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Jovens procuram economia primária

por papinto, em 20.11.11

Mafalda de Avelar  


Semanário Económico 20/11/11 18:05


Da agricultura à pesca, passando pela pecuária, a tendência está aí. Enquanto para uns é uma escolha, para outros “não há outra opção”. Esta, sim, é a realidade.

São jovens, executivos, têm licenciaturas, facturam, juram que "têm os melhores produtos do mundo"(todos sem excepção), gerem a dinâmica e o ‘stress' empresarial mas não usam gravatas. E não foi a pedido da Ministra! Na verdade, do Ministério de Assunção Cristas só querem uma coisa: menos burocracia e mais informação. "Não queremos subsídios. Só queremos que não nos bloqueiem o caminho". É o apelo comum destes jovens que se dedicam a um sector cada vez mais em voga, a economia primária. Ou, dito de outra forma, a produção.

Por opção ou por necessidade - afinal e segundo dados do INE divulgados esta semana, a taxa de desemprego atinge 12,4% da população (ou seja existem 689 mil e seiscentos indivíduos sem trabalho) -, o facto é que o movimento e a tendência estão aí. De acordo com o INE, neste último trimestre, do total dos 249 mil trabalhadores por conta própria que são empregados, 9,9% está no sector da "agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca". Mas os números vão além disso. Segundo a mesma fonte, e no mesmo período em causa, estima-se que 478 mil e quinhentas pessoas trabalhem em empresas cuja a actividade económica principal é a "agricultura, a produção animal, a caça, a floresta e a pesca" (independentemente das funções que nelas exercem). Números que, infelizmente, não podem ser comparados "porque a metodologia mudou", mas que são claros em relação a um fenómeno que está a acontecer mesmo aqui ao lado. Se está a viver nas grandes cidades repare, por exemplo, nas hortas urbanas. Já alguma vez viu? Seguramente que sim. O projecto "Horta à Porta", que surgiu no Porto em 2003, foi pioniero. Mas hoje há vários do género e têm uma procura "que é uma loucura", como refere uma funcionária de uma instuição pública que se dedica a esta actividade. "Temos filas de espera para arrendar terrenos. Hoje, com esta crise, todos querem ser agricultores. Quanto mais não seja para auto-consumo", refere. "Ainda na semana passada me apareceu uma jovem de 25 anos, recém-formada, que quer montar um negócio de ‘cheiros' no Alentejo".

Mas o que está a acontecer? Como apontam os autores de "Portugal Rural - A Oportunidade", livro que será lançado na próxima semana, existe muito desperdício em Portugal. Talvez por isso alguns portugueses queiram aproveitar este nicho da economia que é vital ao desenvolvimento do país. Segundo a mesma obra, mais de dois milhões de hectares de terras estão abandonados em Portugal; mais de 220 mil agricultores recebem subsídios para não produzir; das 18 mil embarcações de pesca que tínhamos em 1986, passámos a ter, em 2010, apenas 8490. E isto apesar de termos a maior ZEE (zona económica exclusiva ) de toda a União Europeia. De notar que a nossa área marítima é 18 vezes superior ao tamanho do território nacional.

Ainda segundo os autores de "Portugal Rural - A Oportunidade" (Jack Soifer, Jorge Santos, Sílvia Chambel, Armindo J. Palma e Catarina Gonçalves), "todos os dias saem do país dezenas de milhões de euros para importar alimentos que podiam ser produzidos em Portugal, na sua esmagadora maioria". As consequências? "As aldeias no interior ficam abandonadas, somos o segundo país mais desertificado de toda a UE, a seguir à Itália; importamos 80% dos alimentos que comemos; importamos 60% do pescado que comemos". Situação complicada mas que para muitos é uma oportunidade.

E agora a Pesca

Miguel Zegre, 36 anos, casado, com três filhos (de 13, 11 e sete anos) é um dos jovens que agarrou um nicho. Dedicou-se à pesca. Isto porque "sou de Sesimbra, sou engenheiro informático, comecei a estudar em Lisboa aos 18 anos e quando acabei o curso comecei a reparar que o peixe que se comprava em Lisboa não tinha aquela qualidade a que eu estava habituado". A necessidade estava identificada. A ideia estava lá. Daí a abrir a empresa foi um passo. Curto. "Convenci o meu sócio, que é uma pessoa que está desde sempre no sector, porque o pai é armador, a entrar neste negócio". E assim foi.

