Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Público, 2014.06.04

 

Depois de uma década e mais de 200 mil milhões de dólares gastos em minas e campos de petróleo da Austrália à Argentina, a atenção da China vira-se agora para a alimentação.

O país mais populoso do mundo está a deparar-se com uma dura realidade: por cada tonelada adicional de trigo ou carne que o mundo produz, a China precisará de praticamente metade para conseguir alimentar os seus cidadãos. Reconhecendo que não consegue produzir internamente carne e trigo suficientes, empresas da China continental e de Hong Kong gastaram no ano passado 12,3 mil milhões de dólares (9 mil milhões de euros) em aquisições e investimentos em alimentos, bebidas ou agricultura no estrangeiro, segundo indicam os dados compilados pela Bloomberg.

Essas compras incluem a maior aquisição de uma empresa americana por parte da China, quando a Shuanghui International Holdings comprou a Smithfield Foods por 7 mil milhões de dólares, incluindo a sua dívida. É provável que venha a ser seguida de investimentos em carne de vaca, borrego ou cereais, de acordo com o National Australia Bank.

“Estes negócios estavam destinados a acontecer e até estou surpreendido por não terem acontecido mais cedo”, diz Paul Conway, vice-presidente da Cargill, uma das quatro empresas que dominam o comércio mundial de alimentos. “A China estará mais integrada no sistema global de produtos agrícolas do que alguma vez esteve.”

Ao longo do crescimento económico explosivo da China nas últimas décadas, tem sido hábito do Governo utilizar as empresas do Estado para liderar as aquisições de indústrias estratégicas. Foi isto que aconteceu com a segurança energética quando a PetroChina se lançou para uma década de compras em todo o mundo, gastando 40 mil milhões de dólares na área petrolífera.

O campeão chinês da segurança alimentar é o Cofco, que controla 90% das importações de trigo e que este ano fez duas aquisições. No espaço de dois meses comprou acções que lhe permitem controlar a holandesa Nidera Holdings e a empresa de agronegócio Noble, pagando 2,8 mil milhões.

Com o agronegócio da Noble, a Cofco conquistou silos de cereais na Argentina e fábricas de açúcar no Brasil, além de fábricas de processamento de sementes na China, Ucrânia e África do Sul. A compra da Nidera deu à Cofco uma plataforma forte para a produção de cereais no Brasil, Argentina e Europa Central, afirmou a empresa em Fevereiro. A Cofco será “um investidor poderoso na agricultura, capaz de produzir directamente em várias partes do mundo”, adianta um relatório da agência de notação Fitch de 3 de Abril.

Os números mostram porquê. A China tem 21% da população mundial, mas só 9% do seu território é zona arável, e tem uma percentagem ainda menor de água doce, segundo o Jefferies Group. O aumento dos rendimentos levou a um aumento da procura de alimentos ricos em proteínas, mas a oferta interna está próxima do limite, diz Abhijit Attavar, analista do Jefferies Group em Singapura, num relatório de 15 de Abril.

Não faltarão rivais à Cofco
As americanas Archer-Daniels-Midland, Bunge e Cargill, e a francesa Louis Dreyfus – conhecidas em conjunto como as A-B-C-Ds – controlam mais de 70% do comércio mundial de cereais, de acordo com a Continental Rice, sedeada em Tóquio.

A Japonesa Mitsui também vê uma grande oportunidade no mercado alimentar. Em 2007, a empresa de comércio construiu uma quinta e uma rede comercial de raiz, e conquistou activos nos cinco continentes. As empresas de comércio japonesas aventuraram-se em activos tão diversos como as plantações de soja no Brasil, os viveiros de camarão na Tailândia ou os silos de milho nos Estados Unidos. O maior comerciante petrolífero do mundo, o Vitol, decidiu expandir-se no ano passado para o comércio de cereais, criando uma sucursal em Singapura.

“O que temos vindo a assistir é que, impulsionadas por empresas estatais, as empresas privadas e as empresas de comércio de outros países estão todas à procura de uma forma de criar linhas de abastecimento que vão da Austrália à China, e também das Américas para a China”, comenta Patrick Vizzone, director regional da alimentação e agronegócio do National Australia Bank. Vizzone, que também tem assento na direcção da unidade China Agri-Industries da Cofco, diz que vê potencial para as aquisições chinesas nas indústrias de cereais, oleaginosas e nas carnes de carneiro e vaca.

Poderão haver outras opções, e ainda maiores.

