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DN 20100225por PATRÍCIA JESUS

Número de investigadores bolseiros bate recorde

Em 2009, a Fundação para a Ciência gastou mais de 146 milhões com bolsas

Há 10 310 bolseiros financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT): entre bolsas de doutoramento, mestrado e investigação, a Fundação gastou no último ano mais de 146 milhões - nunca tinha gastado tanto ou tido tantos bolseiros antes. Tal como nas faculdades, as mulheres já são a maioria dos bolseiros. A maior parte tem entre 25 e os 35 anos, embora a percentagem daqueles com mais de 35 tenha vindo a crescer.

É o caso de André Levy. Aos 37 anos, é bolseiro há nove e vai na segunda bolsa de pós-doutoramento. Quando se candidatou à segunda, já estava bem esclarecido sobre os problemas do sistema, nomeadamente a precariedade, mas foi a única forma de dar continuidade ao seu trabalho na área da biologia evolutiva e de ficar na mesma instituição, conta. Considera, no entanto, que os casos mais graves são os dos colegas que não têm o doutoramento e recebem bolsas de investigação a rondar os 745 euros, metade da sua.

É que muitas vezes as bolsas são a única saída para quem quer fazer investigação em Portugal, e depois de entrar no sistema é complicado sair, já que o mercado de emprego científico é muito pequeno, indica Luísa Mota, presidente da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC).

A bióloga de 34 anos, bolseira há nove, está entre os que recebem 745 euros por mês. "Se é uma situação boa para um recém-licenciado que não encontra saídas, passados dez anos já não é admissível. Não estamos a falar de jovens de 22 anos, estamos a falar de adultos em precariedade total", realça. Isto porque os bolseiros não têm acesso à Segurança Social mas sim a um seguro social voluntário, explica. O que significa que não têm direito ao subsídio de desemprego, nem de férias e ao 13.º mês.

Por isso, apesar de ver com bons olhos este aumento de bolsas, alerta para a necessidade de investir na criação de emprego científico de forma a não criar bolseiros crónicos. Sobretudo porque há muitos a "assegurar necessidades permanentes das instituições porque são baratos e descartáveis". Além disso, alerta para o facto de ninguém saber ao certo o número total de bolseiros, já que, além dos financiados directamente pela FCT, há muitos que são contratados directamente por Projectos de Investigação e não entram nesta contabilidade.

Nos últimos anos, o principal investimento da FCT tem sido nas bolsas de doutoramento - estas correspondem a 76% do total, seguidas das de pós-doutoramento (18%). João Sentieiro, presidente da FCT, justifica a aposta dizendo que são estes apoios que contribuem para o desenvolvimento da "investigação científica tal como é entendido internacionalmente". Ainda há algumas bolsas de mestrado, mas correspondem "a subsídios de tese" mais antigos, já que actualmente são financiadas apenas bolsas relativas a projectos muito específicos, como o concurso para luso-venezuelanos, explica João Sentieiro. Quanto às bolsas de investigação, a FCT só é responsável por 95.

Para Ramôa Ribeiro, que liderou a FCT de 2002 a 2005, o rumo actual faz sentido num país em que o número de doutorados continua abaixo da média europeia. "Só em meados dos anos 90 começou a haver doutorados suficientes para abrir programas de pós- -doutoramento", lembra. Uma evolução visível nas candidaturas a bolsas de pós-doutoramento: há dez anos havia 309 candidaturas e em 2009 houve 1139.

Para Ramôa Ribeiro, é uma pena que existam poucas bolsas de doutoramento em empresas: apenas 124. "É um número muito baixo e desmotivador, porque é uma iniciativa fundamental para integrar os doutorados no mercado de trabalho", conclui, acrescentando que as bolsas são uma "situação intermédia, não o futuro".

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Público, 20091222

Por David Marçal

Integrar os bolseiros no Regime Geral de Segurança Social (deveriam ser todos e não apenas os doutorados) é o mínimo


 
Segundo um artigo recente publicado noutro jornal, os motivos apontados por dez investigadores estrangeiros para trabalharem em Portugal são a praia, a comida, as mulheres giras e a cerveja barata. E, de acordo com vários relatórios de organizações internacionais, Portugal é também o país europeu que mais exporta recursos humanos qualificados, o que faz supor que os portugueses só dão o devido valor a estas coisas quando se vêem a apanhar chuva na pinha e a pagar cinco euros por uma pint nalgum sítio onde as suas competências sejam valorizadas.