A peixefresco.com.pt não só existe na ‘net' - aliás, esse é um dos seus factores de diferenciação (além da frescura) - como "gera lucros" na economia real, garante Zegre. E afirma ainda: "facturo 100 mil euros por ano". Com cinco trabalhadores, três a ‘full time', esta empresa tem cerca de 1000 clientes "quase todos na grande Lisboa" e oferece cerca de 30 espécies diferentes de pescado. Trabalhando directamente e diariamente com o mar, este engenheiro afirma que o grande problema do sector são as licenças e certificações."Queremos desenvolver novos negócios e as coisas não arrancam".

"Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!".

Que não restem dúvidas, que o sábio Fernando Pessoa sabia do que escrevia. "A vida de pescador não é fácil. Não a desejo aos meus filhos", diz António Henrique, de 49 anos, também pescador de Sesimbra. Com mais uns aninhos e com uma visão bem distinta, Mário Viegas Rodrigues, 83 anos, pescador desde os oito, não troca a pesca por nada. "É um vício. Dá-me muito prazer ir três vezes por semana à pesca. Para o jardim não vou. Mas para o mar quero sempre ir", afirma este octogenário, que confessa que o seu peixe preferido é o polvo". Símbolo das máfias, este "perigoso molusco, que antigamente levava à amputação dos membros quando os pescadores o apanhavam nas rochas", como salienta a médica Maria Correia, hoje é substituído por outras pescarias.

Segundo dados revelados pelo gabinete do Secretário de Estado do Mar, das 180.182 toneladas de pescado capturado em águas nacionais (continente e ilhas) a sardinha é a espécie mais capturada. Um registo que tem vindo a crescer. De acordo com a Doca Pesca, que regista todas as transacções (só em Portugal Continental) nas lotas foram transaccionadas 54.653 toneladas, em 2009; esse número subiu para 56.980 toneladas em 2010 e este ano, entre Janeiro e Outubro, foram capturadas 42.446 toneladas de sardinhas. (O que, por exemplo, para o sector das conservas, já pode começar a ser um problema dada a grande procura).

Maior procura é também o que parece estar a acontecer com a profissão de pescador. Luís ( nome fictício) do pescador de 33 anos, que reside na Costa Alentejana, diz que "estudei gestão mas estou desempregado. O que tenho? Tenho muito jeito para pescar. Por isso saí da cidade, onde vive toda a minha família e vim morar para a praia". Sem qualquer problema afirma " vivo e vivo bem com o dinheiro da pesca.". "Obvimamente que não sou rico", conclui. Quem também enfrenta o drama do desemprego é Flávio, de 22 anos, que faz entregas de peixe e que não nega que, assim, sempre ganha qualquer coisa. Este pescador, que afirma que "já os meus avós e o meu pai também trabalharam na pesca", faz parte dos 1.407 pescadores que têm entre 15 e 24 anos, segundo dados da Secretária de Estado do Mar.

Quem também se dedica à actividade é Luís Cardoso, 38 anos, que desabafa que "neste momento há muitos jovens à procura desta actividade. Há meia dúzia de anos não. Mas, neste momento, com o desemprego nota-se que muitos jovens estão à procura de uma bóia de salvação". Um suporte que tem ainda muito espaço para crescer.

Segundo um estudo, de Maio de 2009, coordenado pelo já desaparecido Ernâni Lopes, "a correcta utilização do potencial das actividades ligadas à área marítima portuguesa permitirá duplicar o seu peso no Produto Interno Bruto (PIB) até 2025. Nessa altura, a economia do mar pode valer 12% do PIB português, ou seja, cerca de 20 mil milhões de euros".