Margarita Louis-Dreyfus, presidente da empresa que tem o seu apelido, diz que a unidade de produtos será reorganizada de forma a estar preparada para uma possível venda de acções ou uma oferta pública. Isso não acontecerá num futuro imediato, mas a empresa quer estar preparada.

A Cofco não comenta as suas aquisições, respondeu por telefone o gabinete de relações públicas da empresa, que pediu para não ser identificada. Yin jianhao, o porta-voz oficial da Cofco, não respondeu aos quatro telefonemas feitos para o seu telemóvel.

“A segurança alimentar tem de incluir importações, e sem o sistema global alimentar não funciona”, diz Franz Fischler, antigo comissário para a Agricultura da União Europeia. “A ideia de auto-suficiência é um medo quase arcaico e a China está a aperceber-se disso”.

A Cofco foi formada a partir de uma série de fusões de empresas estatais de alimentação e de pecuária durante a década de 1950, e é agora a maior empresa alimentar da China, com 60 mil funcionários. O presidente, Ning Gaoning, tem um mestrado na Universidade de Pittsburgh e é também o secretário do Partido Comunista na Cofco. Actualmente, a empresa gere os maiores armazéns de cereais da China e é proprietária de portos capazes de processar 100 milhões de toneladas de cereais por ano. Para além da alimentação, a Cofco detém propriedades comerciais e residenciais, resortsturísticos, hotéis e serviços financeiros que incluem serviços de corretagem, um banco regional e uma parceria de seguros com a Aviva, com sede em Londres.

“Muitas empresas estatais chinesas estão muitos desconfortáveis com a política de apostar no estrangeiro e em operar em ambientes com os quais não estão familiarizadas”, comenta Conway, da Cargill, referindo-se ao esforço chinês de investimento no estrangeiro. “A Cofco, pelo contrário, tem muitos dos seus altos quadros a viver e a trabalhar nos Estados Unidos e é muito internacional. É a empresa que vai lá para fora e faz aquisições.”

Autoria e outros dados (tags, etc)

SEVINATE PINTO | Público | 19/04/2014 - 16:30

 

A pergunta que cada vez mais se faz, na Europa e em todo o mundo, e a que ninguém ainda sabe dar resposta, é como iremos alimentar convenientemente mais dois mil milhões de seres humanos esperados para meados deste século.

Nessa altura, estima-se que o mundo venha a ter mais de nove mil milhões de habitantes. Para os alimentar, os modelos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam para a necessidade de se aumentar a produção mundial de alimentos em cerca de 70%. Não seremos só mais, muitos mais. Nessa altura, os padrões médios de consumo também tenderão a aumentar.

E como poderemos fazê-lo, com recursos naturais cada vez mais reduzidos e fragilizados e num contexto de alterações climáticas, de que já só se discute a sua intensidade e não a sua existência? É uma pergunta, mas também é uma preocupação, um motivo de discussão, de investigação e de estudo, que, com o passar do tempo, se vai progressivamente transformando em ansiedade.

Até agora, o que já se sabe é que, sem um ampla participação da ciência, sem um forte empenhamento colectivo na procura de soluções e sem uma profunda alteração do comportamento humano, haverá seguramente convulsões sociais repetidas, disputas, miséria e sofrimento. Sofrimento que se repartirá de forma desigual porque desigualmente também estão distribuídos os recursos naturais, a capacidade produtiva, o conhecimento e a riqueza.

Uma pequena ideia do que pode ser uma crise alimentar universal, foi-nos dada em 2008/2009. Nessa altura, uma mera oscilação negativa da oferta alimentar volatilizou os preços dos produtos agrícolas de base em todo o mundo e causou enorme agitação social e politica, sobretudo no Norte de África e no Médio Oriente.

Serão suficientes os avanços tecnológicos hoje disponíveis para produzir, mais e melhor, os alimentos de que necessitaremos? Todos os técnicos, cientistas e estudiosos, nos dizem que não. Embora todos concordem que o desenvolvimento tecnológico terá de estar presente como uma das componentes de uma eventual solução.

Como intensificar as produções sem causar a erosão dos recursos, sem atingir ainda mais o ambiente, de cuja preservação também depende a nossa vida? Esta é outra pergunta para a qual as respostas esboçadas estão ainda longe de ser convincentes. Tem ainda de ser inventada uma agricultura mais extensiva e mais produtiva, ou mais intensiva e mais compatível com a defesa do ambiente.