Que prevê o programa do actual Governo para a ciência? Cerveja grátis para investigadores? Não. O Governo propõe-se "a renovar e reforçar o Compromisso com a Ciência". Define metas quantitativas (aumentar o número de doutorados, patentes, o investimento público e privado em investigação), faz referência à necessidade de Portugal integrar as redes internacionais de conhecimento e de grandes infra-estruturas científicas. Promete ainda melhorar as condições fiscais para quem contratar doutorados, medida que não é novidade mas que me inspira alguma preocupação: a ideia de que a contratação de doutores pelas empresas tem que ser apoiada é um pouco como um médico que receita morfina: temos que estar mesmo muito mal. Mas, sem brincadeiras, a proposta que me parece mais interessante é esta:

"Será ainda garantido, a todos os investigadores doutorados, um regime de protecção social idêntico ao dos restantes trabalhadores, incluindo os actuais bolseiros, assegurando-se, ainda, o cumprimento integral, em Portugal, das recomendações europeias relativas às carreiras dos investigadores e às suas condições de mobilidade."

Esperemos que cumpra rapidamente. É uma vergonha que tantos investigadores estejam abrangidos pelo Seguro Social Voluntário, o mesmo sistema de protecção social das donas de casa, e não pela segurança social igual para todos. Isto na prática equivale a prestações para a Segurança Social pelo valor do salário mínimo (com as devidas consequências no valor das prestações em caso de necessidade e na reforma) e ausência de subsídio de desemprego. Os bolseiros são uma fatia de leão, tanto em número como em importância para o sistema científico nacional. O que aconteceria aos grupos de investigação que ganham prémios e fazem notícias nos jornais se dispensassem os bolseiros? Perguntem-lhes.

É válida a meta apresentada pelo Governo de aumentar o número de investigadores. Mas esperemos que isso não continue a ser feito à custa da precariedade dos bolseiros. Sai muito mais em conta um bolseiro de investigação que ganha uma miséria (as bolsas não são actualizadas desde 2002, o que representa uma perda de 18% do poder de compra face à inflação acumulada), que recebe apenas 12 meses por ano, que custa 83,84? em segurança social por mês (independentemente do valor da bolsa) e que não dá chatices com subsídio de desemprego. Este tem sido o milagre da multiplicação de cérebros.

Registo como positivo o programa que na anterior legislatura permitiu a contratação de 1000 investigadores doutorados para institutos e universidades públicas. Os contratos de trabalho devem tendencialmente substituir as bolsas, pelo menos no caso dos investigadores doutorados, por isso esperemos (tal como consta do programa do Governo) que continue. Mas isto não invalida que as condições dos bolseiros não tenham que melhorar. Senão, perpetua-se uma espécie de sistema de castas, em que alguns felizardos conseguem saltar para o outro lado, assemelhando-se a carreira de investigação em Portugal ao filme Slumdog Millionaire.

Não ignoro que Portugal é um país que tem um PIB per capita muito inferior ao de outros países europeus e que não poderá de um momento para o outro oferecer aos investigadores as mesmas condições, pelo que teremos que continuar a contar com a ajuda do clima, da gastronomia, do sex appeal dos portugueses e da cerveja barata para fixar cérebros. Mas integrar os bolseiros no Regime Geral de Segurança Social (e julgo que deveriam ser todos e não apenas os doutorados) é o mínimo. Esperemos que isto aconteça em breve. E que a crise, o salvamento do sistema financeiro irresponsável, o défice ou qualquer outra perna de pau não sirva de desculpa para protelar indefinidamente esta medida. Bioquímico

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Quercus e Universidade de Évora

por papinto, em 01.04.09
Cultivo resistente a herbicida
Quercus critica Universidade de Évora por associar-se a ensaios com milho transgénico 
01.04.2009 - 18h49 Lusa
Quercus criticou hoje a Universidade de Évora por pretender disponibilizar terrenos, a uma empresa privada, a multinacional Monsanto, para ensaios com milho geneticamente modificado, defendendo que a academia devia antes “fomentar o uso de práticas agrícolas mais sustentáveis”.

