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DL205_2009

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Público, 04.08.2009, Mário Vieira de Carvalho

A mobilidade de estudantes não é aproveitada em benefício de uma maior rentabilização dos recursos disponíveis

Segundo os descritores do Grupo de Amesterdão (síntese do entendimento corrente na Europa), os objectivos de formação dos dois primeiros ciclos do ensino superior são os seguintes.


Primeiro ciclo: a) capacidade de reunir e interpretar dados para informar os juízos e/ou a reflexão sobre temas social, científica e eticamente relevantes; b) capacidade de comunicar informação, ideias, problemas e soluções tanto a especialistas como a leigos.


Segundo ciclo: a) capacidade para formular juízos a partir de informação incompleta ou limitada - incluindo reflexão sobre responsabilidades sociais e éticas relacionadas com aplicação do seu saber e opiniões; b) capacidade de transmitir as suas conclusões, bem como o conhecimento e a base lógica da tese subjacente, tanto a públicos especializados como a não especialistas e de uma forma clara e inequívoca; c) capacidade para integrar o conhecimento e tratar a complexidade.


Basta lermos estes descritores para percebermos um equívoco: a confusão dos objectivos de formação do primeiro e do segundo ciclo de Bolonha respectivamente com as matrizes das nossas antigas licenciaturas e mestrados. Não houve coragem para reformas curriculares de fundo. A comensurabilidade dos nossos graus com os do espaço europeu é apenas formal, e não substancial.


As universidades portuguesas acreditaram que podiam continuar a chamar juristas, economistas, arquitectos, etc., aos portadores de um diploma de primeiro ciclo - o qual, porém, não titula, no espaço europeu, a "capacidade para formular juízos a partir de informação incompleta", a "capacidade de transmitir as suas conclusões de uma forma clara e inequívoca" ou a "capacidade para integrar o conhecimento e tratar a complexidade". Ao acreditarem nesse contra-senso - como se o antigo conceito de licenciatura e o actual fossem uma e a mesma coisa - geraram uma cadeia de efeitos perversos que está a lançá-las na crise: crise de projecto e crise financeira.


Crise de projecto. Por um lado, porque esvaziaram o segundo ciclo da sua função: obcecadas com o velho conceito de licenciatura, desprezaram o "centro de gravidade" ou "nó central" do ensino superior, que passava a ser o mestrado. Por outro lado, porque tornaram o tradicional ensino monodisciplinar ainda mais compacto.


Crise financeira. Desde logo, porque a concentração de recursos docentes num primeiro ciclo demasiado pesado é feita à custa dos mestrados, reduzindo, a este nível, a oferta de vagas e a geração de receitas. Depois, porque a mobilidade de estudantes, por via da interdisciplinaridade, não é aproveitada em benefício de uma maior rentabilização dos recursos disponíveis, mesmo nas especialidades mais raras.


Um primeiro ciclo de banda larga, com abertura pluridisciplinar, não prejudica a formação no domínio científico principal. Antes pelo contrário, reforça-a. Os horizontes cognitivos alargam-se, graças à produtividade intelectual da relacionação: "o real é relacional". As capacidades assim adquiridas, seja nesse grau, seja no segundo ciclo, têm um valor acrescentado. Inscrevem-se num perfil individual de formação (a um tempo especializado e interdisciplinar), segundo as opções e motivações de cada um. Cruzam saberes - condição de inovação e factor de empregabilidade.


O ensino superior europeu (tal como, aliás, o norte-americano) favorece, em geral, essa diferenciação dos perfis. Pelo contrário, as nossas universidades ganham a palma a todas as outras na clonagem de diplomados. Professor universitário

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A nova agricultura

por papinto, em 03.08.09
Leonel Moura, Diário Económico, 20070731
leonel.moura@mail.telepac.pt


 

Manifestações de agricultores não são nenhuma novidade. Podiam mesmo ter uma secção no Almanaque Borda d"Água tal a sua regularidade. Em ano de eleições, porque contaminadas pelos interesses partidários, são talvez um pouco mais frequentes...


