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SEVINATE PINTO | Público | 19/04/2014 - 16:30

 

A pergunta que cada vez mais se faz, na Europa e em todo o mundo, e a que ninguém ainda sabe dar resposta, é como iremos alimentar convenientemente mais dois mil milhões de seres humanos esperados para meados deste século.

Nessa altura, estima-se que o mundo venha a ter mais de nove mil milhões de habitantes. Para os alimentar, os modelos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam para a necessidade de se aumentar a produção mundial de alimentos em cerca de 70%. Não seremos só mais, muitos mais. Nessa altura, os padrões médios de consumo também tenderão a aumentar.

E como poderemos fazê-lo, com recursos naturais cada vez mais reduzidos e fragilizados e num contexto de alterações climáticas, de que já só se discute a sua intensidade e não a sua existência? É uma pergunta, mas também é uma preocupação, um motivo de discussão, de investigação e de estudo, que, com o passar do tempo, se vai progressivamente transformando em ansiedade.

Até agora, o que já se sabe é que, sem um ampla participação da ciência, sem um forte empenhamento colectivo na procura de soluções e sem uma profunda alteração do comportamento humano, haverá seguramente convulsões sociais repetidas, disputas, miséria e sofrimento. Sofrimento que se repartirá de forma desigual porque desigualmente também estão distribuídos os recursos naturais, a capacidade produtiva, o conhecimento e a riqueza.

Uma pequena ideia do que pode ser uma crise alimentar universal, foi-nos dada em 2008/2009. Nessa altura, uma mera oscilação negativa da oferta alimentar volatilizou os preços dos produtos agrícolas de base em todo o mundo e causou enorme agitação social e politica, sobretudo no Norte de África e no Médio Oriente.

Serão suficientes os avanços tecnológicos hoje disponíveis para produzir, mais e melhor, os alimentos de que necessitaremos? Todos os técnicos, cientistas e estudiosos, nos dizem que não. Embora todos concordem que o desenvolvimento tecnológico terá de estar presente como uma das componentes de uma eventual solução.

Como intensificar as produções sem causar a erosão dos recursos, sem atingir ainda mais o ambiente, de cuja preservação também depende a nossa vida? Esta é outra pergunta para a qual as respostas esboçadas estão ainda longe de ser convincentes. Tem ainda de ser inventada uma agricultura mais extensiva e mais produtiva, ou mais intensiva e mais compatível com a defesa do ambiente.

Já existe o conceito de “intensificação sustentável”, mas os exemplos ainda são excessivamente limitados para que se possa acreditar na sua participação decisiva na resolução do problema. No que já estamos todos de acordo é que o conceito de eficácia produtiva se tem vindo a alterar e que o modelo químico-mecânico, que, durante décadas, nos fez acreditar que correspondia ao progresso, tem vindo a mostrar os seus limites.

E o que poderemos nós fazer enquanto consumidores? Esta é talvez a pergunta para a qual haverá respostas mais promissoras e que, mais e melhor, poderão contribuir para nos afastar dos piores cenários. Não será fácil, mas, sem dúvida, será possível, modificar o comportamento dos consumidores e alterar alguns dos nossos padrões de consumo alimentar.

Na mesma altura em que cerca mil milhões de seres humanos, um pouco por todo o mundo, passam fome e sofrem de subnutrição, há cerca de mil e trezentos milhões de obesos e calcula-se que 30% da produção alimentar seja desperdiçada, não chegando a ser consumida.

É preciso, e é possível, corrigir este absurdo, que é também uma vergonha para a humanidade. Se todos fizermos melhores escolhas alimentares, se comermos melhor, se formos mais solidários e responsabilizados pelos níveis incomportáveis do desperdício, teremos melhor saúde, viveremos melhor, e contribuiremos, como devemos, para os equilíbrios globais, essenciais à nossa vida colectiva.

Sobre o futuro da alimentação no mundo, Charles Godfray, professor de alimentação em Oxford , dizia há algum tempo, numa conferência na Fundação Gulbenkian, organizada em parceria com o jornal PÚBLICO: “Se falharmos na alimentação falharemos em tudo o resto. Não ajudaremos os países mais pobres, esqueceremos a biodiversidade, nada poderemos fazer quanto às alterações climáticas e comprometeremos a nossa evolução ao longo das próximas décadas”. Estou de acordo com esta afirmação. Só acrescentarei o óbvio: para não falharmos na alimentação não poderemos falhar na agricultura.

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