“Este campo de ensaios, no caso de avançar, não trará benefícios alguns, nem para a Universidade, nem para esta região”, disse à Agência Lusa o vice-presidente da Quercus, Nuno Sequeira.

O ambientalista falava durante uma acção de protesto, promovida pela associação e pela Plataforma “Transgénicos Fora”, junto da Universidade de Évora (UE), contra a realização dos ensaios com milho geneticamente modificado (OGM).

A acção, protagonizada por quatro activistas, consistiu na distribuição de panfletos, com informação aos alunos da UE sobre a possibilidade de a multinacional da indústria agroquímica Monsanto vir a efectuar ensaios com a variedade NK603 de milho OGM na Herdade da Mitra, pólo daquela instituição.

UE não autoriza milho transgénico

“O milho transgénico que está em consulta pública não está autorizado para ser cultivado em nenhum local da União Europeia”, afirmou Nuno Sequeira.

O ambientalista realçou, também, a necessidade de sensibilizar a comunidade universitária e de Évora para “participar na consulta pública sobre os ensaios”, que termina esta sexta-feira.

“Estar a incentivar o cultivo de um produto resistente a herbicida é estar a incrementar o uso de agrotóxicos e também intervir negativamente nos ecossistemas e com a saúde humana”, argumentou.

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2009-03-27 07:00
COTR-Beja: Ministro da Agricultura assegura compromisso de futuro
 

 

Ministro da Agricultura garante existir um compromisso de futuro para o Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR). O regresso de Isaurindo Oliveira depende da vontade do COTR e do próprio.

 

 

O ministro da Agricultura assegurou em Beja que Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR) dispõe de um “compromisso de parceria” subscrito entre diversas entidades, nomeadamente, a Empresa de Desenvolvimento de Infraestruturas de Alqueva, entidade que preside ao COTR, a Direcção Regional de Agricultura do Alentejo e o Instituto Nacional de Recursos Biológicos, que permite “assegurar o futuro daquela instituição”.

À margem da assinatura do protocolo de gestão da herdade da Contenda, Jaime Silva, disse à Voz da Planície, que é o “COTR e as entidades associadas que têm que aplicar os projectos” e quando questionado sobre o regresso de Isaurindo Oliveira, ao cargo de Director Técnico, o ministro justificou que “não escolhe, nem nomeia pessoas”.

A nova Direcção do COTR, foi eleita no passado dia 19 de Março e tem como presidente Hemetério Monteiro, administrador da EDIA, e segundo apurou a Voz da Planície junto de fonte próxima daquele órgão, “existe a vontade da administração e de algumas associações e cooperativas” em meter dinheiro no centro com vista a “manter a equipa e reforça a actividade”. Quanto ao possível regresso de Isaurindo Oliveira, ao cargo de Director Técnico, a mesma fonte, justificou que tudo “depende” da proposta a apresentar em Assembleia-Geral, recordando que “é um quadro da Direcção Regional de Agricultura do Alentejo”.


 

Teixeira Correia


 

Corpos Sociais 2009/ 2012
Direcção
Presidente: Hemetério Monteiro (EDIA)
Vogais: Ricardo Silva (DRAPAL), Joaquim Carvalho (DGADR), Manuel Reis (ABORO) e Rui Garrido (ACOS)
Mesa Assembleia
Presidente: Ana Luísa Fernandes (IPB)
Vogais: Dinis Poupinha (Coop.Agr.Beja e Brinches) e Arístides Chinita (Ass.Ben.Caia)
Conselho Fiscal
Presidente: António Cardoso (UCASUL)
Vogais: Francisco Mata (ATEVA) e Francisco Barradas (Grupo HUBEL)

 


 

