Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Portugal importa 30 por cento dos alimentos por produzir poucos cereais

 

Público, 2011-03-08 Manuel Carvalho

A necessidade de exportar mais e de importar menos comida enfrenta um nó górdio: o abandono dos cereais. No resto, o sector até se portou assim-assim


No dia 28 de Janeiro deste ano, o agrónomo e ex-ministro da Agricultura Armando Sevinate Pinto foi ao supermercado e, na banca da fruta e dos legumes, tomou nota da globalização. Lá estavam morangos ou mamão do Brasil, cogumelos da Holanda, espargos do Peru, beringelas da Espanha, nêsperas da Guatemala, amoras do México, mirtilos do Chile, romãs da Turquia ou pimentos do Uganda. Sim, também havia maçãs e pêras de Portugal, mas esta "babel" hortofrutícola que se encontra nas grandes superfícies está na origem daquilo que o também ex-ministro Gomes da Silva designa por "mito urbano". De acordo com esse "mito", Portugal deixou de ter agricultura, importa tudo o que produz, abandonou terras, estoirou as ajudas europeias na compra de jipes ou de casas em Cascais e é hoje um sector marginal e incapaz de ajudar o país a sair da crise.

Verdade? Nem tanto. A agricultura nacional nunca foi capaz de garantir abastança. Todos os anos, o país tem de importar quase um terço das suas necessidades alimentares, uma factura que, em 2009, quase dava para construir o novo aeroporto de Lisboa (a diferença entre o que exportou e o que importou rondou os 4000 milhões de euros). Mas, feito o registo, será que, como se ouve dizer com frequência, a dependência externa se agravou? Não agravou. Mais: se a produção global estagnou e a necessidade de importar comida se manteve foi principalmente por causa da redução brutal da área e da produção de cereais. Sem essa redução, o sector agrícola não seria hoje visto como um patinho feio da economia, mas talvez como um herói da competitividade nacional.

Uma questão recorrente

O problema dos cereais é velho de 200 anos. O facto de ser a base da alimentação humana confere-lhe sensibilidade política e todos os governos desde o liberalismo tentaram o mito do auto-abastecimento - a "Campanha do Trigo" de Salazar, lançada em 1929, destacou-se tanto pelo fracasso dos seus fins como pelos danos ambientais que causou. Quando os preços no mercado mundial atingiram um pico em 2008 e voltaram a subir em Junho de 2010, esperava-se que os agricultores reagissem. Nem isso. Em 1990, por exemplo, dedicaram cerca de 424 mil hectares (um hectare é equivalente à área de um campo de futebol) à cultura de trigo e do milho; mas, em 2009, essa área estava já reduzida a 157 mil hectares. Em termos de produção, as quantidades reduziram-se para um terço. E o país tem de comprar lá fora 75 por cento dos cereais que consome.

Para a maioria dos especialistas, as condições do solo e do clima impedem grandes ambições. "Não tenhamos ilusões a esse respeito", diz Arlindo Cunha, doutorado em Economia Agrária e ex-ministro da Agricultura. Francisco Avillez, professor universitário jubilado, acredita que as novas áreas de regadio que estão a nascer no Alqueva podem aumentar áreas de produção, mas sem grande impacte nas contas gerais da cultura. António Serrano, ministro da Agricultura, admite que a produção se eleve, mas dificilmente poderemos produzir mais de um terço dos grãos do que consumimos.

O factor PAC

Esta convicção alargada depende, em última instância, de um factor principal: a Política Agrícola Comum (PAC). Sem terem de semear para receber subsídios, muitos agricultores constataram que entre o que investiam e recebiam na colheita não era compensador; daí ao abandono de terras mais pobres foi um passo.

