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DN 20111121 Paulo Faustino<input ... ><input ... >

O chá mais antigo da Europa produz-se em São Miguel

 

Fábrica de Chá Gorreana funciona ininterruptamente desde 1883 e é um marco incontornável na história, na economia e no turismo do arquipélago dos Açores.

O edifício branco junto à estrada, com letras a vermelho carregado, acena ao condutor, mesmo ao mais distraído, que chegou ao Chá Gorreana, uma das duas únicas e a mais antiga fábrica de chá na Europa em contínuo funcionamento desde que foi fundada, em 1883. A outra fábrica, do Porto Formoso, recuperada em 1998, fica meia dúzia de quilómetros mais abaixo na estrada regional da costa norte, separando as duas unidades industriais uma grande plantação com uma vista soberba, onde, consoante as condições climatéricas, se produz chá verde, preto e semifermentado acima das 40 toneladas por ano.

Entrar nas instalações do Chá Gorreana tem tanto de museu vivo, carregado de história e tradição, como de produção industrial. É como fazer uma viagem no tempo em que, de forma singular, percebemos que a realidade associada à revolução industrial do século XIX é que faz sentido naquele espaço ladeado por 32 hectares, e não o mundo actual da alta tecnologia, apesar de dois equipamentos de laboração recentes.

O chá apareceu em São Miguel no último quartel do século XIX para fazer face à crise da laranja, por iniciativa da então Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. Com esse objectivo, foram contratados em 1878 dois técnicos chineses originários de Macau para virem a São Miguel ensinar técnicas de preparação das folhas e fabrico do chá. O saber ancestral passou de geração em geração e criaram-se novas fábricas de chá na ilha. A única, porém, que haveria de sobreviver ininterruptamente desde 1883 é a do Chá Gorreana, colocando no mercado o chá verde Hysson e as marcas de chá preto Orange Pekoe, Pekoe e Broken Leaf.

O empresário Hermano Mota prevê que o mercado continental irá novamente liderar a lista de consumidores dos produtos Gorreana no final deste ano, com cerca de 20 toneladas. Segue-se o mercado dos Açores (18 toneladas) e França (1300 quilos). Os chás também costumam seguir para a Alemanha e para outros países, inclusive onde estão radicados emigrantes açorianos, através do "envio semanal de pequenas encomendas".

Mais de metade da produção é de chá verde e Hermano Mota salienta que, com a crise, a fábrica está a retomar a apetência, que tinha nas décadas de 70 e 80 do século passado, para a produção do chá mais barato, que é o Broken Leaf, feito a partir das folhas menos nobres dos rebentos das plantas. "O consumo do Broken Leaf está outra vez a subir, o que é indicativo do estado económico da Região e do País. Por isso, se o senhor primeiro-ministro quiser saber se as coisas estão bem ou mal, basta ligar para a fábrica da Gorreana." Os problemas resultantes da crise também se fazem notar na fábrica secular no que diz respeito à "dificuldade em recebermos o dinheiro" dos compradores de chá. Qualquer coisa como 70 mil euros. De qualquer modo, a "vida financeira da Gorreana está regularizada", porque "temos um mercado fiel".

Considerado um ponto de interesse turístico, aqui os visitantes têm a hipótese de percorrer as diversas secções de transformação das folhas e saboreá-lo numa sala com vista panorâmica. Uma prova obtida por meio de técnicas tradicionais que, todavia, têm os dias contados: como a movimentação das folhas entre as máquinas e os depósitos onde estão armazenadas vai passar a ser feita por sucção, isso significa adeus aos cestos.

Ainda assim, na Gorreana sucedem-se os estrangeiros que oferecem os seus serviços grátis. Como é caso de um jovem das Canárias, licenciado em Arquitectura, que aparece de manhã na fábrica com roupa impermeável e catana para ajudar na manutenção das plantações e mesmo na apanha, entre Março e Setembro.

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