Já existe o conceito de “intensificação sustentável”, mas os exemplos ainda são excessivamente limitados para que se possa acreditar na sua participação decisiva na resolução do problema. No que já estamos todos de acordo é que o conceito de eficácia produtiva se tem vindo a alterar e que o modelo químico-mecânico, que, durante décadas, nos fez acreditar que correspondia ao progresso, tem vindo a mostrar os seus limites.

E o que poderemos nós fazer enquanto consumidores? Esta é talvez a pergunta para a qual haverá respostas mais promissoras e que, mais e melhor, poderão contribuir para nos afastar dos piores cenários. Não será fácil, mas, sem dúvida, será possível, modificar o comportamento dos consumidores e alterar alguns dos nossos padrões de consumo alimentar.

Na mesma altura em que cerca mil milhões de seres humanos, um pouco por todo o mundo, passam fome e sofrem de subnutrição, há cerca de mil e trezentos milhões de obesos e calcula-se que 30% da produção alimentar seja desperdiçada, não chegando a ser consumida.

É preciso, e é possível, corrigir este absurdo, que é também uma vergonha para a humanidade. Se todos fizermos melhores escolhas alimentares, se comermos melhor, se formos mais solidários e responsabilizados pelos níveis incomportáveis do desperdício, teremos melhor saúde, viveremos melhor, e contribuiremos, como devemos, para os equilíbrios globais, essenciais à nossa vida colectiva.

Sobre o futuro da alimentação no mundo, Charles Godfray, professor de alimentação em Oxford , dizia há algum tempo, numa conferência na Fundação Gulbenkian, organizada em parceria com o jornal PÚBLICO: “Se falharmos na alimentação falharemos em tudo o resto. Não ajudaremos os países mais pobres, esqueceremos a biodiversidade, nada poderemos fazer quanto às alterações climáticas e comprometeremos a nossa evolução ao longo das próximas décadas”. Estou de acordo com esta afirmação. Só acrescentarei o óbvio: para não falharmos na alimentação não poderemos falhar na agricultura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

O nosso nível na cadeia alimentar, numa escala de 1 a 5 que vai das plantas aos grandes predadores, é médio: 2,21. Mas está a aumentar – e temos de travar essa subida para não esgotar os recursos do planeta.

O nível trófico de uma espécie resume, num único número, a composição da sua dieta. E permite perceber as relações predador-presa, bem como o impacto de cada espécie sobre os recursos alimentares do planeta.

Embora o nível trófico da maioria das espécies terrestres e marinhas já fosse conhecido, nunca tinha sido calculado para os seres humanos. Foi o que fizeram agora Sylvain Bonhommeau, do Instituto Francês de Investigação para a Exploração do Mar, e colegas. Para isso, utilizaram os dados relativos ao consumo alimentar humano, entre 1961 e 2009, recolhidos pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em 176 países.

Antes de mais, um pouco de aritmética. O cálculo do nível trófico de uma espécie faz-se da forma seguinte. Na base da cadeia alimentar, no nível 1, estão as plantas. Por isso, explicam os autores do artigo, o nível trófico de uma vaca, que é um herbívoro, é igual a 2: a vaca situa-se, no ranking alimentar, um nível acima das plantas. Já uma espécie cuja dieta é 50% ervas e 50% carne de vaca tem um nível trófico de 2,5: é a média dos níveis tróficos de cada um dos componentes da sua dieta (1,5) mais 1 (por se encontrar um degrau acima de herbívoros como a vaca). Nesta escala global dos que comem e dos que são comidos, os maiores predadores, tais como os ursos polares e as orcas, podem ultrapassar os 5 de nível trófico, salientam os cientistas.

Para a espécie humana, porém, esse cálculo rende uns modestos 2,21. Dito por outras palavras, e ao contrário do que se poderia pensar, os seres humanos não são predadores de topo. A nossa dieta é, de facto, bastante variada – como a dos porcos e a das anchovas peruanas (que se alimentam de fitoplâncton e de zooplâncton). Porém, isso não significa que o nosso impacto no ecossistema seja modesto.