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Homenagem do IBMC a Miguel Mota

por papinto, em 12.03.09

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Miguel Mota

por papinto, em 12.03.09


PÚBLICO, 12.03.2009, Andrea Cunha Freitas
 

Miguel Mota esperou 30 anos para ver comprovada a sua teoria sobre divisão celular, publicada em 1957. Esta semana, um grupo de investigadores quis homenagear o cientista português. Chamam-lhe visionário


 

a Os olhos, pequeninos e quase transparentes à volta de uma pupila negra, brilham quando fala de ciência. O corpo agita-se quando fala de política e, principalmente, da actual política do Ministério da Agricultura. Os braços caem, rendidos, quando fala da mulher que teve de "ir buscar" à Suécia e que é a sua companheira há mais de meio século. O peito incha quando fala do filho - "Descobriu a doença do pinheiro, conhece?" - e da filha - "É ela que põe os textos que escrevo no meu blogue". Cercado por um bigode aparado, o sorriso abre-se com a perspectiva da homenagem que está prestes a começar no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto, com o simpósio sobre os mecanismos de segregação de cromossomas. O título do comunicado do IBMC onde o apresentam como um investigador visionário é: "À frente do seu tempo: Miguel Mota".
Tem 83 anos. Passaram mais de 50 da publicação do artigo A new hypothesis for the anaphase movement, na revista International Journal of Cytology. O trabalho descrevia uma nova teoria para o chamado "movimento anafásico", a divisão celular que acontece "quando os cromossomas se separam e marcham para os pólos da célula".
Miguel Mota defendeu que uma estrutura em especial dos cromossomas, os cinetócoros, era determinante neste processo de divisão celular. Os cinetócoros eram o "motor a jacto" na anáfase, conseguindo mover os cromossomas para os pólos. Trinta anos após a divulgação da teoria, um investigador chamado Gary Gorbsky conseguiu finalmente comprovar experimentalmente a teoria de Miguel Mota.
Mostrar o que se faz
Gorbsky era uma das muitas pessoas sentadas no início da semana na plateia do auditório do Porto. Hélder Maiato, investigador do IBMC e organizador desta homenagem e simpósio, ocupava outro dos lugares. Tinha já elogiado o cientista português que "nos anos 50, sem recurso às tecnologias que hoje são comuns nos laboratórios, avançou com uma hipótese que revolucionou a compreensão dos mecanismos da divisão celular". O resultado do trabalho foi citado em diversos artigos, mas o nome foi muitas vezes esquecido. Talvez por isso o nome deste cientista não seja conhecido da maioria das pessoas. Miguel Mota não parece estar muito preocupado com isso. Sorri, encolhe os ombros e conclui: "Já passou."
A homenagem é recebida com "grande surpresa", diz o homem que em 1948 assumiu a liderança do Laboratório de Citogenética da Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, após ter concluído o curso no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Não há aqui falsa modéstia. Apesar de sempre se ter mostrado "mais empenhado em conseguir cereais melhorados do que artigos científicos" - como notou o fundador do IBMC, Teixeira da Silva, que apresentou o homenageado -, Miguel Mota sabe que é importante mostrar o que se faz. "Acho que os investigadores que não querem que se saiba o que estão a fazer prejudicam-se a si e à ciência portuguesa e ao país."
O cientista que esperou décadas pela experiência que provou que ele estava certo sabe do que está a falar. O investigador Hélder Maiato comparou-o a George Mallory. Quem? Pois. Terá sido o primeiro homem a subir ao topo do Evereste, mas como nunca foi visto depois disso nunca foi reconhecido por esse facto. E consagrou-se o nome de Sir Edmund Hillary como o homem que chegou ao pico do mundo e voltou para contar.
Hoje, Miguel Mota está afastado da aventura das descobertas que fazia atrás das lentes dos microscópios, mas ainda está muito perto do que se discute na sua área de investigação: a genética, em particular na sua aplicação aos problemas na agricultura. Quando em 2006 recebeu um Honoris causa da Universidade de Évora, não quis "aborrecer" ninguém com o assunto da anáfase e a história da sua teoria, publicada em 1957. Preferiu falar de clonagem, um tema que "tem andando pelo mundo com grande divulgação".
Clones e estaminais
