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ANTÓNIO CÂNDIDO DE OLIVEIRA Público 02/03/2015 - 14:18

 

O mau governo das universidades reflecte-se não só na prossecução dos seus objectivos, mas também nos professores e funcionários.

 

Os municípios e as universidades públicas têm em comum, por força da Constituição da República Portuguesa, o governo democrático. Possuem, na verdade, uma assembleia deliberativa (e fiscalizadora) e um órgão executivo que responde perante aquela. Essa assembleia, nos municípios, tem o nome de assembleia municipal e, nas universidades, chama-se conselho geral. O órgão executivo é, nos municípios, a câmara municipal, tendo à frente o seu presidente e, nas universidades, é o reitor, que forma com plena liberdade uma equipa reitoral. Impressiona a semelhança de poderes que têm os órgãos dos municípios e os correspondentes órgãos das universidades. Apenas a economia de espaço nos impede de os enumerar. No entanto, o fundamento do governo democrático dos municípios e das universidades públicas não é o mesmo. O governo democrático dos municípios fundamenta-se no direito que os munícipes (os cidadãos residentes no concelho) possuem de governar o município de que fazem parte. O município pertence-lhes. São eles que têm o poder de mandar e não os residentes noutros municípios ou o Estado. O governo democrático das universidades públicas não se fundamenta no direito de as pessoas que delas fazem parte (professores, funcionários e alunos) de governar o que lhes pertence, pois as universidades públicas são propriedade de toda a comunidade nacional representada pelo Estado. Fundamenta-se, antes, no entendimento de que elas não devem ser governamentalizadas, pois isso poria (ou poderia pôr) em perigo a autonomia científica e pedagógica que a Constituição expressamente garante. O governo democrático das universidades, o seu autogoverno, é assim instrumental. Este fundamento diverso dá uma enorme responsabilidade aos membros da academia. Estes, ao exercer o direito de voto, têm o dever de ter presente que estão a gerir coisa alheia (um bem de toda a comunidade nacional) e que o direito de votar que possuem lhes foi concedido dentro da ideia de que escolherão os melhores para garantir o bom governo das universidades e que fortalecerão a respetiva autonomia científica e pedagógica. Isto que se diz dos eleitores deve aplicar-se depois aos órgãos por eles democraticamente eleitos. O governo democrático das instituições, quaisquer que sejam, tem na sua essência a prestação de contas e assim a transparência. Por isso, se o governo das autarquias locais deve ser transparente (e cada vez mais se insiste nisso), muito mais deve ser o governo das universidades. Os órgãos de governo das universidades têm o dever de provar que estão a gerir da melhor forma a respetiva instituição e isso deve revelar-se na regular prestação de contas. Prestação de contas que deve resultar, por exemplo, da clareza e da publicidade dada à execução do programa de atividades e do orçamento. A lei prevê as diversas formas de prestar contas. Note-se que os efeitos do mau governo das autarquias locais recaem sobre os munícipes, sobre a sua qualidade de vida e responsabilidade financeira, mas o mau governo das universidades reflete-se não só na prossecução dos seus objetivos, mas também nos professores e funcionários e muito particularmente nos alunos atuais e futuros. Por sua vez, a responsabilidade financeira cai sobre o Estado. Esta responsabilidade democrática é tão grande que bem se justificaria a introdução do voto obrigatório (de que agora muito se fala) nas universidades. Este voto não seria de nenhum modo uma violência, pois os eleitores conservariam sempre a possibilidade de votar em branco ou nulo. Ele seria particularmente pedagógico para os alunos, que se defrontariam com o dever de votar e assim de conhecer o governo das universidades e o significado que ele tem e de que andam tão alheados. Uma universidade em que frequentemente mais de 90% dos estudantes não votam põe em crise a bondade do respetivo governo democrático no seu todo. Também se justifica que, nas universidades, a composição do órgão deliberativo seja diferenciada. Compreende-se que na constituição desse órgão os professores tenham uma forte participação (mais de metade dos membros, atualmente), pois os professores e investigadores têm uma responsabilidade acrescida pelas tarefas que desempenham e pela ligação, em regra, muito duradoura à universidade. Porém, os funcionários, em termos de gestão, devem ter também uma representação no órgão deliberativo não só pela sua ligação à instituição, como pelo conhecimento desta e pelas tarefas também importantes que nela desempenham. Os alunos devem ter, logo a seguir aos professores, uma representação significativa, ainda que menor, desde logo porque a presença deles na universidade é muito breve. Justifica-se, por outro lado, a presença de membros externos no órgão deliberativo da universidade, nomeadamente se a sua escolha depender de cooptação dos eleitos, como sucede atualmente. Ela deve ser feita de modo a enriquecer a qualidade de governo das universidades. A sua presença lembra que a universidade é um bem nacional e eles têm a enorme responsabilidade de contribuir e velar pelo bom funcionamento da universidade que os cooptou. Professor universitário