“O nível trófico permite descrever o lugar que uma espécie ocupa no ecossistema a partir do seu regime alimentar – e, de facto, nós posicionamo-nos a um nível bastante baixo na escala alimentar”, disse ao PÚBLICO Sylvain Bonhommeau. “Mas somos tantos que isso nos conduz a uma apropriação importante dos recursos naturais, à qual é ainda preciso acrescentar todos os nossos outros impactos (poluição, alteração dos habitats, etc.).” No total, escrevem os investigadores, os humanos apropriam-se, através da produção de alimentos e do uso dos solos, de 25% da capacidade do planeta para produzir biomassa. É de facto aí que reside o nosso lado predador…

Variações regionais
Contudo, nem todas as partes do mundo são iguais: os investigadores identificaram cinco grandes regiões com evoluções diferentes dos níveis tróficos ao longo das últimas cinco décadas, que reflectem a evolução da situação socioeconómica dos países nelas incluídos. Assim, por exemplo, a Europa do Sul, com níveis que nos anos 1960 rondavam os 2,3 e que têm vindo a aumentar, contrasta com a Europa do Norte, com níveis que rondaram os 2,4 até 1990 e que a seguir começaram a diminuir (na sequência de políticas destinadas a promover dietas mais saudáveis, devido às consequências nefastas para a saúde do excessivo consumo de carne e de gordura animal).

Diga-se que o nível trófico de Portugal passou de pouco mais de 2,3 nos anos 1960 para acima de 2,4 em 2009 (apesar de uma nítida quebra, no final dos anos 1970, aquando do primeiro pedido de assistência financeira ao FMI).

Seja como for, em termos globais, o nível trófico humano global aumentou 3% em 50 anos, implicando, dizem os cientistas, um impacto ambiental cada vez maior do consumo alimentar humano. Ora, isso levanta, segundo eles, a questão de saber qual o nível trófico a não ultrapassar para conseguirmos gerir os recursos alimentares de forma sustentável – a etapa seguinte deste trabalho.

“A seguir, vamos tentar relacionar o nível trófico com a produção primária necessária para alimentar a população humana”, salienta Bonhommeau. “Dessa forma, poderemos desenvolver vários cenários e estimar quais os recursos, em cada um deles, necessários para satisfazer as nossas necessidades.”

Os cientistas ainda não têm números precisos, mas Bonhommeau arrisca uma previsão: “Por enquanto, o nosso nível trófico global é de 2,2, mas os estudos dos nutricionistas mostram que estamos a convergir para uma dieta que contém cerca de 35% de nutrientes de origem animal (carne, gordura, peixe). Isso traduzir-se-ia num nível trófico próximo dos 2,4. Ora, o nosso estudo mostra que, precisamente acima deste último valor, a esperança de vida diminui devido às doenças causadas por uma alimentação demasiado rica em gorduras e proteínas animais.” Talvez seja esse, de facto, o limite a não ultrapassar em caso algum.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Instituição alerta para a situação de carência alimentar que se vive em muitos países.

 

 A Organização para a Alimentação e a Agricultura prevê para este ano um máximo histórico na produção mundial de cereais, num relatório que conclui haver 34 países, 27 dos quais em África, a precisar de assistência alimentar externa.

As conclusões são do relatório trimestral Perspectivas de Colheita e Situação da Alimentação, publicado nesta quinta-feira pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Segundo o documento, a produção mundial total de cereais deverá aumentar este ano em cerca de 7% face a 2012, o que ajudará a "repor os stocks globais e a aumentar as esperanças de mercados mais estáveis em 2013/2014".

Este aumento pode elevar a produção mundial de cereais até 2.479 milhões de toneladas, o que representa um novo recorde.

Segundo a FAO, a produção de trigo em 2013 deve chegar aos 704 milhões de toneladas, mais 6,8% do que no ano anterior, e a produção de cereais secundários está calculada em cerca de 1.275 milhões de toneladas, mais 9,7% do que em 2012.

A previsão para a produção mundial de arroz em 2013 aponta para um aumento de 1,9%, atingindo cerca de 500 milhões de toneladas.

O relatório estima um aumento de 5% nas importações de cereais pelos Países de Baixo Rendimento com Défice Alimentar (PBRDA) em 2013/2014.

O documento acrescenta que os preços internacionais do trigo caíram ligeiramente em Junho, com o início da temporada de colheita de 2013 no hemisfério norte, e os do milho aumentaram devido à contínua escassez na oferta.

No capítulo referente à segurança alimentar, a FAO alerta para a situação na Síria, onde a produção de trigo caiu bastante abaixo da média este ano devido à escalada do conflito, que afectou também "severamente" o sector pecuário.

"Estima-se que cerca de quatro milhões de pessoas se encontrem em situação de insegurança alimentar severa" no país, sublinha a organização.

A agitação social no Egipto, assim como a redução das reservas cambiais, têm também gerado preocupações ao nível da segurança alimentar.

