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DN 20100225por PATRÍCIA JESUS

Número de investigadores bolseiros bate recorde

Em 2009, a Fundação para a Ciência gastou mais de 146 milhões com bolsas

Há 10 310 bolseiros financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT): entre bolsas de doutoramento, mestrado e investigação, a Fundação gastou no último ano mais de 146 milhões - nunca tinha gastado tanto ou tido tantos bolseiros antes. Tal como nas faculdades, as mulheres já são a maioria dos bolseiros. A maior parte tem entre 25 e os 35 anos, embora a percentagem daqueles com mais de 35 tenha vindo a crescer.

É o caso de André Levy. Aos 37 anos, é bolseiro há nove e vai na segunda bolsa de pós-doutoramento. Quando se candidatou à segunda, já estava bem esclarecido sobre os problemas do sistema, nomeadamente a precariedade, mas foi a única forma de dar continuidade ao seu trabalho na área da biologia evolutiva e de ficar na mesma instituição, conta. Considera, no entanto, que os casos mais graves são os dos colegas que não têm o doutoramento e recebem bolsas de investigação a rondar os 745 euros, metade da sua.

É que muitas vezes as bolsas são a única saída para quem quer fazer investigação em Portugal, e depois de entrar no sistema é complicado sair, já que o mercado de emprego científico é muito pequeno, indica Luísa Mota, presidente da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC).

A bióloga de 34 anos, bolseira há nove, está entre os que recebem 745 euros por mês. "Se é uma situação boa para um recém-licenciado que não encontra saídas, passados dez anos já não é admissível. Não estamos a falar de jovens de 22 anos, estamos a falar de adultos em precariedade total", realça. Isto porque os bolseiros não têm acesso à Segurança Social mas sim a um seguro social voluntário, explica. O que significa que não têm direito ao subsídio de desemprego, nem de férias e ao 13.º mês.

Por isso, apesar de ver com bons olhos este aumento de bolsas, alerta para a necessidade de investir na criação de emprego científico de forma a não criar bolseiros crónicos. Sobretudo porque há muitos a "assegurar necessidades permanentes das instituições porque são baratos e descartáveis". Além disso, alerta para o facto de ninguém saber ao certo o número total de bolseiros, já que, além dos financiados directamente pela FCT, há muitos que são contratados directamente por Projectos de Investigação e não entram nesta contabilidade.

Nos últimos anos, o principal investimento da FCT tem sido nas bolsas de doutoramento - estas correspondem a 76% do total, seguidas das de pós-doutoramento (18%). João Sentieiro, presidente da FCT, justifica a aposta dizendo que são estes apoios que contribuem para o desenvolvimento da "investigação científica tal como é entendido internacionalmente". Ainda há algumas bolsas de mestrado, mas correspondem "a subsídios de tese" mais antigos, já que actualmente são financiadas apenas bolsas relativas a projectos muito específicos, como o concurso para luso-venezuelanos, explica João Sentieiro. Quanto às bolsas de investigação, a FCT só é responsável por 95.

Para Ramôa Ribeiro, que liderou a FCT de 2002 a 2005, o rumo actual faz sentido num país em que o número de doutorados continua abaixo da média europeia. "Só em meados dos anos 90 começou a haver doutorados suficientes para abrir programas de pós- -doutoramento", lembra. Uma evolução visível nas candidaturas a bolsas de pós-doutoramento: há dez anos havia 309 candidaturas e em 2009 houve 1139.

Para Ramôa Ribeiro, é uma pena que existam poucas bolsas de doutoramento em empresas: apenas 124. "É um número muito baixo e desmotivador, porque é uma iniciativa fundamental para integrar os doutorados no mercado de trabalho", conclui, acrescentando que as bolsas são uma "situação intermédia, não o futuro".

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