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MIGUEL CAMBEZES Público22/02/2015 - 06:09 Podemos perder terreno para os nossos concorrentes mais directos, como a Itália, China ou Turquia, se não apostarmos fortemente na promoção.

<http://www.publico.pt/economia/noticia/tomate-portugues-a-conquista-do-primeiro-lugar-no-japao-1686874#> <http://www.publico.pt/n1686874> <>Portugal é o segundo fornecedor mundial de tomate no Japão, o seu segundo mercado de exportação – e estratégico para um setor que é o terceiro mais exportador do país. Mas estes são factos que não acontecem por acaso.

E se o clima favorável e a elevada produtividade (e gestão sustentável) dos solos ajudam a explicar a qualidade, a cor e o sabor da matéria-prima, a existência de uma indústria e uma gestão altamente competitivas, empenhadas em aplicar as melhores e mais avançadas práticas internacionais, permitem assegurar o mais importante: um tomate transformado de grande qualidade, à altura dos países e consumidores mais exigentes.

No top-10 mundial de um setor liderado pelos EUA (basicamente, a Califórnia), que produz 11 milhões de toneladas de tomate anualmente, seguido pela Itália e a China, respetivamente com 4,1 e 3,9 milhões, Portugal produziu 1,2 milhões de toneladas em 2014 e tem a ambição de atingir, muito em breve, os 2 milhões. Naturalmente, num mercado altamente competitivo e dinâmico, esta expansão terá que passar pelo crescimento em quota e valor, para exportar, não apenas polpa e concentrado, mas também produtos finais de elevado valor acrescentado.

Um tomate mais doce que em outras latitudes e uma indústria empenhada em preservar as qualidades naturais da matéria-prima. Estes são fatores distintivos da produção nacional, que fazem todo a diferença quando falamos de mercados como o nipónico, permanentemente à procura de “novidades” de consumo. Por outro lado, certos nutrientes do fruto, como o licopeno ou a cutina, intensificados pelas condições de cultivo e produção do país, permitem o desenvolvimento de uma panóplia de derivados, como sumos, cervejas, gelatinas, gelados e – pasme-se – vinhos. A cosmética e a indústria conserveira são outras áreas com potencial.

O novo centro de competências, no distrito de Santarém, além da admissão e formação de investigadores e técnicos especializados, numa aposta clara em conhecimento e know-how de cunho português, inclui laboratórios, estufas e uma mini-fábrica para processar e testar variedades e novos produtos. O investimento é elevado (na última década, o setor investiu perto de 60 milhões de euros em inovação em Portugal!), mas os ganhos esperados são significativos: subida de 10% na produtividade por hectare e também de 10% nos dias da campanha.

Apesar das muitas conquistas de uma fileira que é hoje a quarta maior exportadora a nível mundial, com níveis de exportação em torno dos 95%, a competitividade do setor pode estar ameaçada se não foram acauteladas questões sensíveis e decisivas (i) a nível interno, como a universalidade dos seguros de colheita ou a descida dos custos energéticos, e (ii) a nível externo, como a atenção às regras de mercado e de regulação de países concorrentes, aos acordos comerciais UE-EUA ou às diferenças cambiais – com o Euro, felizmente mitigadas.