Mas se é evidente que há uma crise grave nos cereais, nas outras culturas a situação é mais favorável. A agricultura foi capaz de se adaptar aos mercados e aproveitar a sua feição mediterrânica para suprir as perdas. Se é verdade que, medido em preços correntes (não actualizados pela inflação), o valor da produção de cereais caiu de 343 milhões de euros em 1986 para 155 milhões em 2009, os hortícolas aumentaram de 371 para 1094 milhões, as frutas de 586 para 1082 milhões, o azeite de 590 mil euros para oito milhões e o vinho de 342 para 678 milhões de euros. Ou seja, hoje, o sector hortofrutícola, no qual o país tem vantagens comparativas (é, por exemplo, capaz de produzir legumes dois meses antes dos holandeses ou belgas), já representa um terço do valor final da produção da agricultura.

O mesmo com menos terra

E este desempenho que contraria os "mitos urbanos" torna-se ainda mais notável se considerarmos que a área agrícola é hoje muito menor. E que é trabalhada por quase metade das pessoas que a cultivavam em 1986. Gomes da Silva nota que o desaparecimento de explorações foi mais veloz que a redução da área utilizada, o que triplicou a área média das propriedades e reforçou a sua competitividade. Regra geral, os agrónomos dizem que as terras abandonadas eram "pobres" ou "marginais", incapazes por isso de sustentar uma produção agrícola moderna. Francisco Avillez chama também a atenção para o facto de, em muitos casos, não se poder falar de "abandono de terras", mas da sua "extensificação". Por exemplo, quando um agricultor deixa de semear batatas e passa a cultivar forragens para alimentação de bois e vacas. Armando Sevinate Pinto, que foi alto-funcionário da Comissão Europeia e ministro da Agricultura com Durão Barroso, vai no mesmo sentido e diz: "Não conheço um único hectare de terra boa que esteja fora de produção".

Redução persiste

Há quem não partilhe o optimismo. Em causa, receia o ministro da Agricultura, pode estar já o abandono de áreas agrícolas boas. Os dados estatísticos parecem dar-lhe razão, ao revelarem que a redução da área agrícola persistiu na década passada, quando, entre 2003 e 2007, desapareceram 30,6 por cento das explorações (a maior razia na UE a 27) e sete por cento das terras agrícolas (pior só na Roménia e na Eslováquia, enquanto em Espanha a ocupação agrícola cresceu 1,6 por cento no período).

Se é verdade que a produção agrícola, em valor bruto de produção, estagnou, mas não caiu, ao contrário do que é ideia corrente, pode acreditar-se que o sector "tem margem para reduzir a dependência externa de alimentos", diz António Serrano. "Se nos deixarmos de apostas erráticas, podemos aumentar as exportações em 15 por cento e reduzir as importações em 25 por cento", diz Sevinate Pinto. "Temos de organizar os sectores e seguir os bons exemplos, como o das frutas e legumes", considera António Serrano.

Ainda assim, todas as expectativas, todas as projecções se baseiam na crença de que se manterá um nível de protecção do sector no âmbito da PAC, que, além de ter canalizado para Portugal no último ano cerca de 800 milhões de euros em ajudas ao rendimento, mantém uma protecção alfandegária contra a concorrência externa. Se, como lembra Francisco Avillez, a pecuária nacional tiver de concorrer com a da Argentina ou do Brasil, se os cereais se abrirem à máquina produtiva dos Estados Unidos, então pouco haverá a fazer.

O mais e o menos do Portugal agrícola

Público 20110308

Factor humano é uma das maiores limitações


Os pontos fortes

O sector leiteiro Portugal não só é capaz de produzir o leite que consome como ainda dispõe de uma ligeira margem para exportar. Mais: num sector aberto ao investimento estrangeiro, as marcas nacionais continuam a dominar o mercado. O sucesso do sector resulta em grande parte do trabalho da rede de cooperativas do Norte e do Centro do país que se uniram para criar o gigante Lactogal. A concorrência e a procura da eficiência afastaram dezenas de milhar de pequenos produtores do negócio e, nos dias de hoje, a redução dos preços está a causar ameaças aos que restam. Mas, numa área difícil, a agricultura nacional saiu-se bem.

