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DN20100121

As previsões feitas em 2007 sobre os glaciares dos Himalaias estão a ser
reavaliadas.

A maior autoridade mundial em mudanças climáticas admitiu ontem que foram
cometidos erros no cálculo das estimativas sobre um dos principais
indicadores de aquecimento global: o desaparecimento dos glaciares nos
Himalaias. Em comunicado, o Painel Intergovernamental para as Mudanças
Climáticas (IPCC) reconheceu que no seu quarto relatório, publicado em 2007,
certos "padrões de provas não foram aplicados correctamente".

Esta admissão de erro surge semanas depois do fracasso da Cimeira de
Copenhaga e após a polémica que ficou conhecida por Climategate. Esta
controvérsia, que começou com a divulgação de e-mails pondo em causa dados
científicos, afectou profundamente a posição dos defensores da tese do
aquecimento global. A semana já tinha sido marcada por notícias
contraditórias sobre os glaciares no Alasca. Embora estes glaciares tenham
perdido 42 quilómetros cúbicos de água entre 1962 e 2006, esse valor é um
terço inferior ao previsto.

Mas o erro sobre os Himalaias deverá ser politicamente mais sensível. Em
2007, o IPCC divulgou uma relatório onde se afirmava que estes glaciares
podiam desaparecer até 2035. A informação foi citada em todo o mundo,
incluindo pelo DN. No entanto, segundo o britânico Sunday Times, a previsão
sobre 2035 foi baseada numa história publicada na revista New Scientist, que
por sua vez citava um cientista indiano que entretanto afirma que tudo não
passou de "especulação".

A situação é mais grave tendo em conta o que afirma o autor da peça
jornalística da New Scientist. Ele diz ter entrevistado Syed Hasnain após
ler um artigo num jornal indiano. O cientista referiu a data de 2035, apesar
da não a incluir no relatório científico, na altura (1999) ainda não
publicado em revistas especializadas. Nesse relatório, Hasnain mencionava
que as suas observações diziam respeito a uma parte dos glaciares, não a
toda a região. A parte mais inacreditável desta história é como informação
tão pouco sólida se transformou numa posição do IPCC.

O artigo do Times que levou o IPCC a retractar-se cita um cientista
britânico que faz contas muito simples em relação aos glaciares da região:
alguns têm 300 metros de espessura e se derretessem a uma média de cinco
metros por ano, o seu desaparecimento levaria mesmo assim 60 anos. Ora, eles
estão a perder gelo a um ritmo de decímetros ou mesmo centímetros por ano.
Apesar da data ser irrealista e haver acusações de que se tratava de
"ciência vudu", o IPCC ignorou as críticas.

O eventual desaparecimento dos glaciares nos Himalaias teria consequências
gravíssimas no abastecimento de rios que servem um sexto da população
mundial (ver gráfico). Há 15 mil glaciares na região dos Himalaias e a sua
superfície total ronda meio milhão de quilómetros quadrados. O IPCC insiste
que se trata apenas de um erro em 3 mil páginas.

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