Acima de tudo, podemos perder terreno para os nossos concorrentes mais diretos, como a Itália, China ou Turquia, se não apostarmos fortemente na promoção do setor “estrela do agroalimentar” junto dos mercados onde somos quase líderes ou onde estamos a consolidar a nossa posição. O Japão é, a esse nível, paradigmático, na medida em que, após ultrapassarmos o maior produtor mundial em 2012, os EUA, temos, neste momento, a oportunidade histórica de ultrapassar a China e conquistar a primeira posição no fornecimento de tomate ao país do sol nascente.

Secretário-Geral da Associação dos Industriais de Tomate

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ARMANDO SEVINATE PINTO Público15/02/2015 - 11:40 Dados do INE mostram que Portugal perdeu 40.800 explorações agrícolas em cinco anos.

<http://www.publico.pt/economia/noticia/a-mais-recente-fotografia-da-agricultura-1686148?page=-1#> Foi há pouco tempo publicado pelo INE o resultado da mais recente “fotografia” do sector agrícola português, na sequência do “Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas”, realizado em 2013. Este Inquérito, obrigatório entre recenseamentos gerais que se realizam de dez em dez anos, é a primeira operação censitária após o Recenseamento Geral Agrícola de 2009.

Ficou-se a saber que, em 2013, havia 264 000 explorações agrícolas em Portugal. Menos 40.800 do que em 2009, ainda que a Superfície Agrícola Utilizada (SAU) tenha continuado a ser de cerca de 3,6 milhões de hectares (39,5% do território nacional). A dimensão média das explorações passou, assim, de 12 para 13,8 hectares, em quatro anos.

A dimensão média permanece regionalmente muito heterogénea, variando de um mínimo de 6,5 ha de SAU/ exploração, no Norte e Centro, a um máximo de 56,9 ha, no Alentejo, se não contarmos com o caso especial da Madeira em que é de 0,4 ha por exploração.

A SAU continua muito concentrada uma vez que, um pouco mais de 1000 explorações com mais de 500 ha de SAU, gerem mais de um milhão de ha, enquanto que 191.000 explorações (72% do número total), com menos de 5 ha, são responsáveis, apenas, por 340 000 ha (9,4% da SAU total).

Desde 2009, as explorações que deixaram a actividade foram quase exclusivamente de pequena e muito pequena dimensão, com áreas inferiores a 5 ha, sobretudo nas regiões de Lisboa e do Centro. O número de produtores singulares decresceu quase 15% enquanto que o número de sociedades agrícolas aumentou 47% e exploram 1/3 da SAU nacional, detendo praticamente o mesmo número de animais do que os produtores singulares.

A ocupação cultural da SAU sofreu, apenas, pequenas oscilações. A estrutura de base manteve-se muito aproximada da apurada em 2009, com cerca de 50% de pastagens permanentes (1), 30% de terras aráveis (2) e 20% de culturas permanentes (3). A área de terras aráveis decresceu 6,2%, em especial no que se refere aos cereais de Outono/Inverno, ao contrário do que aconteceu com as culturas permanentes e com as pastagens permanentes, cuja área aumentou, ainda que moderadamente.

Curiosamente e desmentindo uma opinião que, erradamente, se tem generalizado entre os portugueses, a “Superfície Agrícola Não Utilizada” (4), que em 2009 se estimava ser de 128.000 ha, sofreu uma redução de 21%, (27.000 ha) passando a representar apenas 2,7% da SAU total, quando atingia 3,5% em 2009 e 5,3% em 1999.

Quanto à “Dimensão Económica das Explorações”, o INE confirmou que se mantêm as tendências de crescimento mas que continuam a existir grandes assimetrias. Para aferir esta dimensão e para a repartir por classes o INE utiliza o “ Valor da Produção Padrão Total (VPPT) e concluiu que a média deste indicador atingiu 17.100 euros por exploração, o que representa um crescimento de 12,5% relativamente a 2009.

O Inquérito revela que as grandes unidades de produção (mais de 100.000 euros de VPPT), apesar de representarem apenas 3,3 % do número total das explorações, produzem anualmente 58% do VPPT nacional. Em contrapartida, mais de ¾ das explorações são muito pequenas, geram valores inferiores a 8000 euros e contribuem, apenas, para 11% do VPPT nacional.