E no discurso, que está no seu blogue Melhor Portugal (http://agriciencia.blogspot.com/), Miguel Mota dá algumas lições, insistindo, por exemplo, que o termo "clone" tem sido mal usado. "'Clone' é um substantivo colectivo. Assim, como nenhuma pessoa é 'família', nenhum organismo isolado é 'clone'. Mas esse disparate, filho da ignorância, mesmo de quem tinha obrigação de não o cometer, é um dos erros que vemos pelo mundo e, naturalmente, também em Portugal", argumenta.
O investigador lembra assim que o conceito "clone" recebeu esse nome em 1903, quando o agrónomo americano Herbert J. Webber, num artigo na Science, o propôs para "um conjunto de organismos derivados de um único por reprodução assexuada".
Mas "clone" não é o único disparate que anda nas bocas do mundo, segundo Miguel Mota. O investigador prefere falar em "variabilidade" para se referir àquilo a que "agora gostam de chamar 'biodiversidade'" e também continua a tentar convencer as pessoas a desistir da expressão "células estaminais" para o substituir por "células tronco" (segundo explica, a confusão foi gerada por uma tradução mal feita do termo stem cells). "Células estaminais são as células dos estames das flores (em inglês staminal cells) e, no estado actual da ciência, não podemos obter com elas qualquer uso em humanos para curar tecidos danificados."
E sobre "o ridículo nome de 'agricultura biológica'"? "Enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas e bifes sintéticos, toda a agricultura é biológica", nota o especialista.
Falemos de agricultura, então. Pela voz do homem que é o "pai" de algumas linhas de centeio melhoradas que estarão implantadas em várias regiões do país, nas Beiras e Trás-os-Montes. "Foi o resultado de um trabalho que fiz em Elvas. São centeios aos quais dupliquei o número de cromossomas, fiz aquilo a que hoje se gosta de chamar 'biotecnologia', criando plantas com 28 cromossomas que nalgumas zonas podem, com rearranjos, autofecundações e selecção, dar 50 por cento mais do que os outros centeios cultivados." Onde estão? "Não sei o que é feito disso, porque o Ministério da Agricultura teve a gentileza de cortar e impedir uma série de trabalhos."
Por essas e por outras, está zangado. "Não pode haver agricultura que preste se o Ministério da Agricultura não tiver uma investigação agronómica em grande. E os últimos governos, de várias cores - qual deles o pior? -, têm seguido o caminho contrário", critica. Indignado com os rabanetes holandeses e os alhos da China que vemos no supermercado, questiona: "Qual é a dificuldade de produzir alhos em Portugal?" O que é um facto é que os agricultores alegam que há, cada vez mais, dificuldades em produzir. "Claro, com o Ministério da Agricultura a fazer os possíveis para destruir a agricultura e, assim, a assassinar a economia!", reage o especialista, que ainda acredita num futuro nacional apoiado na agricultura.
E reforça: "A base de um progresso na agricultura é a investigação agronómica." Miguel Mota não perdoa a decisão "idiota e criminosa" tomada em 2007 pelo Governo, que juntou num só organismo toda a investigação nesta área e "extinguiu" a Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, onde assumiu vários cargos de chefia. E denuncia ainda: "O Laboratório Nacional de Engenharia Civil é hoje uma sombra do que foi."
O investigador gostaria também de ver chegar o dia em que se acabasse com o Ministério da Ciência e se criasse um "conselho nacional de ciência" com especialistas de topo de várias áreas. Como vê a ciência que se produz em Portugal? "Há uma quantidade de gente nova excelente. Ainda há alguns restos dos antigos que são excelentes e depois há uma quantidade de senhores medíocres, alguns em lugar de comando, que conseguem estrafegar uma porção de trabalho em vários sectores."
Olhar e ver
Aos mais novos deixa ainda o conselho que se espera de quem revolucionou ou inovou, próprio de um visionário. "Não se deixem cegar pelos livros. Tenham sempre as mentes abertas. Se as vossas experiências disserem o contrário dos livros, confirmem, confirmem de novo e publiquem-no. Os livros podem estar errados."
Miguel Mota é um espectador de primeira fila da actualidade do país. Agora tem mais tempo para "olhar e ver" - o que fez ao longo de toda a sua vida profissional, segundo notou Teixeira da Silva. Reformou-se em 1992 e, desde aí, escreve mais do que nunca. Para os jornais, para o Linhas de Elvas, onde é colaborador regular de opinião. Também ainda dá aulas de Genética em universidades séniores, entre outras actividades académicas. A mulher que hoje o observa (sem esconder um pingo de orgulho) enquanto é fotografado para o P2 foi sua aluna na sala de aula. Alguém diz: "O Miguel está bonito hoje. É para a homenagem?"
Ela corrige: "Ele é bonito."

