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A nova agricultura

por papinto, em 03.08.09
Leonel Moura, Diário Económico, 20070731
leonel.moura@mail.telepac.pt


 

Manifestações de agricultores não são nenhuma novidade. Podiam mesmo ter uma secção no Almanaque Borda d"Água tal a sua regularidade. Em ano de eleições, porque contaminadas pelos interesses partidários, são talvez um pouco mais frequentes...


 

Manifestações de agricultores não são nenhuma novidade. Podiam mesmo ter uma secção no Almanaque Borda d'Água tal a sua regularidade. Em ano de eleições, porque contaminadas pelos interesses partidários, são talvez um pouco mais frequentes e agressivas, mas é tudo. Do mesmo modo as reivindicações são tão repetitivas como a órbita solar resumindo-se quase sempre a exigir mais e mais subsídios e uma continuada protecção do Estado. E claro fazer caricaturas e insultar os governantes do momento. Nada de novo portanto.

E, no entanto, esta é uma das áreas da actividade humana que mais tem progredido e mais irá progredir nas próximas décadas. A agricultura é um dos domínios de maior investimento tecnológico e científico nos nossos dias. O outro é a saúde.

É claro que a maioria das pessoas acha que agricultura é uma coisa que se faz no campo, por rudes camponeses, com muito trabalho braçal e bastante bosta de vaca à mistura. Infelizmente ainda assim é em grande parte do país e daí os problemas.

A agricultura, em todo o mundo, está sobre pressão devido a vários factores. Desde logo, tal como em todos os outros sectores da actividade humana, devido à aceleração tecnológica. Não são só os transgénicos que representam esses novos desafios. A tecnologia tem vindo a invadir os campos de cultura, através de novos sistemas de plantação, irrigação, optimização, protecção electrónica contra pragas, encurtamento dos prazos de crescimento das plantas, processos robotizados de colheita, etc. Do mesmo modo, no domínio da produção agrícola de base animal assistimos a profundas transformações passando dos modos arcaicos e de massificação industrial, para novas abordagens baseadas na manipulação genética, clonagem e, por um outro lado, maior atenção ao bem-estar da vida animal.

Mas as novas tecnologias não afectam só os processos de produção. Também na gestão, na recolha de informações de todo o tipo, das económicas às ambientais, na criação de novos modelos de actividade, transformação, distribuição e comunicação, as novas tecnologias são cada vez mais determinantes para o sucesso da actividade.

Outra componente importante na alteração do paradigma agrícola prende-se com as questões ambientais. O crescimento da população, o combate à poluição, aquecimento global e em geral o problema da sustentabilidade da própria agricultura exigem conhecimentos e novas práticas e uma muito maior consciência dos efeitos da actividade humana sobre o planeta.

E, claro está, num mundo económico é necessário ter em conta mercados e suas flutuações, custos e benefícios, optimização de recursos materiais e humanos e por aí fora. Sobretudo, é evidente que, tal como acontece noutras áreas, a questão da escala é crucial. A pequena produção agrícola, tal como ela ainda é maioritária no nosso país, tem pouca viabilidade económica. A tendência, em todo a parte, vai no sentido de se ganhar escala, quer através do crescimento das grandes corporações, quer através de sistema cooperativos. Não só para efeitos de produção, mas igualmente no decisivo domínio da distribuição.

Por tudo isto é necessário criar um novo tipo de agricultores, muito mais qualificados. É preciso investir na formação e na educação de novas gerações de "camponeses". A terra já não é mais aquele lugar habitado por gente rude, temente ao sol e à chuva, praticante de velhos hábitos inconsequentes. Os campos vão sendo invadidos por engenheiros e técnicos altamente especializados.

Neste contexto reivindicar mais subsídios é ver curto. É, para mais, insistir num modelo esgotado e que só pode prolongar por mais algum tempo e ilusoriamente algo que está obsoleto. Para além dos efeitos perversos de condenar os mais pobres do mundo à mais profunda das misérias e ao extermínio. Cada subsídio que se dá a uma batata na Europa mata um africano.

A agricultura precisa de se modernizar. Sendo um dos sectores que emprega uma percentagem ainda considerável da população nacional e europeia, não pode deixar de olhar de frente para a realidade de um mundo em franca aceleração tecnológica e em processo de profundas transformações de toda a ordem. Mais do que distribuição de subsídios, Portugal precisa de um plano tecnológico para a agricultura.

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