A “Orientação Técnico/económica da Explorações” revela uma crescente especialização da agricultura. Em 70% das explorações, mais de 2/3 do seu rendimento provem exclusivamente de uma única actividade. São as explorações pecuárias as que apresentam maior dimensão económica, seguidas da horticultura e da floricultura.

Por outro lado, constata-se que a produção padrão de cada hectare regado é cerca de sete vezes superior à produção em condições de sequeiro. Em comparação com a União Europeia, verificou-se que a dimensão económica média das explorações nacionais apenas atinge 2/3 do valor alcançado na UE a 28, sendo que a produtividade da mão-de-obra nacional (14.000 euros por unidade de trabalho anual) fica a menos de metade da média europeia (31000), revelando, a partir deste indicador, um elemento negativo importante da nossa competitividade.

Os dirigentes das explorações portuguesas são comparativamente mais velhos do que na UE, uma vez que mais de metade tem mais de 65 anos, enquanto que na UE este indicador não ultrapassa os 30%.

Também se concluiu pelo inquérito que a população agrícola familiar, formada pelo produtor e pelos membros do seu agregado doméstico, quer tenham ou não trabalhado na exploração, é constituída por 674.000 indivíduos (6,5% da população total residente em Portugal).

Por outro lado, dos agregados domésticos dos produtores, apenas 6,2% declararam que o seu rendimento resultava exclusivamente da actividade na exploração agrícola, enquanto que, em 81% dos casos, os rendimentos provinham maioritariamente de origens exteriores às explorações. Praticamente 2/3 dos agregados declararam receber pensões de reforma, o que está naturalmente relacionado com a idade avançada da população agrícola, cujo índice de envelhecimento médio é cinco vezes superior ao da população não agrícola.

Uma interpretação pessoal dos resultados deste inquérito permite-me concluir que se verifica uma evolução estrutural na agricultura portuguesa, quase sempre no bom sentido. Maiores explorações, mais empresas, menos agricultores mas mais produtivos. Contudo, essa evolução é, não só, excessivamente lenta como muito insuficiente para nos permitir globalmente (em todos os sectores e regiões) enfrentar a concorrência global a que actualmente estamos submetidos.

Dito isto, é bom esclarecer que estivemos a falar essencialmente de médias. Como é evidente, as médias mascaram muito a realidade agrícola nacional que ainda é profundamente heterogénea, como ficou demonstrado pelos resultados expostos por este inquérito.

Temos hoje uma agricultura muito polarizada. Por um lado, uma agricultura que já tem muita influência, com poucos agricultores dispondo de estruturas produtivas favoráveis (áreas, regadio, aparelhos produtivos), moderna, profissionalizada, desenvolvida, competitiva e cada vez mais especializada, com resultados económicos significativamente superiores à média. Por outro lado, uma agricultura, ainda fortemente camponesa, com um elevadíssimo número de pequenos e muito pequenos agricultores, muito envelhecidos, pouco qualificados e auferindo de rendimentos baixíssimos que só tornam possível a sua sobrevivência, ainda assim bastante penosa, porque são complementados com outros rendimentos, designadamente reformas, com origem fora das explorações agrícolas. São duas realidades muito distintas, mas que são frequentemente amalgamadas dificultando qualquer tipo de análise útil e séria, bem como a apreensão pública da realidade agrícola nacional e, infelizmente, muitas vezes, uma acção política esclarecida.

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RAQUEL MARTINS <http://www.publico.pt/autor/raquel-martins> Público 04/02/2015 - 19:06 Sector perdeu 74 mil postos de trabalho no último ano.

<http://imagens5.publico.pt/imagens.aspx/901945?tp=uh&db=imagens> O regresso aos campos que no auge da crise parecia ser uma tendência para ficar, poderá ter sido meramente pontual. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a agricultura e pescas foi o sector onde a redução do emprego mais se fez sentir tanto na comparação com 2013 como com o terceiro trimestre de 2014.

No final do ano passado, a agricultura empregava 348.500 trabalhadores, o número mais baixo desde, pelo menos, 1998. Trata-se de menos 74 mil postos de trabalho do que em 2013 e, nos últimos três meses, a perda chegou quase aos 59 mil.