Azeite É talvez o mais fulgurante caso de sucesso dos últimos anos. Por volta de 1960, a produção de azeite foi ameaçada pelos incentivos políticos concedidos aos óleos vegetais. Quando entrou na CEE, Portugal importava mais de três quartos das suas necessidades, embora reexportasse uma parte. A cultura caiu no esquecimento, mas uma série de investimentos espanhóis, nota Sevinate Pinto, "ensinou-nos como se faz". Ainda que tenhamos de comprar quase metade das nossas necessidades, na última década fez-se o maior olival do mundo, a área cresceu 10 mil hectares entre 2005 e 2009 e quando os jovens olivais entrarem em produção Portugal pode ficar perto da auto-suficiência.

Frutas e legumes Há anos que se anunciava o potencial nacional para as frutas e legumes e agora esse potencial começa a dar frutos. No ano passado, as exportações do sector ficaram quase 200 milhões de euros acima das do vinho. Sem alarido, nas zonas do Oeste ou no vale do Mira, jovens empresários, voltados para o mercado e abertos à exportação começaram a tornar o sector num caso sério. Portugal é excedentário em legumes, mas, apesar do lento salto na produção de fruta, ainda depende em 35 por cento do que consome do exterior. O país está ainda a ganhar fôlego em novas produções, com o destaque para o kiwi.

Vinhos Os vinhos portugueses ganham cada vez mais prémios internacionais, mas, se não fosse a expressão do vinho do Porto, que vale quase metade dos 594 milhões de euros exportados em 2009, o desempenho externo do sector seria duvidoso. Ainda assim, a viticultura e a enologia deram saltos para níveis internacionais, há empresas com músculo (a Sogrape tem propriedades na Argentina e na Nova Zelândia) e mercados que começam a ficar consolidados, como o do Brasil ou de Angola. No ano passado, as exportações cresceram 17 por cento.

Os pontos fracos

Cereais Em 1990, a agricultura produziu 44,2 por cento das necessidades de consumo de cereais; em 2008, já só respondia por 25,3 por cento. Durante os primeiros anos da PAC, os preços altos ou os subsídios foram mantendo o nível produtivo; quando, depois de 2005, as ajudas da PAC começaram a ser pagas sem qualquer ligação às sementeiras ou às colheitas, os agricultores fizeram as contas e concluíram que a venda de grão não dava em muitos casos para compensar os gastos com adubos ou mão-de-obra. Metade da área foi retirada da produção e em muitos casos transferida para pastagens, nota António Serrano. As condições do solo e do clima nacionais não tornam a produção competitiva.

PAC A arquitectura da PAC foi feita a pensar no Norte da Europa e não no Mediterrâneo. Por exemplo, os cereais ou a carne bovina são altamente subsidiados, mas as frutas e os legumes não. E como o valor dos subsídios se associa aos índices históricos de produtividade, uma agricultura atrasada como a nacional ficou condenada a ser uma espécie de parente pobre . Depois de 2005, a PAC mudou e cristalizou este modelo, concedendo um "pagamento único" por exploração com base nesses índices. Ao permitir que o agricultor escolha o que fazer nas terras, promoveu o abandono de áreas menos competitivas. A nova PAC, prevista para 2013, corrigirá esta situação.

Perfil dos agricultores Há 30 anos, um milhão de portugueses trabalhava na agricultura (nem todos a full-time); em 2009, resistiam 540 mil. Quem ficou? Os mais velhos. Quase 45 por cento têm mais de 65 anos. Nem um por cento tem formação agrícola completa, contra 8,7 por cento da média europeia. Alguns, poucos, lideram empresas, que representam dois por cento das explorações. Não há um retrato padrão dos agricultores, mas sabe-se que, na maior parte dos casos, estão longe de ser capazes de responder à competição actual. Manuel Carvalho

Autoria e outros dados (tags, etc)

TSF on-line 16.12.2010

Uma em cada quatro explorações agrícolas deixou de existir, sobretudo pequenos terrenos, na Beira Litoral, Ribatejo, Oeste e Algarve. Ainda assim, as explorações ocupam metade do território nacional.

