Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Público, 11.01.2009, Ana Fernandes
 

Problemas afectam sobretudo o olival tradicional, que tem muita importância social e ambiental em regiões do interior

 

Desde Novembro que, pelos campos portugueses, as atenções se viraram para a oliveira e o seu precioso fruto. Mas, este ano, muitos olivais continuam pintalgados de negro. A queda abrupta dos preços do azeite n está a desincentivar os agricultores, que deixam as azeitonas nas árvores. É no olival tradicional que se sente este abandono, que tem vindo a registar quedas na produção nos últimos anos que se aproximam dos 50 por cento.
Nas duas mais importantes zonas produtoras do país - Trás-os-Montes e Alentejo - o cenário é o mesmo: multiplicam-se os hectares de olivais tradicionais que ficam pejados de fruto. A causa? A queda do preço do azeite, sobretudo no último mês. "Na mesma altura no ano passado, o quilo estava a 2,6 euros, agora está nos 1,8", relata Aníbal Martins, presidente da Federação de Cooperativas de Azeite de Portugal (Fenazeites).
Por consequência, a azeitona é vendida ao preço da uva mijona. "Está, em média, a 30 cêntimos por quilo, quando o ano passado estava acima dos 40 cêntimos e em 2006 a 60-70 cêntimos", adianta. Com este retorno, o agricultor não vê recompensados os custos. Só recolher o fruto custa 20 cêntimos por quilo e os dez cêntimos restantes não compensam o que gastou no ano inteiro.
"O preço em Portugal reflecte o preço em Espanha, que está em queda", adianta Patrícia Falcão, da Fenazeites. Esta redução explica-se muito pela crise mundial, que se reflecte nalguma retracção do consumo. "Apesar de ter havido, nos últimos anos, algum aumento da procura, a oferta tem acompanhado, mas agora as famílias estão a comprar menos e as próprias empresas, que antes compravam para vários meses, andam a adquirir para o dia-a-dia", conta Aníbal Martins, também produtor no Alentejo.
Este drama vive-se sobretudo no olival tradicional, que ocupa cerca de 350 mil hectares do país. Resistem as novas plantações, de olival intensivo - grande parte espanhol - que abrangem 50 mil hectares. E que reflectem um outro mundo. "Um olival tradicional produz entre 700 a 800 quilos por hectare, enquanto o intensivo está nos oito a dez mil quilos por hectare", refere a Fenazeites. E se, no tradicional, a apanha custa 20 cêntimos por quilo, no intensivo baixam para cinco a seis cêntimos.
Mas porque não se mecaniza a apanha nos velhos olivais? "Não é possível porque, enquanto um olival novo tem cerca de 300 árvores por hectare, num tradicional o número baixa para 70, o que faz com que haja menos concorrência ao nível do sistema radicular, tornando-se o tronco mais largo e a árvore mais alta, portanto quando se coloca uma máquina a vibrar, a árvore quase não mexe", explica o olivicultor. E há ainda a questão do relevo, como é o caso de Trás-os-Montes, onde se produz mais azeite, depois do Alentejo.
Tradicional ameaçado
O futuro apresenta-se pouco optimista para o olival tradicional, sobretudo nas zonas serranas. "Já se estava a registar muito abandono, mas agora a tendência é para que se agrave", diz Aníbal Martins.
Esta queda não tem grandes reflexos na produção de azeite, que está a ser alimentada pelas novas culturas, já que os 50 mil hectares de olival intensivo têm um potencial produtivo superior aos 350 mil hectares do tradicional.
O agravamento do abandono do olival poderá ter graves consequências, sobretudo ao nível social e ambiental de muitas regiões do interior. As políticas seguidas depois da adesão à União Europeia, que privilegiavam a pequena propriedade, levaram a um grande aumento dos olivais em Trás-os-Montes, em detrimento do Alentejo. A partir do início deste século, com as mudanças na política agrícola, o Sul renovou a sua aposta e, recentemente, investidores espanhóis deram um empurrão aos olivais alentejanos, apostando no intensivo.
Mas o que fazer com os tradicionais, já que a denominações de origem apenas garantem facilidades de escoamento, mas não incrementam por aí além o preço pago ao agricultor? "Nos apoios, deve-se diferenciar os dois tipos de olival porque não nos podemos dar ao luxo de abandonar tantas árvores, tantos hectares, seria um desastre social e ambiental", afiança o olivicultor.
Uma das soluções, defende, seria apostar nas agro-ambientais. "Até há três anos, tínhamos estas medidas e houve um aumento na produção e na qualidade da azeitona, mas desde que este ministro acabou com isso, já não há apoios e o abandono voltou", refere. Uma vez que é no Alentejo, dada a extensão da propriedade e o relevo, que os olivais intensivos têm mais sucesso, são as outras regiões do interior do país que mais sairão penalizadas pelo abandono do olival. Sobretudo Trás-os-Montes.

