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Para além da dívida

por papinto, em 01.09.11

PÚBLICO 2011-09-01 Pedro Lomba


Governar não é cortar despesas a eito apenas porque se tem que cortar despesas, nem subir impostos porque se tem de subir impostos, mesmo sob o alto patrocínio da troika. Nenhum Governo pode esquecer isto. Governar é ter a visão de fazer escolhas, enfrentar interesses e alterar paulatinamente a cultura de um país. Dou um pequeno exemplo.

A América pode estar em declínio. Na sua influência e economia; na sua capacidade para ultrapassar uma depressão duradoura; no seu sistema político capturado. Mas há um foco de poder tipicamente americano que resiste: as universidades. As universidades americanas continuam prósperas e dinâmicas. Não sofreram com a depressão destes anos. E provavelmente nunca atraíram tanta gente como hoje.

Esta contradição entre um país que experimenta os sinais de uma crise duradoura - e com dificuldades em sair - e um ensino superior que não foi atingido é um dos temas explorados por Fareed Zakaria, o editor da Time, na nova edição do seu livro O Futuro Pós-Americano. A tese desse livro é conhecida. Zakaria, como outros, escreve sobre a ascensão do resto, isto é, daqueles países não-ocidentais que adoptaram o capitalismo ocidental como política económica e desafiaram o poderio americano.

Ao identificar onde reside hoje esse poder, Zakaria refere a educação universitária como a melhor indústria dos Estados Unidos. E cita números: 8 das 10 melhores universidades do mundo estão nos Estados Unidos; 38 das 50 melhores também estão nos Estados Unidos. Comparados com as novas potências, China e Índia, que têm universidades pobres e sem conhecimento, é na América que se formam os melhores engenheiros do mundo e é a América que os doutorados chineses e indianos procuram. Prevê-se que, num futuro próximo, metade dos estudantes de doutoramento em universidades americanas venha do estrangeiro.

As universidades americanas são extremamente bem governadas. Conscientes do seu papel económico, abriram-se ao mundo. Em Singapura, a Universidade de Nova Iorque abriu um campus que replica o que tem na cidade americana. Há outros casos. Vejam como cativam alunos da América do Sul: brasileiros, chilenos ou argentinos. E esses alunos respondem viajando para os Estados Unidos. Tudo em coerência com um país que, ao contrário da Europa, não está a envelhecer.

Oque tem isto a ver connosco? Muito. Nos últimos 30 anos, as universidades portuguesas adaptaram-se à democratização do ensino. Tornaram-se, e bem, serviços sociais. Como instituições, permaneceram espaços corporativos, fechados e proteccionistas.

O que isto significa, mesmo abusando de alguma generalidade, é que a universidade portuguesa não foi pensada para oferecer um serviço económico num mercado global e competitivo. Podia ser. Numa intervenção recente na Fundação Casa de Mateus, o meu amigo e universitário Miguel Poiares Maduro propôs que o ensino superior poderia ser precisamente um domínio essencial para a atracção de investimento estrangeiro e para promoção de comércio externo. Poiares Maduro oferecia algumas razões que podem ser sintetizadas em duas: a mobilidade académica na União Europeia e o aparecimento de um mercado europeu de educação. Espreitem o que andam a fazer universidades em estados como a Dinamarca ou a Suécia.

Infelizmente, para essa defesa séria no ensino superior e para o seu aproveitamento económico não podemos esperar que a mudança comece nas próprias universidades. Como não podemos esperar que os hospitais ou outras corporações se reformem a si próprias. Precisam de intervenção externa, precisam de um Governo corajoso a criar regras. Repito: mesmo num país semifalido, a governação não se pode resumir a uma conversa sobre impostos, despesas e buracos. As universidades, em quem ninguém acredita, poderiam ser bem mais úteis a Portugal. Jurista

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