Em dez anos, desapareceu uma em cada quatro explorações agrícolas. Ao todo, deixaram de existir 112 mil, sobretudo pequenas explorações, na Beira litoral, Ribatejo, Oeste e Algarve.

O recenseamento mostra outros recuos de terras aráveis e do número de explorações pecuárias. Há menos porcos, ovelhas e cabras, uma queda que chega aos 25 por cento. Só o número de bovinos se mantém estável.

Há uma área menor para a vinha, menos batatas e cereais para grão, menos pomares de frutos frescos, menos limões e laranjas.

Em contrapartida, a produção de frutos subtropicais subiu, com destaque para o kiwi, e aumentou o número de tractores.

Quanto ao perfil dos agricultores, são homens, em média estão mais velhos quatro anos, quase metade tem mais de 65 anos e mais de metade tem apenas a antiga 4ª classe.

A família é responsável por cerca de 80 por cento do trabalho agrícola e as pensões e reformas representam o principal rendimento para estes homens da terra.

Estes dados preliminares do recenseamento agrícola de 2009 foram revelados, quarta-feira, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), numa operação que custou cerca de 17 milhões de euros e que envolvendo mais de dois mil colaboradores.


Autoria e outros dados (tags, etc)

Desfolhada

por papinto, em 13.12.10

 

Sousa Chantre (1957-...)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vinha de enforcado (Guimarães, 2007)

por papinto, em 11.12.10

Autoria e outros dados (tags, etc)

Agro Portal, 2010.12.05

Os estrangeiros a trabalhar na apanha de fruta e hortícolas nos campos algarvios praticamente já superam os portugueses, disseram responsáveis de organizações de produtores locais, que admitem a dificuldade em recrutar trabalhadores nacionais.

A preferência por outras áreas como o turismo, comércio ou serviços, a «concorrência» do subsídio de desemprego e o facto de o trabalho no campo ser ainda considerado precário são alguns dos factores que poderão afastar os portugueses.

A dificuldade é tanta que já houve organizações de produtores a ir a Marrocos para recrutar trabalhadores, contudo, a obtenção dos vistos demorou tanto tempo que quando os marroquinos chegaram ao Algarve já a produção tinha ficado perdida.

A maioria dos estrangeiros a trabalhar nos campos algarvios, em permanência ou na época de campanha, são originários de países do Leste europeu como a Roménia, Ucrânia ou Bulgária, embora haja também marroquinos e até tailandeses.

o director regional de Agricultura e Pescas do Algarve, Joaquim Castelão Rodrigues, confirma que existe dificuldade em contratar mão de obra nacional para o sector agrícola por muitas pessoas «se negarem» a trabalhar na área.

O presidente da Uniprofrutal, Eduardo Ângelo, estima que em dez pessoas necessárias para apanhar fruta apenas uma seja portuguesa, o que faz com que os estrangeiros representem já mais de metade do total nas explorações agrícolas algarvias.

Para o director geral do grupo Hubel, Humberto Teixeira, a maior concorrência não é a de outros sectores, mas sim o «subsídio de emprego por si só», já que a tentativa de recrutamento de pessoas inscritas nos centros de emprego sai quase sempre gorada.

O grupo tem como uma das suas áreas de negócio a produção e comercialização agrícola e, através da Madrefruta, congrega produtores que cultivam desde morangos, framboesas, pêssegos ou melancias a tomates, pepinos ou feijão verde.

Em entrevista, aquele responsável diz que mais de metade dos seleccionados se apresentam «com uma postura de desinteresse» e às vezes até ameaçam os potenciais empregadores, «pedindo que não os seleccionem».

