seja ainda tão reduzida. É certo que a adopção não é igual para todas as aplicações / equipamentos, mas ainda assim, é no geral, reduzida. E esse facto pode justificar-se por uma série de razões, designadamente a limitada “experimentabilidade” da aplicação diferenciada de factores (é difícil experimentar sem investir nalguma componente); a difícil percepção dos ganhos (os ganhos potenciais são função da variabilidade das parcelas e suas causas); o limitado suporte técnico efectivo por parte dos vendedores de equipamentos; etc.

Todos estes aspectos, alguns mais reais que outros, contribuem para que a confiança para o investimento seja diminuída e para que surjam alguns mitos.

Neste contexto, fazia sentido um instrumento de apoio ao investimento que foi o que de facto veio a verificar-se com a publicação, no dia 11 de novembro, da portaria 230/2014 que estabelece o regime de aplicação da acção 3.2, «Investimento na exploração agrícola» do PDR2020 (http://www.pdr-2020.pt/files/portaria_230_2014_M32.pdf <http://www.pdr-2020.pt/files/portaria_230_2014_M32.pdf>).

No art. 2º - “Objectivos” – pode ler-se: “Reforçar a viabilidade e a competitividade das explorações agrícolas, promovendo a inovação, (…)”.

Contudo, é com o maior agrado que no art. 10º - “Critérios de seleção das candidaturas” - constatamos a inclusão da alínea e) “Candidatura com operações que visem o recurso a tecnologias de precisão.”

Na orientação técnica especifica (http://www.pdr-2020.pt/files/OTE_1_2014_M32.pdf <http://www.pdr-2020.pt/files/OTE_1_2014_M32.pdf> ) são mesmo elencados (ponto 2.2) com maior pormenor alguns dos investimentos materiais e imateriais reflectidos na medida. Estamos certos de que se trata de uma excelente oportunidade para que os empresários agrícolas passem a tirar completo partido das vantagens da Agricultura de Precisão e se tornem mais produtivos, rentáveis e sustentáveis.

As candidaturas decorrem até ao final do ano. Ao trabalho!

Ricardo Braga <mailto:ricardobraga@isa.utl.pt> Prof. do Instituto Superior de Agronomia <http://www.isa.ulisboa.pt/>

Mais informação online:

• Braga (2011). AGRICULTURA de PRECISÃO: adopção & principais obstáculos. AGROTEC .URL: http://goo.gl/aB6Gn <http://goo.gl/aB6Gn>

• Braga (2012). A Agricultura de precisão e a sustentabilidade dos sistemas de produção agrícola. Energia e Ambiente. URL: http://goo.gl/Ey2g0 <http://goo.gl/Ey2g0>

• Braga (2013). Entrevista: Agricultura de Precisão. AGROTEC. URL: http://goo.gl/FTESPS <http://goo.gl/FTESPS>

• GRUPO DE DISCUSSÃO LINKEDIN: AGRICULTURA DE PRECISÃO – PORTUGAL. URL: https://www.linkedin.com/manageGroupMembers?dispParts=&gid=6525490 <https://www.linkedin.com/manageGroupMembers?dispParts=&gid=6525490>

• REVISTA: AGROBÓTICA – como fascículo da AGROTEC. URL: http://agrotec.pt/ <http://agrotec.pt/>

• PDR2020: http://www.pdr-2020.pt/ <http://www.pdr-2020.pt/>

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