Os conflitos na República Centro-Africana e na República Democrática do Congo, que afectam cerca de 8,4 milhões de pessoas, contribuem para manter "as graves condições de insegurança alimentar" na região da África Central.

Apesar de uma melhoria da situação alimentar da região da África Ocidental, após uma produção de cereais acima da média em 2012, grande número de pessoas ainda sofrem com os conflitos e os efeitos da crise alimentar de 2011/2012, acrescenta a FAO.

Já na África Oriental, apesar da segurança alimentar doméstica ter melhorado na maioria dos países, persistem grandes preocupações em relação às áreas de conflito na Somália, no Sudão e no Sudão do Sul, onde há um milhão, 4,3 milhões e 1,2 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, respectivamente.

No total, escreve a FAO, existem 34 países que precisam de assistência alimentar externa, dos quais 27 se encontram em África.

Autoria e outros dados (tags, etc)

aq114e

Autoria e outros dados (tags, etc)

02Abastecimento

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aumento da população mundial, que deverá chegar aos 9,5 mil milhões em 2075, faz temer um agravamento do problem

Cerca de metade da comida produzida no mundo todos os anos vai para o lixo. Um estudo divulgado ontem revela que 30 a 50% dos alimentos disponíveis não são consumidos, o que se traduz no desperdício de 1,2 mil milhões a dois mil milhões de toneladas de comida. E o problema tende a agravar-se.

O documento intitulado Global Food; Waste not, Want not (Alimentos Globais; Não desperdice, Não queira), elaborado pelo Institution of Mechanical Engineers, uma organização do Reino Unido que representa engenheiros industriais, aponta motivos para o desperdício: condições desadequadas de armazenamento e transporte, adopção de prazos de validade demasiado apertados, ou promoções que encorajam os consumidores a comprar em excesso.

Outro problema é a preferência dos supermercados por alimentos "perfeitos" em termos de formato, cor e tamanho. O estudo refere que 30% das frutas e legumes plantados no Reino Unido não chegam a ser colhidos, por causa da aparência.

Os números apurados pela instituição estão em linha com os dados da FAO (Food and Agriculture Organization, das Nações Unidas), segundo os quais os países industrializados deitam fora um terço da comida disponível, todos os anos. Isto equivale a 1,3 mil milhões de toneladas, segundo a FAO, suficientes para alimentar as 868 milhões de pessoas que todos os dias vão dormir com fome. Só em Portugal, é desperdiçado um milhão de toneladas de alimentos por ano (17% do que é produzido pelo país), de acordo com as conclusões do PERDA - Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar, apresentadas em Dezembro.

O estudo ontem divulgado lembra que as previsões da ONU apontam para um aumento da população mundial até 2075, de três mil milhões de pessoas. Nesse ano, haverá 9,5 mil milhões de bocas para alimentar. "A quantidade de comida desperdiçada no mundo é assombrosa. Esta comida poderia ser usada para alimentar a crescente população mundial, além dos que estão a passar fome", sublinha em comunicado o director do departamento de Energia e Ambiente da organização, Tim Fox.

O desperdício de alimentos envolve também o gasto desnecessário dos recursos usados na sua produção, como a água, os terrenos, a energia. O documento conclui que cerca de 550 mil milhões de metros cúbicos de água são usados anualmente na produção de alimentos que vão para o lixo. E as previsões não são animadoras: o consumo de água no mundo chegará aos 13.000 mil milhões de metros cúbicos por ano em 2050, devido ao crescimento da procura de alimentos - sobretudo de carne, que exige mais água do que os vegetais no processo de produção. Este valor representa até 3,5 vezes o total de água consumido actualmente.

Por isso, os autores do documento recomendam que sejam tomadas medidas urgentes para inverter este cenário.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Global food Waste Not, Want not

por papinto, em 11.01.13

Global+Food+Report by papinto

Autoria e outros dados (tags, etc)

i3028e

Autoria e outros dados (tags, etc)

Investigadores portugueses comprovam benefícios da fruta nacional

2012-10-20 Ciência Hoje
Por Susana Lage

 

O que é nacional é bom. Parece um mero slogan mas, de facto, dois estudos portugueses desenvolvidos pelo Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET) e pelo Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) acabam de reforçar a qualidade da produção frutícola nacional e seus benefícios para a saúde.
«Bravo de Esmolfe – Uma maçã com benefícios cardiovasculares» e «Amoras silvestres portuguesas, uma aposta como alimentos funcionais para o cérebro» são dois projectos vencedores da Categoria Investigação e Desenvolvimento, na terceira edição do Nutrition Awards.
O estudo do IBET sobre a Bravo de Esmolfe sugere que a maçã é um fruto promissor a nível da saúde cardiovascular devido à composição em fibra e polifenóis os quais permitem diminuir os níveis de colesterol no sangue.