«Não existe uma cultura de responsabilidade nos inscritos [no IEFP] que são seleccionados para o trabalho na agricultura», diz, lamentando que o sistema actualmente instituído fomente algumas «vantagens na condição de desempregado».

O mesmo problema acontece com os produtores da Cooperativa Agrícola de Citricultores do Algarve (Cacial), que se vêem obrigados a recorrer a estrangeiros para não perder as produções, diz Horácio Ferreira.

Segundo disse, os poucos portugueses que aceitam trabalhar na apanha da fruta são os que mais faltam ao trabalho, o que não acontece com os estrangeiros, havendo muitos que desistem dias depois do começo das campanhas.

«Se não fossem eles [os estrangeiros], nos dias de aperto não sei o que faríamos», desabafa, sublinhando que enquanto os nacionais faltam ou metem muitas vezes falsas baixas médicas, os estrangeiros até se oferecem para trabalho suplementar.

Fonte: Lusa

Autoria e outros dados (tags, etc)

Visita de estudo de Agricultura

por papinto, em 15.11.10

Autoria e outros dados (tags, etc)

PORTUGAL AGRÍCOLA (1980-2006)

por papinto, em 28.10.10
PA_1980-2006

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Público 2010.08.19 Carlos Dias

Vão ser precisos mais de 30 milhões de euros para recuperar e requalificar apenas oito das 49 infra-estruturas hidroagrícolas que se encontram obsoletas ou degradadas


 

Cerca de dois terços dos 25 aproveitamentos hidroagrícolas colectivos construídos e equipados pelo Estado no continente nos anos 60 do século passado, para fornecer água a quase 100 mil hectares de regadio, atingiram o seu tempo de vida útil. Esta informação está expressa num estudo elaborado pela Direcção-Geral da Agricultura e do Desenvolvimento Rural (DGARD), entidade que gere os sistemas de regadio nacionais.

O documento acentua que há equipamentos de rega que se encontram em situação de "colapso total" e que nestas condições "não é possível garantir o fornecimento de água aos beneficiários" de rega de norte a sul do país. Assim, "torna-se essencial que se dê cada vez mais atenção" à necessidade de intervenção nestes aproveitamentos de modo "a assegurar a sua renovação", adianta o estudo.

A dimensão das anomalias detectadas impõe uma intervenção que garanta a continuidade do regadio nos sistemas a necessitar de urgente recuperação ou requalificação, mas, como os recursos financeiros "são escassos", terá de haver "escolhas criteriosas" por parte da Autoridade Nacional do Regadio (ANR).

Mesmo assim, a "Operação de Reabilitação das Infra-estruturas Agrícolas", financiada pelo Programa de Desenvolvimento Regional (Proder), exige um investimento superior a 30 milhões de euros, quando inicialmente estavam previstos 21 milhões de euros. A ANR vistoriou 49 situações correspondentes a 15 aproveitamentos, mas só oito infra-estruturas hidroagrícolas é que vão ser sujeitas a obras de recuperação ou de requalificação, em função da verba disponibilizada no Proder.

Aos sinais de degradação que apresentam os sistemas de regadio de norte a sul do país junta-se o abandono progressivo de áreas de rega. José Núncio, presidente da Federação Nacional de Rega (Fenareg), dá o alerta: "Em 1989 existiam no continente 650 mil hectares de terras regadas. Em 2007 foram utilizados 422 mil hectares." Em pouco mais de sete anos deixaram de ser cultivados 234 mil hectares de regadio, uma quebra substancial que dificilmente será atenuada com os 110 mil hectares do sistema de Alqueva que estarão prontos até final de 2012, mas onde já é patente a baixa procura das culturas regadas, quando está concluída cerca de metade da área a regar que o projecto engloba.

O 3.º Congresso Nacional de Regadio, realizado em Beja no passado mês de Maio, deixou claro que o modelo até aqui seguido para o regadio terá de ser reequacionado.

