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Constantinopla e o aquecimento global

por papinto, em 20.01.14

A física da atmosfera é uma coisa muito complicada. Não admira que a incerteza científica associada à matéria seja elevada e que a discussão do assunto por não especialistas seja um campo de minas permanente.

 

Interrompo as crónicas sobre barragens e medidas compensatórias, mais uma vez. Com as notícias sobre o frio e este tempo invernoso, começaram a ouvir-se outra vez uma série de comentários, alguns até com bastante graça, dizendo que mais uma vez se percebia que isso do aquecimento global estava muito mal explicado.

É verdade que hoje se fala mais de alterações climáticas do que de aquecimento global. Na opinião dos negacionistas climáticos isso não passa de alterações semânticas cujo objectivo é disfarçar a farsa do aquecimento global, e de caminho aproveitam para falar do frio em Nova Iorque.

Na opinião dos outros, essa alteração de terminologia reflecte o facto de as alterações na atmosfera induzidas pelo aumento de carbono, e outros elementos, embora conduzindo a um aquecimento global, na verdade implicarem uma alterações dos padrões climáticos, dando origem a mais calor e mais seca nuns lados, mas também a mais frio e mais chuva noutros.

Discutir isto com base no frio de um determinado momento, ou o calor noutro, usar permanentemente as alterações climáticas para falar de fogos, secas, inundações, avanço do mar, etc., é uma tolice.

Há anos tentava tornar esta tolice o mais evidente possível:

O frio de hoje, do mês passado ou mesmo do ano passado, em si, não diz rigorosamente nada sobre o clima.

“Meteorologia é a ciência que estuda os meteoros, isto é, os fenómenos da atmosfera. A sua mais conhecida aplicação prática é a previsão do tempo, em diferentes escalas, mas sobretudo em pequenos períodos de tempos. Na realidade as previsões a mais de três dias, embora tenham sofrido progressos notáveis, são ainda relativamente pouco fiáveis.

“O clima estuda o padrão das variações meteorológicas, ou seja, avalia estatisticamente os elementos meteorológicos num período suficientemente grande para permitir avaliar padrões para lá da elevada variação meteorológica de curto prazo. O período considerado mínimo para a análise climática são 30 anos, sendo a média das observações ao longo de 30 anos que define a norma climatológica.

“De um lado e do outro da discussão sobre alterações climáticas tende a esquecer-se esta diferença essencial entre meteorologia e clima.”

O frio de hoje, do mês passado ou mesmo do ano passado, em si, não diz rigorosamente nada sobre o clima. Da mesma forma, a existência de fenómenos fortemente relacionados com a meteorologia, como fogos, avanço do mar, cheias, etc., por mais extremos e raros que sejam, não dizem absolutamente nada sobre alterações climáticas.

A física da atmosfera é uma coisa muito complicada (basta ver que previsões meteorológicas com antecedência maior do que três dias são altamente falíveis, apesar de todos os progressos nesse campo da ciência), o estabelecimento de padrões estatísticos nessa variação é também muito complexo e interpretar as variações desse padrão ao longo de períodos longos de tempo, em que se cruzam muitos factores, muitos deles mal conhecidos, é ainda mais complexo.

Não admira por isso que a incerteza científica associada a esta matéria seja muito elevada, e que a discussão do assunto por não especialistas seja um campo de minas permanente, onde se encontram as mais desvairadas opiniões e teorias de conspiração.

E, somando a tudo, o tempo que faz hoje é bem concreto, o clima de uma região é uma abstracção estatística, nem sempre evidente. Todos sabemos que Londres é muito mais chuvosa do que Lisboa, mas nem todos sabemos que a quantidade de chuva anual em Londres e Lisboa é muito semelhante.

E aqui voltamos ao avanço do mar, especialmente visível em algumas circunstâncias meteorológicas, como foi o caso do início da segunda semana de Janeiro.

Pode haver alguma relação das alterações climáticas com este fenómeno meteorológico. Mas também pode não haver. Esta incerteza deve conduzir à inacção, ou deve apoiar uma gestão inteligente da ocupação do território?

A questão parece-me relativamente simples.

Se não existir qualquer relação entre o avanço do mar e as alterações climáticas (e eu tenderei a dizer que a diminuição da quantidade de sedimentos transportados pelos rios para a costa é um factor muito mais importante no recuo da costa do que as alterações climáticas), o facto de se contar com as alterações climáticas para adoptar políticas mais prudentes pode ter um sobrecusto que é relativamente baixo.

Mas se existir essa relação, e não tivermos feito nada entretanto, os custos associados à perda de vidas e à destruição de riqueza serão brutais.

Acresce que o simples bom senso e o respeito pelo dinheiro dos contribuintes aconselhariam a adopção de medidas de recuo da ocupação da costa em muitas zonas.

A discussão é muito menos científica do que parece: a incerteza existirá sempre e a questão de fundo é política – consiste em saber como queremos gerir essa incerteza, incorporando-a nas nossas decisões colectivas, da forma socialmente mais útil.

E para essa discussão vir falar dos barcos presos no gelo da Antárctida ou no frio polar do Canadá durante meia dúzia de dias é verdadeiramente discutir o sexo dos anjos com os turcos a assediar as muralhas de Constantinopla.

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