 

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Cerca de 350 trabalhos científicos
Universidade do Porto reúne mais de 800 investigadores
25.02.2009 - 18h51 


Uma ligação mais próxima entre universidade e o tecido empresarial e alunos mais activos, com espírito de curiosidade apurada. São estes os objectivos da 2ª edição do encontro de jovens investigadores da Universidade do Porto (UP), que junta, até sexta-feira, mais de 800 jovens investigadores da UP, na apresentação de cerca de 350 trabalhos de investigação científica.

Com o IJUP - Investigação Jovem na Universidade do Porto - “o estudante transforma-se no agente criador do conhecimento, o que muda completamente a forma de abordagem do ensino superior”, explica o vice-reitor da UP, Jorge Gonçalves.

A Faculdade de Arquitectura da UP transforma-se num palco privilegiado de divulgação de projectos, que este ano deixaram de estar confinados às áreas mais “tradicionais”, como a tecnologia e a biologia, e se alargaram a “áreas onde habitualmente não há investigação, como as artes”. Alguns dos programas são mais “orientados para a publicação em revistas nacionais ou internacionais, outros darão origem a protótipos”.

Além disso, o vice-reitor destaca o facto de a maioria dos estudantes serem voluntários neste projecto: “Há estudantes que receberam um pequeno financiamento da UP para desenvolver alguns projectos, mas a maioria ofereceram-se para trabalhar com grupos de investigação, sem qualquer contrapartida garantida”.

Este ano, o evento mais do que triplicou o número de investigadores presentes. Uma realidade a destacar, mas que ainda está longe de ser a ideal. “Se pensarmos que temos cerca de 800 estudantes envolvidos no projecto, numa universidade com 25 mil, é uma gota de água. Mas temos que ser realistas nas metas que definimos: com a massificação que existe hoje nas faculdades não é realista pensar que se pode envolver todos os estudantes”, explica.

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As florestas do continente africano absorvem cada vez mais dióxido de carbono (CO2), à semelhança do que acontece na Amazónia, revelou quarta-feira um estudo internacional que será publicado hoje na revista britânica Nature.

Destak/Lusa |19 | 02 | 2009 08.56H

 

 

Uma investigação levada a cabo por 79 laboratórios dos Estados Unidos, Europa, África e Ásia demonstrou que, no período entre 1969 e 2007, a absorção de dióxido de carbono pelas árvores da floresta africana aumentou à semelhança do que foi registado na floresta amazónica (0,63 toneladas por hectare por ano).
"As florestas tropicais africanas desempenham um papel importante na captação de CO2, ajudando a reduzir assim a taxa de crescimento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera", explicaram os autores do estudo, sublinhando a necessidade de proteger as florestas no continente africano.
No entender de Helene Muller-Landau, uma especialista do Instituto de Investigação Tropical Smithonian, no Panamá, a crescente absorção de CO2 por parte das florestas africanas pode ter duas explicações.
"As arvores ou sofreram grandes danos no passado e actualmente estão em fase de repouso, ou então, estão a ser perturbadas pelas mudanças climáticas e atmosféricas de tal maneira que se encontram em transição", considerou a especialista.
Por sua vez, outro estudo levado a cabo por cientistas da Universidade britânica de Leeds, adiantou hoje que as árvores das florestas virgens estão a crescer e a capturar cada vez mais dióxido de carbono na atmosfera, o que contribui para atenuar os efeitos das alterações climáticas.
"Estamos a receber um subsídio gratuito da natureza", afirmou Simon Lewis, principal autor do estudo, num artigo publicado na última edição da revista Nature.
Pela primeira vez, os cientistas conseguiram calcular a quantidade de C02 absorvido pelas florestas tropicais virgens, que ascende a 4.800 milhões de toneladas anuais, um valor que equivale a uma quinta parte das emissões causadas pela queima de combustíveis fósseis.

