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Identificadas fontes de poluição do ar que causam mais mortes prematuras

A poluição atmosférica provoca milhões de mortes prematuras por ano a nível global. Mas as actividades humanas responsáveis pelo maior número de vítimas nem sempre são os suspeitos do costume, conclui o primeiro estudo do género.

Na Europa, as emissões provenientes das actividades agropecuárias são a maior causa de morte prematura devido à poluição do ar RUI GAUDÊNCIO 

Ao contrário do que se poderia pensar, não são nem a circulação automóvel, nem a queima de florestas, nem sequer a maioria das actividades industriais, que estão na origem da morte prematura de mais de três milhões de pessoas por ano no mundo na sequência de doenças relacionadas com a poluição atmosférica. Segundo as conclusões de um estudo internacional publicado esta quarta-feira na revista Nature, os principais culpados parecem ser os combustíveis utilizados para o aquecimento e para cozinhar os alimentos nos países asiáticos… e a agricultura em regiões como a Europa ou o leste dos EUA.

Jos Lelieveld, do Instituto Max Planck de Química em Mainz (Alemanha), e colegas conjugaram um modelo global de alta resolução da circulação dos compostos químicos na atmosfera com dados populacionais e estatísticas de saúde para estimar o impacto, em termos de mortalidade prematura, de sete fontes de poluição atmosférica que levam à formação de micropartículas. Com menos de 2,5 milésimos de milímetro de diâmetro, estes poluentes conseguem penetrar profundamente nos pulmões, estando associados não apenas a doenças pulmonares agudas e crónicas e ao cancro do pulmão, como também a doenças cerebrovasculares e cardíacas.

“As avaliações anteriores baseavam-se sobretudo em dados que não permitiam distinguir as diversas fontes deste tipo de poluição”, explicou Lelieveld durante uma teleconferência de imprensa. “Mas nós utilizámos um modelo que nos permite fazer cálculos excluindo ou incluindo tal ou tal fonte de poluição.”

As sete fontes de micropartículas consideradas pela equipa foram o uso comercial e residencial de energia; a agricultura (incluindo a pecuária); a circulação de veículos terrestres; a queima de biomassa (como florestas); a produção de energia; a indústria; e as fontes naturais (as poeiras vindas do deserto em África ou na Península Arábica).

Os autores estimaram assim em 3,15 milhões o número global de mortes prematuras devidas à poluição por estas micropartículas em 2010. A maior parte dessa mortalidade verifica-se na Ásia, região do mundo onde a má qualidade do ar se conjuga com uma grande densidade populacional. A estas mortes, que confirmam estimativas anteriores da Organização Mundial da Saúde (OMS), vêm acrescentar-se cerca de 3,5 milhões de mortes prematuras devidas à má qualidade do ar ambiente nos locais fechados, também segundo a OMS.

Os resultados agora publicados indicam, em primeiro lugar, que naquela região do mundo – e daí, também a nível global –, as maiores responsáveis são as micropartículas provenientes da utilização de combustíveis (sobretudo lenha) como formas de aquecimento e para cozinhar, da queima de resíduos sólidos e dos geradores que funcionam com gasóleo. Trata-se de práticas dominantes em países como a China e a Índia, onde pelo menos 32% e 50% das mortes prematuras são respectivamente devidas a esta fonte de poluição.

Porém, a grande surpresa veio dos resultados relativos a alguns dos países mais ricos do mundo. É que, embora na maior parte dos EUA e nalguns outros países sejam as emissões devidas ao trânsito automóvel e à produção de energia as que mais contribuem para a formação de micropartículas nefastas para a saúde, esse já não é o caso na Europa, no leste dos EUA, Rússia, Turquia, Coreia do Sul ou Japão. Nestas regiões, o maior contributo, que poderá explicar até 40% das mortes prematuras nalguns países, parece ser o das actividades agrícolas e pecuárias, devido ao amoníaco libertado pelo uso de fertilizantes e pelos excrementos dos animais de criação.

“Primeiro, fiquei surpreendido com o impacto agrícola nas mortes prematuras associadas à poluição atmosférica [nos países ricos]”, salientou Lelieveld. “Mas agora, acho que faz todo o sentido.” Isso porque, como frisou ainda, as emissões da agricultura só formam micropartículas quando se misturam com outros poluentes – tais como os da circulação automóvel –, o que acontece quando são transportadas pelo vento das zonas rurais para as urbanas. Aliás, é precisamente isso, segundo ele, que poderá explicar que, no caso de Londres, o estudo tenha revelado que o factor predominante de poluição do ar é de facto a agricultura e não o trânsito. “Grande parte das partículas presentes dentro da cidade provém, na realidade, de fora da cidade”, concluiu.

Também em Portugal a agricultura é o maior factor de morte prematura devido à poluição do ar. “Em Portugal calculámos que havia 1860 mortes prematuras por ano”, disse Lelieveld ao PÚBLICO num email: “28% devidas à poluição da agricultura, 20% da indústria, 17% do trânsito terrestre, 16% da produção de energia, 10% de queima de biomassa e 9% de uso de energia residencial”.

A equipa estimou ainda o que acontecerá até 2050 se nada for feito para diminuir as emissões em causa: o número de mortes prematuras devido à poluição do ar irá duplicar, mais uma vez predominantemente na Ásia.

Soluções? Duas principais parecem óbvias, referiu ainda Lelieveld durante a teleconferência. Uma delas consiste em introduzir fogões menos poluentes em países como a Índia. “O maior obstáculo aos esforços feitos nesse sentido tem sido a baixa aceitação pelas pessoas de formas não tradicionais de cozinhar os alimentos”, salientou. Quanto à agricultura, “embora não seja um especialista destas questões”, Lelieveld acha que seria importante reduzir o uso e o abuso de fertilizantes químicos e alterar as práticas de processamento do estrume dos animais de criação.

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