O ex-ministro da Agricultura, Armando Sevinate Pinto, durante a sua intervenção no evento destacou que o país "está longe de atingir patamares razoáveis na gestão da água e do regadio" e sugeriu aos utilizadores deste modelo agrícola e à tutela que devem "priorizar-se" os regadios existentes em detrimento de novos sistemas.

Também a nível mundial a situação não é melhor. Rui Fragoso, docente na Universidade de Évora, sublinhou que, só na segunda metade do século XX, o Banco Mundial "apoiou a construção por todo o mundo de 45.000 barragens" para dar apoio a 389 milhões de hectares de regadio.

No entanto, este modelo tinha dois pressupostos que acabaram por "asfixiar" o sistema.

Incentivou o crescimento da procura, de que resultaram para o presente "impactes ambientais tremendos", a um ponto tal que nos anos 80 "o modelo entrou em crise", observou o docente, frisando que "hoje já não se defendem este tipo de investimentos" na medida em que a maior parte deles tem custos sociais elevados, expressos na "diminuição da oferta de água, a par do aumento da sua procura", salientou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Público, 2010.08.19
Por Raquel Martins, Ana Tavares, Carlos Cipriano

Abandono de terras, quebra de produtividade, factor climático e reforma da Política Agrícola Comum explicam forte quebra na produção


A produção de cereais em 2010 ameaça ser das mais baixas das últimas décadas e deverá cair 20 por cento em relação a 2009. As previsões agrícolas do Instituto Nacional de Estatística (INE), ontem divulgadas, revelam que esta será a segunda pior campanha desde pelo menos 1986. De acordo com o INE, a produção de trigo, centeio, aveia e cevada não irá além das 223 mil toneladas. Pior só em 2005, ano em que a produção não chegou às 161 mil toneladas. E se olharmos mais para trás, entre 1990 e 2010, a produção cerealífera de Inverno caiu 63 por cento. Na década de 90, a produção de trigo mole (usado para produzir farinha) chegava quase às 273 mil toneladas e a produção de cevada era de pouco mais de 78.500 toneladas. Passados 20 anos, o trigo ceifado não deverá ultrapassar as 67 mil toneladas, um valor muito próximo das 55 mil toneladas de cevada que se espera produzir.

O INE atribui as produções "excepcionalmente baixas" à diminuição das áreas semeadas e às quebras de produtividade, devido ao "alagamento dos terrenos" e à "elevada presença de infestantes". Mas Arlindo Cunha, antigo ministro da Agricultura, considera que "o factor climático não foi o pior" e que a principal causa prende-se com a reforma de 2003 da Política Agrícola Comum (PAC). O ex-eurodeputado lembra que a PAC de 2003, altura em que as ajudas aos agricultores foram desligadas da produção, levou a que as pessoas prefiram "não plantar e receber o subsídio". Arlindo Cunha defende que antes da próxima revisão da PAC - prevista para 2013 - é necessário fazer-se uma análise detalhada sobre as culturas nos vários países, de forma a que os subsídios sejam dados consoante o nível de produtividade, pois "nas regiões menos produtivas, essa prática [ajudas desligadas da produção] pode levar ao abandono". O antigo ministro diz que a diminuição da área semeada é também consequência dos preços pagos aos produtores "que são cada vez mais baixos".

Também Francisco Avilez, professor do Instituto Superior de Agronomia, considera que o decréscimo da produção de cereais em Portugal ao longo das últimas décadas se deve às alterações que foram sendo introduzidas na PAC. Mas isso não significa, na opinião deste especialista, que a futura revisão da política agrícola europeia lhe mude o rumo. "A grande questão sobre o futuro da PAC é como orientar uma parte significativa dos apoios, de forma a viabilizar determinado tipo de sistemas com preocupações ambientais e sociais", salienta, alertando que não faz sentido continuar a proteger o mercado interno. Francisco Avilez acrescenta que a produção de cereais de sequeiro só faz sentido para manter determinados ecossistemas e uma economia rural em certas regiões e não para concorrer nos mercados internacionais, onde não tem qualquer hipótese, já que se trata de uma cultura de sequeiro com uma produtividade inferior à conseguida pelos restantes parceiros europeus.