 

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Cartas ao director, Público, 090128

Não sei que qualificação académica possui o investigador Luís Fernandes. Eu cá, sou apenas licenciado pela Faculdade de Medicina da UP, assistente de Microbiologia da mesma Faculdade, aposentado. Não sei se percebi bem a ideia que desenvolve no PÚBLICO de ontem, 27/01.
Será que, pelo medo da submissão ao sistema científico anglo-americano, se propõe publicar os seus trabalhos de investigação em português, ou mirandês?!... Claro que ninguém o vai proibir. Mas, obviamente, também "ninguém" o vai ler... Dir-me-á que as avaliações dessas tais entidades internacionais estão, ou poderão estar enviesadas, sabe-se lá por que factores ou preconceitos... Mas, isso acontece com tudo! Porque será que um escritor só ganha o estatuto de "grande" quando consegue ver as suas obras traduzidas nos idiomas com mais falantes? Obviamente porque, desse modo, consegue maior divulgação. Porque consegue, assim, mais leitores. Ora, com a investigação o princípio é o mesmo; digamos que, em sentido inverso. O cientista, seja polaco, grego ou português, só consegue divulgar o seu trabalho se conseguir que os editores das revistas escritas no "idioma científico" mais universal, que é o inglês, quer queiramos quer não, o avaliar como relevante... É o que vai acontecer com esta minha Carta ao Director: só será publicada se, quem a ler, na redacção do jornal, achar que tem alguma pertinência...
Provavelmente na Alemanha, na Rússia, na China e na Índia, publicam-se grandes revistas científicas, eventualmente com grandes tiragens, mas... quem as lê, do chamado mundo ocidental?... Obviamente, só se se submeterem à tal ditadura da língua anglo-americana. Aliás, se alargarmos o horizonte desta reflexão, ninguém está impedido de continuar a comunicar por Morse... mas a Internet é muito mais eficaz!
Passos Gonçalves
Médico - Barcelos
 

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O American Way of Science

por papinto, em 27.01.09

PÚBLICO 27.01.2009, Luís Fernandes

 

 

O apelo à internacionalização dos cientistas equivale, na prática, à submissão ao sistema científico anglo-americano

 

 