 

“Verificámos que esta variedade possui maior quantidade de compostos bioactivos. Uma Bravo de Esmolfe contém três vezes mais destes compostos do que a variedade Golden”, afirma Teresa Serra ao Ciência Hoje.

“O que fizemos, em colaboração com a Faculdade de Farmácia, foi dar diferentes variedades de maçãs a ratinhos e descobrir que só a Bravo de Esmolfe conseguiu reduzir os níveis de colesterol nestes animais”, continua a investigadora do IBET.

 

Os resultados obtidos indicaram que apenas a Bravo de Esmolfe foi capaz de reduzir significativamente todos os biomarcadores estudados, como os valores de triglicéridos, o colesterol total e LDL e as LDL oxidadas.

As conclusões aplicam-se aos ratinhos mas ao transpor as doses para humanos isso corresponde a comer duas a três maçãs Bravo de Esmolfe por dia. “Se uma pessoa comer diariamente a Bravo de Esmolfe pode ter benefícios a nível da saúde cardiovascular”, garante Teresa Serra.

A maçã Bravo de Esmolfe é cultivada em poucos locais na região da Beira Interior de Portugal. “É difícil encontrar esta maçã no supermercado porque tem uma pele muito fininha, basta um toque para oxidar e por isso é difícil de transportar. O que existe é muito caro, daí que tenhamos procurado valorizá-la através das propriedades benéficas que tem para a saúde”, refere a cientista.

“Esperamos que este nosso trabalho tenha um grande impacto a nível do cultivo deste fruto em Portugal, que os agricultores insistam no cultivo desta maçã para que possa chegar ao mercado nacional e internacional em maior quantidade e, consequentemente, influencie positivamente a economia do país”, conclui.

Mais-valia nutricional

Outro fruto português benéfico para a saúde, nomeadamente na prevenção das doenças do envelhecimento como as doenças neurodegenerativas, é a amora silvestre.

Por esse motivo, os cientistas do ITQB tentaram demonstrar o elevado valor nutricional e vários efeitos benéficos na memória e manutenção do estado cognitivo deteriorado com o envelhecimento que estes frutos têm.

Os resultados obtidos mostraram que “espécies de amoras silvestres, nativas de Portugal, em comparação com variedades comerciais representam uma mais-valia para um envelhecimento saudável, já que têm um efeito neuroprotector superior”, afirma Lucélia Tavares.

Segundo a investigadora do ITQB, “os compostos conhecidos por polifenóis, mesmo depois de submetidos a um processo que mimetiza a digestão alimentar, conseguem proteger neurónios de um stress oxidativo”. O stress oxidativo é um mecanismo comum a diversas neurodegenerações como Parkinson ou Alzheimer.


Verificou-se ainda que os mecanismos responsáveis por esta protecção vão muito para além da actividade antioxidante publicitada neste tipo de alimentos, que durante o processo digestivo é fortemente diminuída. Desta forma, este trabalho contribuiu também para desmistificar a ideia de que a actividade antioxidante dos alimentos é responsável pelos seus benefícios para a saúde.

O potencial nutricional das amoras silvestres identificado neste trabalho visa o aumento do seu consumo pela população portuguesa, bem como a disponibilização de novas espécies com reconhecidas vantagens nutricionais. Assim, os cientistas esperam que o consumidor possa a vir adquirir frutos/nutracêuticos com um elevado valor nutricional verificado cientificamente em modelos celulares, sabendo que este constitui uma mais-valia na prevenção de futuras doenças neurodegenerativas.

“Estas amoras para além da mais-valia nutricional poderão também constituir um produto diferenciado dos demais pequenos frutos, por serem espécies silvestres, que remetem para as memórias de infância e para o ambiente salutar do campo e com chancela 100 por cento portuguesa”, refere Lucélia Tavares.

Por último, estas espécies enquanto endémicas encontram-se bem adaptadas às condições edafo-climáticas portuguesas e ainda a subsistirem em condições de baixos inputs. A sua introdução em cultura permitirá a sua valorização e consequente protecção das espécies; e potencial adaptação a sistemas de cultivo com baixos inputs, um objectivo essencial numa agricultura sustentável de futuro, conclui.

Autoria e outros dados (tags, etc)