E depois a pecuária

Quem também lida com números e cabeças de gado é António Marques dos Santos, 40 anos, engenheiro que gere duas empresas agrícolas, uma delas a Sociedade Agrícola da Quinta de Sancha Cabeça, em Montemor-o-Novo.

Com 150 cabeças de bovino, cerca de 500 de ovinos, Marques dos Santos não pára. A sua rotina, que não é fácil, é realizada com paixão e está díluida ainda nos seus genes, sendo que as tarefas que faz "fazem parte da família há uns bons anos". Família essa que hoje cresceu e que faz com que o pai esteja, algumas vezes, longe dos filhos, sendo que os mesmos vivem na cidade.

No entanto, a noção de equilíbrio é aqui encontrada. Este agricultor, que gere 770 hectares de terra (entre 31 hectares de vinhas e 70 de oliveiras) está sempre a ver vida "cada vez que nasce um animal", algo que faz parte do seu dia-a-dia que passa por ir ao campo, "ver as coisas, os animais, as vacas e saber se estão bons ou não".

Mas há mais ou não fosse mais difícil manter do que obter. É necessário, hoje, gerir com qualidade. O preço, às vezes, é alto mas a qualidade, essa, é a melhor. O problema é que as pessoas nem sempre se apercebem da qualidade.

O latifundiário afirma que "temos hoje uma vontade de olhar para a agricultura mais a fundo mas tem que existir mais do que isso. Não temos clima, nem terras para sermos autosuficientes em tudo.. mas devemos olhar para os nichos", diz Marques dos Santos, referindo, por exemplo, alguns custos básicos, como os do matador. Quanto custa abater um bicho? "O meu custo de abater um vitelo é cerca de 50 euros". Depois do abate, fica a carcaça e ainda temos que limpar a mesma", o que custa entre 70 a 80 euros. Sobre o facto de poder ter mais animais, o gestor é peremptório : "Eu na minha exploração não quero meter mais vacas porque senão vou estragar o montado e a biodiversidade". Neste dia passado no campo, o Outlook viu muitas placas de madeira, tais como a que sinaliza a entrada na casa mãe. Questionado sobre quem é que as colocou, o gestor responde que foi a Câmara local. Bom sinal, dirão certamente os autores de "Portugal Rural - A Oportunidade", que são claros em afirmar que se tem que procurar mais do que a produção. No seu livro lê-se, a propósito da ligação ao turismo, que "hoje o turista é exigente, faz opções e não se importa de pagar, e procura os pequenos nichos no mundo, no Sanin Kaigan Geopark, comer peixe cru, dormir no chão e beber chá, ou em Portugal, beber um bom vinho, provar o azeite e o queijo, dormir numa casa rural". Se for nesta casa que visitamos, este será com toda a certeza um turista que não só volta, como recomenda.

Por fim, a Agricultura

"Da Horta" (produtos da horta) é uma marca que tem, cada vez mais, presença nas casas portuguesas. Não só atráves do ‘site' que os dois sócios agrónomos criaram, mas também porque é da(s) horta(s) dos dois que são abastecidos três dos grandes mercados biológicos da grande Lisboa. Biocoop, Miosótis e Brio, por exemplo, "têm lojas por todos os lados", como afirma João Pedro Oliveira, 38 anos, casado com uma consultora. Com dois filhos, este agrónomo, formado pelo Instituto Superior de Agronomia (e colega do Secretário de Estado José Diogo Albuquerque) afirma que não há nada como a terra. Na terra estão as raízes. Tendo tido outras actividades, "fui funcionário público e depois trabalhei numa associação de agricultores ligados ao milho". "Estou agora na produção". E está com força e com um factor bem claro de diferenciação: tudo o que produz é biológico e tem todos os certificados. Fundador dos produtos "da Horta", Oliveira é, agora, com o seu sócio, fundador da BdeBio. "Empresa que está a agregar agricultores à sua volta", refere. Actualmente, estes dois jovens agricultores "biológicos" têm duas quintas (alugadas). Uma em Rio Maior e outra no Cadaval. Enquanto nesta última facturam cerca de 100 mil euros por ano, no total o negócio tem uma facturação de cerca de 800 mil euros.

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