A sazonalidade própria da actividade pode ajudar a explicar os resultados, uma vez que normalmente o último trimestre do ano é o que apresenta piores resultados. Mas nunca a redução do emprego foi tão elevada como agora, nem mesmo quando a taxa de desemprego em Portugal subiu para níveis históricos e o sector também se ressentiu.

O economista João Cerejeira, da Universidade do Minho, nota que “a diminuição do emprego em termos trimestrais e homólogos dá-se de forma coincidente na agricultura, no emprego de activos com mais de 65 anos e no emprego por conta própria”. Estes empregos, diz, “serão associados a ocupações de menor produtividade e inferior qualidade dos contratos de trabalho”.

Mas, do outro lado da moeda, destaca “a evolução positiva do emprego”, tanto trimestral como homóloga, “nos grupos ou categorias de emprego melhor qualificado e de melhor qualidade contratual”. E dá como exemplos a subida do emprego por conta outrem sem termo (3,7% em relação a 2013 e 0,2% face a Setembro) e do emprego de trabalhadores com ensino superior.

A população empregada entre os que terminaram a universidade foi onde se verificou o maior crescimento (11,6% na comparação anual e 2,7% face ao terceiro trimestre), enquanto o emprego entre os trabalhadores que não forma além do ensino básico recuou, tanto em termos anuais como trimestrais.

Mas já quanto ao tipo de contrato, embora a contratação sem termo tenha aumentado 3,7% face a 2013 e 0,2% em relação ao terceiro trimestre, há também a registar um aumento das outras formas de contratação, onde se incluem os recibos verdes (2,8% no ano e 5,1% no trimestre) e uma subida anual dos contratos a termo (6,5%).

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São maçãs, senhor

por papinto, em 23.01.15

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público 23/01/2015 - 05:01

Aqui na freguesia de Colares há alguns agricultores teimosos que continuam a trabalhar com variedades deliciosas mas desconhecidas de maçãs.

No PÚBLICO de terça-feira, Samuel Silva contou a história de Raul Rodrigues (R.R.), professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima.

Passou sete anos à procura de variedades minhotas de maçã e encontrou 62 maçãs diferentes. Só no Minho. Uma chama-se camoesa-do-biribau; outra três-ao-prato... e faltam mais 60.

R.R., com a modéstia de que só os heróis são capazes, sentia "a necessidade de preservar o património genético frutícola [que é] um legado importante dos nossos antepassados".

É o que está a fazer. Imagine-se o prazer de poder visitar um pomar de macieiras em Ponte de Lima onde se pudesse observar as árvores ao longo do ano e, quando a época deixasse, poder prová-las cruas, cozidas ou refeitas como sidras.

Aqui na freguesia de Colares há alguns agricultores teimosos que continuam a trabalhar com variedades deliciosas mas desconhecidas de maçãs. Deve ser assim por toda a província da Estremadura. É bem possível que seja assim em todas as regiões portuguesas.

Das 62 variedades descobertas e mantidas por R.R. aposto que pelo menos metade também se encontrava fora do Minho. Algumas, porventura, ainda se encontram.

É urgente ler a reportagem inteira para se perceber a inteligência e importância do trabalho de R.R. Ele usa o método biológico de produção, fazendo com que "a protecção contra pragas e doenças seja mais fácil do que na produção industrial". E quem diz maçã diz qualquer planta, flor, fruta ou semente que nos dá prazer e faz bem.