Écomum ver hoje designadas as nossas sociedades como "sociedades do conhecimento". A produção e a difusão de saber científico são aspectos-chave do funcionamento deste tipo de sociedades, o que confere às suas comunidades científicas um papel estratégico. É por isso que, com regularidade, os governos reafirmam ritualmente o seu investimento na sociedade do conhecimento em geral - veja-se o caso recente do já famoso computador Magalhães - e no sector científico em particular. Ora, a Fundação para a Ciência e Tecnologia tornou públicas, no final do ano passado, as classificações dos centros de investigação que financia.
Não pretendemos pôr em causa a necessidade de avaliar as estruturas da investigação científica ou, sequer, colocar em causa a idoneidade e a isenção do processo que foi levado a cabo. Visa-se, apenas, reflectir sobre o modo como tende a ajuizar-se hoje o trabalho de quem se dedica profissionalmente à ciência, procurando mostrar como este juízo responde a um sistema de regras, nem sempre claramente explicitadas, que relevam de factores extracientíficos. O nosso ângulo de análise é elaborado a partir das ciências sociais e humanas, admitindo por isso que, para outros sectores da divisão das ciências, as questões possam não ser colocadas, em relação a alguns aspectos, do mesmo modo.
As investigações norte-americana e inglesa têm vindo a adquirir progressiva influência no sistema científico internacional, convertendo-se numa verdadeira dominação. É próprio dos sistemas de dominação um traço etnocentrista: são melhores do que os outros, como o demonstra o facto de dominarem, e, portanto, consideram-se, por uma espécie de direito natural, investidos da incumbência de ditarem aos outros um conjunto de regras. E é próprio dos dominados acabarem por incorporar essas regras, de tal modo que passam a achar que são naturalmente suas. No caso vertente, elas ditam aquilo que deve ser investigado, o formato em que devem decorrer os certames de especialistas, em que órgãos da comunicação da ciência devem ser publicados os resultados e em que língua os investigadores devem expressar-se - o que decorre naturalmente do idioma dos países desses órgãos.
As línguas inglesa e, em menor grau, francesa são os instrumentos de afirmação da hegemonia. Sabemos como os sistemas de controlo apostam na vigilância das linguagens e das línguas - a hegemonia exprime-se numa linguagem positivista e na língua inglesa.
Todo o sistema de dominação que não se impõe pela força, mas pela subtileza, tende progressivamente a ser incorporado como natural. É por isso que as gerações de investigadores mais jovens, aculturadas no circuito de congressos internacionais e nos circuitos virtuais da net, onde o inglês é o veículo, não sentem isto como dominação, mas como proficiência - é-se tanto mais competitivo e, portanto, num sistema marcado por uma competição desenfreada, tanto melhor cientista quanto mais e melhor se falar e escrever em linguagem positivista e em língua inglesa.
Note-se que ainda há poucas décadas esta ditadura da língua pendia para o francês. E sabemos dos esforços que a França faz para se manter como língua internacional da ciência, numa consciência clara da perda de influência que a sua desvalorização acarreta - porque uma língua não é só um veículo, é um sistema de pensamento, é constitutiva de uma cultura.
Enfim, o sistema internacional são meia dúzia de países, uma linguagem e duas línguas. Para os avaliadores da FCT, não conta publicar um artigo numa revista brasileira ou espanhola? E polaca ou grega? Os polacos ou os gregos não conseguem fazer uma revista científica que valha pontos? Quando fazemos investigação solicitada e financiada por instituições portuguesas, devemos escrever os relatórios em inglês? E, se a problemática for pouco interessante para os norte-americanos, por razões da nossa especificidade sociocultural, não podendo publicá-la nesses países, esta investigação não vale pontos? Publicá-la aqui não serve para nada? Então a produção de saber não deve ser utilizada pela comunidade a que diz respeito? Não visa agir na nossa realidade próxima? E, se publicar aqui não vale nada, como pode algum dia chegar-se a ter uma boa revista científica?
Portanto, o justo apelo que é feito aos cientistas para se internacionalizarem - o que, nas regras do jogo científico, é não só sensato como indispensável - equivale, na prática, à submissão ao sistema científico anglo-americano. Publicando nas revistas que, neste sistema, são consideradas de qualidade, estamos internacionalizados. E são estas que lemos, são estas que pomos os nossos alunos a ler e é nestas que alguns deles algum dia publicarão - fechando-se assim o círculo da dominação, que a reforça e, no limite, a hegemoniza, tornando-a indiscutida e indiscutível. Foi este o mecanismo pelo qual uma série de países alimentou o sistema financeiro liderado pelos EUA convertido em tentativa de hegemonia neoliberal e cujo círculo acaba de romper-se.
Se esta dominação se verificasse a outros níveis, desqualificando tudo o que se passasse noutras latitudes que não a do eixo anglo-americano e, em menor escala, francófono, esses países seriam acusados de imperialistas e de praticarem a discriminação.
Como podem pessoas que pertencem à nossa cúpula intelectual, como são os membros da comunidade científica, não se darem conta de que estão a ser alinhados por uma mão adestradora que é, em particular no caso das ciências sociais e humanas, exterior à sua lógica de produção e difusão do conhecimento?
Como não se dão conta de que estão a ser infantilizados em interrogatórios de senhores que vêm, por meia dúzia de dias, ao nosso país constituir um júri desfasado da nossa realidade e incapaz de ler, sequer, o melhor da nossa produção porque este não está, as mais das vezes, nas línguas deles?
Que fazemos do pensamento crítico, que devíamos ter tão treinado?
Como somos tão complexos e críticos para umas coisas e tão simplórios e amorfos para outras?
Fiquemo-nos, para já, com estas questões, enquanto não chega o próximo júri internacional convidado pela FCT e não nos ajoelhamos de novo, prontos para o exame de consciência científica... Investigador
 

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