Já o presidente da Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), Bernardo Albino, responsabiliza a "falta de uma estratégia política". "Há tantos planos e estratégias, por que é que não há um para a produção de cereais", questiona. O dirigente defende que "o país devia ser ambicioso" quanto à produção e manutenção dos stocks de cereais, já que, alerta, apenas 25 por cento dos cereais consumidos em Portugal são produzidos em solo nacional e os restantes 75 por cento vêm de fora. O presidente da ANPOC frisa ainda, em linha com Arlindo Cunha, que "os preços pagos ao produtor são baixos", facto que leva a que cada vez mais "pessoas abandonem as terras ou optem por outras plantações".

Frutas caem 30 por cento

As perspectivas para a fruticultura também não são animadoras, onde o INE prevê quebras de 15 por cento na produtividade dos pomares de pessegueiros e de 30 por cento nas macieiras e pereiras, cuja apanha ainda não se iniciou. São os próprios produtores que confirmam estes dados. Torres Paulo, da Frutus, uma empresa do Cadaval que produz 15 mil toneladas por ano de pêra rocha, maçã e ameixa, diz que ao nível da pêra a quebra até é capaz de ser um pouco superior a 30 por cento. Para o também dirigente da Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha (ANP), esta descida explica-se por duas razões: "[Em 2009] a produção atingiu um valor recorde e era difícil haver outro ano assim, e já estávamos à espera de uma quebra de 10 por cento. Os outros 20 por cento explicam-se por razões climatéricas."

Esta descida acompanha uma tendência europeia, embora seja mais acentuada em Portugal. Numa reunião em Kiev a 6 de Agosto, os representantes dos produtores europeus já previam uma quebra global média de 19 por cento da fruta em Portugal, Espanha e Itália. Apesar de tudo, a situação portuguesa não é dramática: "Quando a produção é demasiada, os preços descem e no ano passado, devido ao pico de produção, tivemos pela primeira vez dificuldade em escoar tudo, coisa que não tinha acontecido nos anos anteriores." A Frutus, que factura cerca de 7 milhões de euros por ano, exporta 80 por cento da sua produção, sobretudo para Inglaterra, Irlanda, França e Brasil. Torres Paulo diz que uma das coisas boas que tem acontecido nos últimos anos é ter andado em contraciclo com os concorrentes (França, Espanha e Itália) com grandes produções em Portugal a coexistirem com quebras naqueles mercados. Joana Arroz, secretária-geral da ANP, considera que ainda é cedo para falar das consequências da quebra na produção. "Vamos ver. Se os preços subirem em virtude da menor produção, a situação não é preocupante. Mas se não subirem devido à crise, aí a situação já pode ser dramática", realça.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Público 2010-08-19

Desde 2003, a PAC passou a atribuir menos apoios aos agricultores das regiões mais desfavorecidas

 _____

Na reforma de 2003 da Política Agrícola Comum, a União Europeia decidiu desligar o apoio directo aos agricultores em função da produção, medida aprovada na anterior reforma de 1992.

O objectivo desta alteração foi "orientar as decisões de produção dos agricultores em função do mercado e não do tipo de subsídio existente", que do ponto de vista internacional era "considerado um factor de distorção." Foi então introduzido um regime de pagamento único a cada exploração agrícola, "dissociado da produção", "baseado em superfícies e número de cabeças" e estabelecido "com base em direitos anteriores, num período de referência".

Para aceder a este regime, um dos critérios era que os produtores apenas praticassem actividade no ano de acesso, sendo considerada como tal apenas "manutenção das terras em boas condições agrícolas e ambientais".

Apesar das alterações, a PAC continua a absorver grande parte do orçamento comunitário, e deverá ser revista em 2013.

Autoria e outros dados (tags, etc)