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SAMUEL SILVA  Público 20/01/2015 - 11:45 Raúl Rodrigues, professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima, coleccionou mais de 60 variedades regionais deste fruto nos últimos anos. E quer usar esse trabalho para mostrar que é possível recuperar uma produção praticamente perdida. As variedades recolhidas são depois estudadas, a nível morfológico e fenológicos

Será que o leitor conhece os nomes Porta-da-Loja, Três-ao-Prato, Camoesa-do-Biribau ou Sangue-de-boi? São todos designações de maçãs e têm também em comum o facto de serem espécies que podem ser encontradas no Minho. Estas variedades fazem parte de uma colecção mantida por Raúl Rodrigues, que andou a percorrer a região nos últimos anos, de modo a resgatar um património que estava quase perdido. Este professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima (ESAPL) acredita que é possível recuperar a sua produção. Até meados do século passado, nos pomares do Minho – como, de resto, nos de todo o país – cresciam maçãs de várias cores e feitios, fruto de séculos de produção e cruzamentos. Mas, desde então, “a cultura da macieira tem vindo a decrescer e com tendência para o desaparecimento”, alerta Raúl Rodrigues. Hoje, restam apenas alguns pequenos pomares de variedades comerciais e, em menor escala, da maçã Porta-da-loja, uma variedade regional que tem conseguido manter um nível de procura que lhe permite resistir. As restantes variedades foram, gradualmente, deixando de ser produzidas, desaparecendo praticamente dos terrenos. O processo deve-se sobretudo aos Planos de Fomento Frutícola Nacionais, lançados durante o Estado Novo. “Foram introduzidas novas variedades, mais produtivas e com melhor aceitação pelo mercado”, admite este professor, doutorado em Ciências Agrárias. Os pomares nacionais começaram, então, a ser usados para a produção das variedades de maçã mais em voga e que eram muito apreciadas a nível internacional. Eram as maçãs Royal Gala, Golden ou Reineta, que são as que ainda hoje encontramos com mais frequências nos pomares comerciais e nos mercados nacionais. Ciente disto, Raúl Rodrigues foi atrás das espécies quase desaparecidas no Minho, num processo que começou há sete anos. Desde então, conseguiu levar para os terrenos do campo experimental da Quinta do Convento, em Ponte de Lima, exemplares de 62 variedades de maçãs da região. O professor sentia a “necessidade de preservar o património genético frutícola” local. “É um legado importante dos nossos antepassados”, justifica. Nos últimos anos, Raúl Rodrigues tem multiplicado as suas “missões de recolha”, percorrendo as zonas rurais do Minho em busca de macieiras ainda desconhecidas. A cada novo achado, é recolhido material vegetal que, depois, é enxertado na colecção. As variedades recolhidas são depois estudadas, sendo registados os seus parâmetros morfológicos (tipo de folhas, flores, frutos, hábitos de frutificação e vegetação) e fenológicos (que nos permitem conhecer a época de abrolhamento, floração e maturação dos frutos), bem como a aptidão de cada tipo de maçã. Entre as maçãs do Minho existem as que se prestam ao consumo em fresco, mas também ao fabrico de sidra, confeitaria ou compotas, por exemplo. O professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima afirma ainda que o desaparecimento progressivo das maçãs do Minho é também consequência do desconhecimento destas variedades regionais. De resto, algumas das maçãs que integram esta colecção não são familiares ao público em geral nem eram, até há bem pouco tempo, conhecidas da comunidade científica. A colecção mantida por Raúl Rodrigues tem sido utilizada para actividades de investigação e também para aulas de campo, que o docente realiza com os seus alunos, e como matéria-prima para teses de licenciatura e mestrado de estudantes do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, do qual faz parte a ESAPL. O professor quer agora pôr esse conhecimento ao serviço da economia da região. Culturas sustentáveis Todas as 62 variedades de maçãs que fazem parte desta colecção podem ser encontradas no Minho, embora algumas não sejam exclusivas da região. Em todo o caso são variedades perfeitamente adaptadas ao clima e solos minhotos, com uma herança genética que as torna particularmente resilientes a determinadas pragas e maleitas. Além disso, a colecção tem a particularidade de estar a ser implementada no modo de produção biológico. Assim, a protecção contra pragas e doenças torna-se mais fácil de obter do que na produção industrial, uma vez que são criadas condições naturais