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Públio 2011-07-25
Por Carlos Filipe

Deixou o emprego, agarrou-se à produção e pela Internet leva fruta a todo o país e à Galiza. Do produtor ao consumidor, em 24 horas

Doce, sumarenta, para a mesa ou para sumo, a laranja é importante fonte vitamínica e o sustento de milhares de produtores algarvios. Mas muitos estão a abandonar os pomares, demasiado pequenos para poderem ter voz na formação do preço, que dizem fixado pelas grandes cadeias de distribuição alimentar. Até que alguém lançou um grito de revolta e deixou de lhes vender uma laranja que seja. O seu exemplo poderá contagiar a comunidade.



José Mendonça, de 46 anos, reside na Luz, freguesia do concelho de Tavira, e ali trabalha os sete hectares de propriedade familiar. Decidiu voltar a estudar e prepara-se para concluir Agronomia na Universidade do Algarve. Atrás de si tem 20 anos de experiência nas áreas do marketing e vendas, também feita numa importante cadeia de distribuição (de gelados). Negociou a saída, porque a empresa se preparava para substituir os mais antigos por colaboradores mais jovens. E atirou-se às laranjas.

Os dois turnos de trabalho - um agrícola, outro académico - não lhe tiraram a força para se agarrar, à noite, a mais uma ferramenta, tecnológica, e fazer passar a palavra pela Internet a todo o país. Foi assim que há um ano, quando começou - mas tal como agora - as suas laranjas, ainda na árvore, eram notícia na newsletter da sua marca (www.laranjadoalgarve.com). Deputados parlamentares algarvios agitaram os corredores de São Bento, pedindo que aquelas laranjas chegassem aos copos dos bares da assembleia.

"Isto começou pelos amigos, que passaram a mensagem aos seus amigos, e aqueles aos seus conhecimentos. Foi uma rede e atingi todo o país. Cheguei a Madrid e à Galiza e tenho contactos nas ilhas", explica José Mendonça.

Por que o fez? "O problema deste país não é produzir, que nós sabemos fazê-lo, o problema é comercializar, é vender. Os grandes grupos - Sonae, Jerónimo Martins, Auchan - abafaram tudo o que havia de retalho, as mercearias de bairro. Morreu tudo. São eles que ditam as regras. E nós temos que produzir como eles querem e ao preço a que querem", explica o produtor. E acrescenta: "Por isso é que se vê que a maior parte da produção de citrinos aqui no Algarve está abandonada. Nesta zona havia três ou quatro armazenistas de fruta a quem nós vendíamos, mas que já fecharam. Subsiste um, em Cacela, que se estruturou e aguentou, e trabalha para esses três grandes [grupos]. Os pequenos produtores, com os custos de produção que têm, não suportam os preços que lhes impõem."

O agricultor da Luz é demasiado pequeno para ser abordado por armazenistas e distribuidores, mas sabe como as coisas se processam: "Nós vendemos aos grandes armazenistas, que têm contratos com aqueles grupos. Negoceiam e entregam o produto à maneira e ao preço que eles querem. Ora, isto vai sufocando o pequeno produtor. Não há forma de aguentar. Percebo a engrenagem, sei como eles trabalham. E sei também que, quando chegamos aos supermercados, vemos lá laranja do Algarve, mas que foi apanhada há 15 dias e que foi banhada em químicos para se conservar. Fica mole."

Mãos à obra

Esta constatação fê-lo pensar como "dar a volta à situação e vender directamente ao consumidor final, rapidamente, com qualidade e a um preço justo, para o produtor e para o consumidor". A solução: "Parti para muita pesquisa e vi que este mecanismo já funcionava bem em Espanha e decidi experimentar. Está a correr bem, não me posso queixar. Tenho vendido a produção toda."

José Mendonça fala de 50 toneladas, produzidas por cerca de 3000 árvores. "Agora estou no fim. Mas começo com a laranja em Novembro, no estado óptimo de maturação. Não faço como os outros, que metem-na nas câmaras frigoríficas e depois levam com etileno e ceras."

A experiência tem corrido bem, mas a aprendizagem muito tem contribuído para esse sucesso. "A Internet e as newsletters são muito importantes. Gostaria eu que houvesse quem o fizesse com a cereja do Fundão, com a maçã de Alcobaça ou a pêra-rocha das Caldas, que deixei de comprar nos supermercados, por ser dura como pedra. Dantes, eu era miúdo, tinha cheiro e sabor", observa José Mendonça, salientando que na universidade tem aprendido bastante para melhorar a qualidade da sua produção. "Não utilizo herbicidas ou adubos químicos. A minha adubação é de composto orgânico. São as aparas das podas da própria árvore. O herbicida é uma das chagas da produção. Destruo as ervas por meios mecânicos, e esses restos ajudam a fertilizar a terra. Não uso químicos para combater as pragas, mas sim armadilhas para captura dos insectos. Reduzo os custos e produzo com mais qualidade."

Equilíbrio natural

Da teoria José Mendonça passou à prática. "A agricultura é um ecossistema aberto, em que os sistemas intensivos e o uso maciço de produtos químicos alteraram tudo. Tenho notado que desde que uso este sistema não há tantas pragas. Há insectos que combatem outros insectos. Mas, se usarmos os químicos, e matarmos a erva toda, os insectos não têm onde ir buscar o seu sustento e atacam as árvores. Se houver equilíbrio, poderei ter uma quebra de produção até dez por cento, mas compensa, pois não terei pragas."

Não há laranjas suas no Parlamento, porque não houve acordo no preço. É outro problema: o transporte. "Se São Bento fosse aqui à porta, conseguiria fazer o preço justo. Mas, infelizmente, a distribuição "expresso" dos meus produtos tornam-no mais caro. É outro problema - 50 por cento do custo final é para a distribuição."

O agricultor conta como se pode comer laranja do Algarve ao pequeno-almoço que foi colhida de véspera: "Apanho a laranja pela manhã e faço-a chegar, a todo ao país, no dia seguinte, e a Espanha. Contactei todas as empresas de transporte expresso, portuguesas e estrangeiras. Mas a maior parte delas não estavam disponíveis para transporte de produtos alimentares, outras não se interessaram." Os CTT interessaram-se e a Seur também. Aliás, a empresa espanhola foi mais competitiva, apoiou o projecto. "Vem cá a casa, todos os dias, buscar o produto. Todavia, um quilograma sai a 1,80 euros [numa caixa de dez quilos]. Mas se foram duas o preço reduz em dez por cento. O problema é o transporte. Eu sei que no supermercado se vendem a 50 cêntimos, mas não tem esta qualidade. Os clientes habituais sabem ver a diferença."

Passada a novidade, José Mendonça vai expedindo 15 caixas por dia, quando há um ano recebia pedidos para 20 caixas. E embora diga que não haverá mercado para todos, acredita que se outros conseguirem fazer o mesmo talvez o mercado mude.

Mas também alerta que - e acredita que os consumidores não o sabem - os espanhóis, com um ano mau de laranja, já que as cheias na Andaluzia prejudicaram muitos pomares, estão a atirar para Portugal muita fruta de má qualidade. "Nós mandamos a boa laranja para Espanha, e também se ignora em Portugal a verdadeira origem do produto. É que um selo de Portugal não significa mesmo que a fruta tenha sido produzida em Portugal. E nós temos a melhor laranja, seguramente, pois o clima algarvio não poderia ser melhor. Sem ser demasiado quente, é bem temperado para a fruta."

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