 

Manifestações de agricultores não são nenhuma novidade. Podiam mesmo ter uma secção no Almanaque Borda d'Água tal a sua regularidade. Em ano de eleições, porque contaminadas pelos interesses partidários, são talvez um pouco mais frequentes e agressivas, mas é tudo. Do mesmo modo as reivindicações são tão repetitivas como a órbita solar resumindo-se quase sempre a exigir mais e mais subsídios e uma continuada protecção do Estado. E claro fazer caricaturas e insultar os governantes do momento. Nada de novo portanto.

E, no entanto, esta é uma das áreas da actividade humana que mais tem progredido e mais irá progredir nas próximas décadas. A agricultura é um dos domínios de maior investimento tecnológico e científico nos nossos dias. O outro é a saúde.

É claro que a maioria das pessoas acha que agricultura é uma coisa que se faz no campo, por rudes camponeses, com muito trabalho braçal e bastante bosta de vaca à mistura. Infelizmente ainda assim é em grande parte do país e daí os problemas.

A agricultura, em todo o mundo, está sobre pressão devido a vários factores. Desde logo, tal como em todos os outros sectores da actividade humana, devido à aceleração tecnológica. Não são só os transgénicos que representam esses novos desafios. A tecnologia tem vindo a invadir os campos de cultura, através de novos sistemas de plantação, irrigação, optimização, protecção electrónica contra pragas, encurtamento dos prazos de crescimento das plantas, processos robotizados de colheita, etc. Do mesmo modo, no domínio da produção agrícola de base animal assistimos a profundas transformações passando dos modos arcaicos e de massificação industrial, para novas abordagens baseadas na manipulação genética, clonagem e, por um outro lado, maior atenção ao bem-estar da vida animal.

Mas as novas tecnologias não afectam só os processos de produção. Também na gestão, na recolha de informações de todo o tipo, das económicas às ambientais, na criação de novos modelos de actividade, transformação, distribuição e comunicação, as novas tecnologias são cada vez mais determinantes para o sucesso da actividade.

Outra componente importante na alteração do paradigma agrícola prende-se com as questões ambientais. O crescimento da população, o combate à poluição, aquecimento global e em geral o problema da sustentabilidade da própria agricultura exigem conhecimentos e novas práticas e uma muito maior consciência dos efeitos da actividade humana sobre o planeta.

E, claro está, num mundo económico é necessário ter em conta mercados e suas flutuações, custos e benefícios, optimização de recursos materiais e humanos e por aí fora. Sobretudo, é evidente que, tal como acontece noutras áreas, a questão da escala é crucial. A pequena produção agrícola, tal como ela ainda é maioritária no nosso país, tem pouca viabilidade económica. A tendência, em todo a parte, vai no sentido de se ganhar escala, quer através do crescimento das grandes corporações, quer através de sistema cooperativos. Não só para efeitos de produção, mas igualmente no decisivo domínio da distribuição.

Por tudo isto é necessário criar um novo tipo de agricultores, muito mais qualificados. É preciso investir na formação e na educação de novas gerações de "camponeses". A terra já não é mais aquele lugar habitado por gente rude, temente ao sol e à chuva, praticante de velhos hábitos inconsequentes. Os campos vão sendo invadidos por engenheiros e técnicos altamente especializados.

Neste contexto reivindicar mais subsídios é ver curto. É, para mais, insistir num modelo esgotado e que só pode prolongar por mais algum tempo e ilusoriamente algo que está obsoleto. Para além dos efeitos perversos de condenar os mais pobres do mundo à mais profunda das misérias e ao extermínio. Cada subsídio que se dá a uma batata na Europa mata um africano.

A agricultura precisa de se modernizar. Sendo um dos sectores que emprega uma percentagem ainda considerável da população nacional e europeia, não pode deixar de olhar de frente para a realidade de um mundo em franca aceleração tecnológica e em processo de profundas transformações de toda a ordem. Mais do que distribuição de subsídios, Portugal precisa de um plano tecnológico para a agricultura.

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