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Público, 25.02.2009, Bárbara Wong
 

Um ano depois da aplicação do processo no ensino superior várias questões persistem.
Falta financiamento, reclamam as instituições. Os alunos queixam-de excesso de trabalho


 

A Falta financiamento para aplicar o Processo de Bolonha, que prevê a criação de um espaço europeu de ensino superior. Bolonha propõe novos métodos de ensino e de trabalho, mas para isso são precisas instalações diferentes e com outros equipamentos, além de mais professores para acompanhar os alunos, enumeram as instituições. É também necessária formação, acrescentam os docentes. Os alunos concordam e queixam-se que estão assoberbados de trabalho. As escolas têm até 2010 para aplicar o processo, mas actualmente as excepções são os poucos cursos que ainda não foram adaptados.
Bolonha nasceu em 1999; em Portugal, a sua aplicação começou há três anos, com a promulgação da lei pelo Presidente da República, mas só o ano passado é que a maior parte das instituições começaram a oferecer os novos cursos. Já não há licenciaturas de quatro e cinco anos como até há bem pouco tempo. Em vez disso, as licenciaturas são de três anos, os suficientes para deixar aptos para o mercado de trabalho os novos licenciados, garantem as universidades e politécnicos. Contudo, há excepções, como Medicina, Arquitectura, entre outros, para os quais se mantém a mesma duração dos cursos que deixaram de ser licenciaturas, mas mestrados integrados.
O desafio de Bolonha é reconhecido por todos os presidentes de politécnicos e reitores das universidades públicas que o PÚBLICO contactou. Mas "pode começar a fazer parte do problema", reconhece António Rendas, reitor da Universidade Nova de Lisboa, em resposta a um inquérito feito recentemente pelo PÚBLICO. "No terreno há algumas dificuldades", acrescenta José Manuel Mendes, presidente do Politécnico da Guarda. As instituições precisam de mais recursos, afinal trata-se de uma mudança estrutural, aponta Luís Reto, presidente do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa.
É o financiamento que preocupa os dirigentes das instituições. A mobilidade de Bolonha prevê a possibilidade de professores e alunos completarem os seus estudos noutra instituição, o que "exige um acréscimo de financiamento", sobretudo em instituições do interior, como a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, aponta o seu reitor.
'Concentrar em menos anos'
Bolonha prevê um ensino mais centrado no aluno e estes queixam-se de ter demasiado trabalho. Além dos exames, há avaliações contínuas, trabalhos individuais e de grupo, teóricos e de laboratório, é preciso assistir às aulas porque também conta para a nota, enumera Filipe Almeida, presidente da Federação Académica do Porto. "Os estudantes estão com mais trabalho, mas a questão é: por que é que têm de se submeter a este tipo de avaliação, quando Bolonha não diz que seja obrigatório passar o dia inteiro na faculdade?", interroga.
De facto, o espírito de Bolonha propõe que os alunos façam outras coisas além de estudar. Trabalhar, participar em actividades associativas, de voluntariado ou desportivas, são mais-valias para os estudantes. Mas como fazê-las quando há excesso de trabalho nas escolas, pergunta também Ricardo Pinto, da Federação Nacional das Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico. O dirigente justifica o excesso de trabalho com a necessidade que as instituições sentiram de encurtar os cursos de cinco para três anos.
"A discussão nas instituições foi de cosmética, de gestão dos currículos para que nenhum professor perdesse a sua disciplina", critica Gonçalo Xufre, presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup). Resultado: "Meter o Rossio na Rua da Betesga", ilustra João Cunha Serra, dirigente sindical da Federação Nacional dos Professores (Fenprof).
Falta formação aos docentes para se adaptarem ao novo paradigma, aponta João Rey, presidente da Associação Académica da Universidade da Beira Interior. "Os professores ainda não fazem muito bem as aulas tutoriais e os seminários", refere Ricardo Pinto.
"Em termos práticos, a esmagadora maioria dos professores continua a ensinar da mesma maneira, porque as questões pedagógicas são inexistentes e as instituições apostam nas qualidades intrínsecas de cada docente", reconhece Cunha Serra. "Falta muita, muita formação", sublinha Gonçalo Xufre.
Cristina Robalo Cordeiro, vice-reitora da Universidade de Coimbra, reconhece as críticas de alunos e sindicatos e defende uma maior coordenação entre os docentes do mesmo ano, para que, por exemplo, não peçam todos, na mesma semana, trabalhos. Contudo, as instituições estão atentas, diz. No caso de Coimbra foi criado um observatório de Bolonha há dois anos e está a aplicar-se um sistema de gestão da qualidade pedagógica, além de ser feita avaliação interna e externa. Este ano, pela primeira vez, as universidades e politécnicos fizeram um relatório sobre Bolonha, a pedido do ministério.
Propinas mais caras
Os estudantes estão ainda preocupados com o valor das propinas, igual para o 1.º e 2.º ciclos se forem fundamentais para exercer uma profissão. Caso contrário, o 2.º ciclo encarece e só estará acessível a alguns. A tendência de subir propinas é "um sinal negativo" que vai reflectir-se na desigualdade de acesso, alerta Cunha Serra, da Fenprof. Em Maio passado, o Conselho Económico e Social pediu ao Governo que definisse os moldes de financiamento do 2.º ciclo.
Ainda é cedo para saber, uma vez que os futuros licenciados de Bolonha só no próximo ano terminarão as licenciaturas de três anos, mas a maioria dos dirigentes académicos concorda que a tendência dos alunos será a de completar os cinco anos, para ficarem com o mestrado. Filipe Almeida, do Porto, pergunta por que é que em algumas profissões não é reconhecido o 1.º ciclo. Cristina Robalo Cordeiro lembra que em Portugal se "satisfizeram as ordens profissionais e criou-se uma denominação desconhecida no resto do espaço de Bolonha: os mestrados integrados".
Mas as desigualdades também se vão sentir na questão da mobilidade, outra das bandeiras de Bolonha. Se há uma maior vontade de sair "do pequeno rectângulo", como diz João Rey, a verdade é que só quem puder financeiramente é que se aventura a estudar no estrangeiro, aponta Ricardo Pinto. As bolsas existentes não cobrem todas as despesas, explica. A vice-reitora de Coimbra concorda que as bolsas são "diminutas", mas acrescenta outro factor: com um ciclo de três anos, não é claro para os estudantes em que ano devem sair.
 

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