 


Valor do azeite cai 30 por cento
Público, 11.01.2009, Ana Fragoso

Muitos olivicultores transmontanos deixaram este ano a azeitona nas árvores simplesmente porque a actividade "não é rentável", lamentam.
Os preços de venda do produto caíram drasticamente: "Em 2007 foi vendido o quilo da azeitona a granel a 40 cêntimos e este ano está a ser pago a 25 cêntimos", revelou o presidente da Associação dos Olivicultores de Trás-
-os-Montes e Alto Douro, António Branco. O mesmo se verifica em relação ao produto já transformado. Em 2007, o quilo de azeite foi pago a cerca de 2,5 euros e este ano está a ser pago a 1,93 euros. "Desta maneira ninguém resiste", comentou, explicando que 2008 foi um ano em que aumentaram na mesma ordem, cerca de 30 por cento, os custos de produção: "Os adubos, o gasóleo agrícola e a própria mão-de-obra, que quase não há e quando há tem de ser bem paga." Tudo isto se explica com um nivelamento dos preços a partir das bolsas internacionais, nomeadamente a espanhola. "Essas bolsas consideram a venda da azeitona a granel resultando da produção superintensiva onde não se valoriza a qualidade", diz. Ora, em Trás-os-Montes o único elemento concorrencial da produção é precisamente a qualidade. Alguns olivicultores têm arrecadado prémios dos melhores azeites do mundo, mas essa qualidade resulta de práticas tradicionais, de olivais onde praticamente não existe mecanização, pequenas produções que não podem e não devem competir com o olival superintensivo. "O problema é que não existe um mercado de diferenciação, paga-se o mesmo por misturas de azeite com óleo que por azeite extravirgem", afiança. António Branco alerta que a designação de azeite nas embalagens colocadas no mercado só obriga a conter uma percentagem de 20 por cento de azeite virgem, o restante produto não é mais do que azeite refinado, óleo. Por isso Branco insiste na necessidade de existir fiscalização no embalamento dos produtos, "que não é feita", denuncia.
Mas se Espanha serve para nivelar o preço da produção nacional, outras práticas do país vizinho não são seguidas em Portugal: "Em Espanha existe uma clara diferenciação pela qualidade dos produtos, o azeite de menor qualidade não é vendido ao mesmo preço dos de elevada qualidade", afiança. Por isso apela ao Governo que implemente medidas que defendam essencialmente os pequenos produtores, que são aqueles que ainda contribuem para que o azeite transmontano seja reconhecido como dos melhores do mundo. A actividade vai subsistindo graças ao elevado números de produtores que não têm na olivicultura a sua actividade principal. "Eu diria que são 60 por cento dos produtores que, tendo outras profissões, se dedicam à olivicultura como hobby ou actividade complementar." Mas os que têm na agricultura a sua única fonte de rendimento vivem dias de grave crise por não conseguirem proveitos económicos que lhes permitam continuar.
Na região de Trás-os-Montes produzem-se em média 90 mil toneladas de azeitona por ano. Recentemente foram plantados mais de 30 mil hectares de novo olival. A produção devia cifrar-se já nas 120 mil toneladas, o que não acontece: "A actividade está a estagnar, e até a diminuir, porque não há medidas que incentivem o investimento nem que valorizem a qualidade", rematou.
 


Olival tradicional está a sofrer a primeira prova de força

 

Pùblico, 11.01.2009, Carlos Dias

 

O primeiro impacto provocado pelo "boom" do novo olival vindo de Espanha está a deixar em sobressalto os produtores dos concelhos de Moura, Serpa, Beja e Ferreira do Alentejo, um território que é considerado o centro de gravidade da fileira do azeite em Portugal. O preço pago à produção deste ano, 40 cêntimos em média por quilo de azeitona, representa uma quebra de 35 por cento em relação ao ano passado.
Os agricultores que têm a sua cultura baseada no olival tradicional sentiram, pela primeira vez, os efeitos do confronto com o novo olival intensivo e superintensivo que, entre 1998 e 2008, cobriu uma área estimada por Henrique Herculano, dirigente do Centro de Estudos e Promoção dos Azeites do Alentejo (CEPAAL), entre 55 mil e 60 mil hectares na região Alentejo. Segundo este responsável, "não é irrealista pensar" que até 2010 possam estar plantados no Alentejo 100 mil hectares de novo olival.
A quebra no preço da azeitona ditou o primeiro embate na produção baseada no olival tradicional, realça, por sua vez, Sebastião Rodrigues, presidente da Associação de Agricultores de Serpa. Pequenos agricultores, como João Ferreira Carrasco, que tem uma área de 67 hectares de olival em Vila Verde de Ficalho, deixaram ficar a azeitona nas árvores. "Não compensa estar a apanhá-la", explicou ao PÚBLICO, pois só a mão-de-obra que teria de envolver na tarefa custar-lhe-ia 20 cêntimos por quilo, a que se juntam muitos outros custos que anulam completamente o preço a receber.
A quebra no preço afecta sobretudo a produção tradicional, baseada na variedade galega, que suporta boas marcas de azeite de grande qualidade D.O.P (Denominação de Origem Protegida).
Na freguesia da Granja, concelho de Mourão, o olival tradicional das pequenas e médias explorações também sentiu os efeitos da baixa de preço. Um jovem agricultor, António Ramalho, deitava contas à vida sobre o que estará reservado ao seu olival, que ocupa uma área com 42 hectares. As árvores estão bem tratadas e a produzir em pleno. Mesmo assim, vai deixar a produção na árvore. "Gastaria mais na apanha do que na venda do produto", garante. O olival foi plantado há cerca de 70 anos, o que, no caso da variedade galega, representa a velocidade cruzeiro na sua capacidade produtiva. O olival intensivo tem um tempo de vida útil de 30 anos e o superintensivo dificilmente chegará aos 20.
"Não temos ajudas para manter este tipo de olival", queixa-se o agricultor, nem através das medidas agro-ambientais. "Aquilo é tão complicado que a gente evita candidatar-se", observa.
 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)