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A produtividade dos cientistas

por papinto, em 13.03.14

MIGUEL MOTA 

 

O que foi feito de bom pela Ciência, especialmente durante os governos do PS, não chegou para compensar a destruição dos grandes laboratórios do Estado.

 

O que foi escrito no Expresso de 8/2/2014, com o título “produtividade dos cientistas provoca polémica”, obriga a recordar alguns factos.

O que foi feito de bom pela Ciência, especialmente durante os governos do PS, não chegou para compensar a destruição dos grandes laboratórios do Estado, que já vinha de trás mas foi muito intensificada naquele período. Além de produzirem ciência internacionalmente reconhecida e citada, esses laboratórios ajudaram e muito a economia do país.

A destruição obedece a uma “lei”, não escrita mas religiosamente seguida, que não quer que exista investigação científica pública fora das universidades. Há anos que denuncio essa lei criminosa, que já causou ao país prejuízos enormes, científicos e económicos mas, como noutros casos, tem sido “bradar no deserto”. Uma universidade consegue apropriar-se de um desses laboratórios ou, então, destrói-se. Já conseguiram apropriar-se de, pelo menos, dois. Já tenho referido que, como professor universitário, me sinto insultado por tal prova de mediocridade e inveja que, repito, já causou ao país prejuízos enormes, na investigação e na economia, extinguindo o valiosoknow how que tinha sido acumulado. Não sei como os ministros dos sectores que exigem investigação científica para bem cumprirem a sua missão toleram tal sistema.

O primeiro dos grandes laboratórios foi a Estação Agronómica Nacional, criada em 1936. Para ela foi estabelecida a carreira de investigador científico, paralela da carreira docente universitária. Em 1942 apareceu a Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, um laboratório mais pequeno e dedicado a uma especialidade. Dez anos depois da Estação Agronómica, foi fundado o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, essencialmente decalcado dela mas podendo defender-se de algumas limitações impostas à Estação, a principal das quais nascer como Direcção-Geral em vez de estar subordinado a um director-geral. Outros laboratórios foram criados posteriormente, sempre dentro do mesmo modelo.

O que aqueles três laboratórios deram ao país, em termos económicos, foi certamente muitas vezes o que o Estado neles investiu. Infelizmente, apesar de eu já o ter proposto, não conheço valores dos resultados económicos da investigação produzida. Na celebração dos 25 anos da Estação de Melhoramento de Plantas, em 1967, o secretário de Estado da Agricultura disse que, para uma despesa total de escassas dezenas de milhar de contos investidos no organismo, a agricultura – e, portanto a economia – tinha recolhido, a mais, pela utilização das variedades de cereais e forragens criadas na Estação, um valor estimado em um milhão de contos. Lembro que a uva D. Maria, de bagos muito grandes e ligeiro gosto a Moscatel, é resultado da investigação realizada na Estação Agronómica.

Há anos, uma antiga ministra da Ciência lamentou-se, num jornal, dizendo que, apesar de ter aumentado o número de papers (artigos científicos), a economia nada beneficiou. Lembrei, noutro escrito, que a causa foi, precisamente, a destruição dos laboratórios.

A investigação que foi protegida (e mal...), nas universidades, talvez produza mais papers, alguns em trabalhos de curto prazo, aqueles para que se conseguiu dinheiro, num sistema de financiamento que considero profundamente errado. Tal sistema é incompatível com boa produtividade em diversos sectores, como a investigação agronómica, com frequência a exigir bastantes anos e planificação a longo prazo (mas com resultados altamente compensadores), onde há colecções a manter e rotinas a cumprir.

Como tenho longa experiência de trabalho em Portugal e noutros países (Suécia, Grã-Bretanha e Estados Unidos) posso afirmar que o trabalho em Portugal custa bem mais tempo e esforço do que naqueles países. Além de carências várias, a espantosa burocracia envolvida custa aos cientistas muito mais esforço e tempo do que naqueles países. E a correcção do sistema não exige verba.

Em 1990 publiquei o artigo “Desburocratização – um caso pontual à consideração do Senhor Ministro das Finanças”, onde propunha uma simplificação que nada custava ao Estado e muito facilitaria a vida dos cientistas. Esse artigo foi premiado com uma menção honrosa num concurso da Secretaria de Estado da Modernização Administrativa, mas nada se alterou. Preferia não receber a menção honrosa mas ver o sistema corrigido.

 

Investigador coordenador e professor catedrático, jubilado

 

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