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Por Marta F. Reis, publicado em 12 Mar 2012 - 03:10 | Actualizado há 6 horas 15 minutos

Aumentar preços pode contribuir para a segurança alimentar? Sim, mas o debate ainda está no início

 

Produzir um quilo de leite exige 700 litros de água. Um quilo de carne de porco 4600 litros. Um quilo de carne de vaca 13 mil litros. “Se reflectirmos sobre estes números, teremos de fazer uma revisão radical da nossa dieta”, introduziu Emídio Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, na passada sexta-feira, em Lisboa, no arranque do ciclo de conferências sobre o futuro da alimentação.

O problema, perante a escassez de água e tendo em conta a carne que comemos, já seria colossal, e mudar de dieta até pareceria fácil. Mas o desafio é global e as soluções continuam em discussão. Em 2050, seremos mais dois mil milhões de habitantes no planeta, 9 mil milhões. Na Europa e nos Estados Unidos o consumo de carne tem-se mantido estável, mas na China quadruplicou em 40 anos. Há mil milhões de pessoas com fome e, segundo dados da ONU, desperdiçamos 30% dos alimentos produzidos.

Se a esta altura já está a recordar o silogismo popular que diz às crianças para comerem tudo porque há pessoas a morrer de fome em África, se calhar a discussão da segurança alimentar vai fazer com que faça sentido: se os preços dos alimentos aumentarem “moderadamente”, sugeriu o convidado de honra da primeira conferência, o professor de Oxford Charles Godfray, talvez haja menos desperdícios, menos fome, além de outras consequências benéficas como aumentar a investigação nesta área e os agricultores terem mais retorno por produzirem mais e melhor.

O objectivo do ciclo da Gulbenkian é pôr as cartas em cima da mesa e antecipar soluções para um problema iminente. São muitas e todas interligadas: das alterações dos padrões de consumo a limitações incontornáveis, como 70% da água disponível já ser canalizada para a agricultura e 30% das emissões de gases com efeito de estufa virem da produção agro-alimentar.

Posto isto, mais as alterações climáticas, Godfray, director do programa Oxford Martin para o Futuro da Alimentação, diz que não há uma solução milagrosa e aumentar o preço seria um bom compromisso para garantir melhores resultados. “Nos países ricos a comida é muito barata, nunca nenhuma civilização gastou tão pouco em alimentos como a nossa”, diz, acrescentando que esse ajuste teria sempre de se fazer com medidas de apoio aos pobres para evitar convulsões sociais.

Já que tipo de aumento seria benéfico, é uma questão em aberto, responde ao i. Mesmo tendo coordenado um estudo para o governo britânico sobre o futuro da agricultura e alimentação (“The Future of Food and Farming”, 2011). Certo é que, pelas próprias pressões populacionais e alterações climáticas, em 40 anos o preço do milho pode duplicar, refere, citando um modelo elaborado para o relatório.

Sem alternativas, com um puzzle enorme por montar e sem recorrer às soluções do passado, por onde se começa? Godfray refere os impostos sobre alimentos calóricos e bebidas açucaradas como um bom ponto de partida mas alerta que é preciso um consenso público sobre os riscos da insegurança alimentar semelhante ao que legitimou os governos a restringir o tabaco ou a combater a pobreza. Para Godfray, a solução última chama-se “intensificação sustentável” da agricultura: “A resposta há 15 anos seria que temos de aumentar a área de cultivo. Hoje, sabemos que isso tem enormes custos ambientais. Temos de encontrar uma solução para produzir mais comida na mesma porção de terra, com menos efeitos ambientais.” E mesmo sendo biólogo de formação, não descarta os transgénicos. “É errado excluí-los. Não vão alimentar África mas podem ajudar.”

E haverá forma de atrair financiamento para investigação quando há alimentos mais baratos a entrar no mercado e uma lei da oferta e procura global? Aqui a solução torna-se mais demorada: entronca nas discussões do futuro da política europeia comum – que terá uma nova fase a partir de 2014 – e numa eventual alteração do acordo geral de tarifas e comércio da Organização Mundial do Comércio, em negociação há dez anos.

Nesta primeira conferência, Arlindo Cunha, ex-ministro da Agricultura e do Ambiente resumiu a evolução da PAC desde 1962 para concluir que está na altura de abrandar: “Temos optado por um modelo de globalização que não serve todas as partes. Era necessário permitir que os países mais pobres pudessem proteger mais os seus mercados e, por outro lado, em relação a países mais desenvolvidos como a Europa – que têm políticas agro-ambientais robustas e que implicam custos de produção mais elevados – permitir-lhes alguma protecção.”

Já no espaço de debate, com auditório cheio e participações reactivas, Arlindo Cunha admite que é preciso aumentar a transparência dos mecanismos destinados a apoiar países mais pobres, como a iniciativa “Tudo Menos Armas”, que favorece a importação de países em desenvolvimento mas é criticada pelo uso indevido de exportadores ricos e emergentes. Mas também aponta o dedo às grandes superfícies na equação da insegurança alimentar: “Os poderes públicos têm andado de cócoras sob o poder das grandes superfícies. Precisamos de políticas que reforcem os mercados locais e regionais. Os países têm de ter direito a uma certa margem de auto-suficiência.”

Também Godfray acredita que a Europa pode fazer mais pela agricultura, mesmo sem gastar mais. Hoje, dos 55 mil milhões de euros de despesa da PAC 40% vão para ajudas directas que não implicam produção de facto. “É um momento único na História. Há 25 anos não conseguíamos justificar racionalmente que iria haver um pico de procura, ainda estávamos convencidos que Malthus estava errado. Hoje sabemos que se falhamos em comida, falhamos em tudo.”

Convém lembrar que Thomas Malthus lançou o debate sobre a fome mundial há mais de 150 anos. “O poder da população é infinitamente maior que o poder da terra para produzir a subsistência do homem”, escreveu.

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