para que inimigos naturais das pragas se desenvolvam, fazendo com que o equilíbrio natural ocorra na maioria dos casos. Para Raúl Rodrigues estas características podem ser uma mais-valia, no sentido de fazer ressurgir a produção de algumas destas maçãs na região. O modelo agrícola hoje predominante “é insustentável”, diz. “É altamente penalizador para o ambiente e limitador do acesso aos mercados por parte dos pequenos agricultores”, denuncia. O professor da ESAPL tem, por isso, advogado a promoção de uma fruticultura sustentável, assente em variedades autóctones e adaptadas à região em que são produzidas: “É uma das principais saídas para a conservação da biodiversidade regional e com potencial para o desenvolvimento económico”. Património imaterial As variedades regionais “podem ser exploradas economicamente”, defende Raúl Rodrigues. Para isso, acredita ser necessário divulgar estas maçãs, junto dos consumidores. “Isto é um património”, sublinha. “Esse conceito não se resume à arte de fazer talha, moldar o granito ou o ferro forjado. Existe um património vegetal, sobre o qual se foi construindo património imaterial, como as tradições que lhe estão associadas”. De resto, o trabalho deste professor do ensino superior não se resume à recolha e preservação das variedades de maçãs. Em cada saída de campo, Raúl Rodrigues faz contactos com as populações, para saber mais sobre as variedades, tanto ao nível do comportamento agronómico como ao nível das tradições que envolve. Várias destas variedades têm associadas tradições rurais, algumas das quais ainda se mantêm. A mais famosa é, provavelmente, a da maçã Porta-da-loja que, no Baixo Minho – em especial na vasta área que, na Idade Média, era dominada pelo mosteiro de Tibães, em Braga – era comida na noite de consoada. A maçã era assada no borralho, ou no forno, e servida em malga, regada com vinho verde tinto e polvilhada com açúcar. Outra tradição associada a esta variedade (essa já perdida) consistia em oferecer maçãs ao pároco da freguesia, por altura da Páscoa. A Porta-da-loja é colhida no Outono, mas mantinha-se fresca até à Primavera. “É uma tradição que atesta a elevada capacidade de conservação desta variedade sem recurso a câmaras frigoríficas”, sublinha o professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima. O passo seguinte do trabalho de Raúl Rodrigues à volta das maçãs do Minho começa agora a ser dado. A ESAPL está a fazer a caracterização genético-molecular das variedades, recorrendo a marcadores moleculares. Este processo permite estudar o genoma de cada macieira e detectar as diferenças existentes ao nível do DNA. Além disso, os resultados destes testes vão traduzir-se num conhecimento mais rigoroso da genética das variedades e do nível de parentesco entre elas. Esta fase do estudo permite ainda fazer inferências sobre as relações entre o genótipo e o fenótipo das variedades, o que, em última análise, “permite aumentar a eficiência dos programas de melhoramento”, outro passo determinante para tornar mais atractiva a reintrodução da exploração comercial destas variedades, explica Raúl Rodrigues. Outros frutos Apesar das dificuldades com que se depara a iniciativa – a instalação e manutenção da colecção é dispendiosa e a falta de recursos, financeiros e humanos, é frequente, lamenta Raúl Rodrigues -, o professor da ESAPL já definiu a próxima fase desta missão auto-atribuída de resgate do património vegetal da região. O trabalho iniciado com as macieiras vai ser estendido a variedades regionais de outros frutos. Nos terrenos da Escola Superior Agrária, em Ponte de Lima, já existem cerca de uma dezena de exemplares de pêras, com destaque para a Pêra-de-Codorno, historicamente muito abundante na região de Basto. Também os citrinos vão merecer uma atenção especial, com recolha e caracterização de espécies como o Cidrão – uma espécie de limão de aparência mais tosca, usado para compota e bolos, que foi muito comum na região nos séculos XVII e XVIII – e como as laranjas de Amares e do Ermelo, no concelho de Arcos de Valdevez.

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ARMANDO SEVINATE PINTO Público18/01/2015 - 12:26

O alargamento contínuo das áreas com autênticos mortórios de sobreiros e com povoamentos com crescentes sintomas de declínio interpela-nos a vários níveis, colocando-nos questões sérias e exigindo respostas rápidas e eficazes.

Tendo em conta a progressiva degradação da situação e a óbvia ausência de acções colectivas eficazes para a contrariar, a questão que se coloca é a de saber quanto tempo restará de vida aos sobreiros, a nossa árvore nacional.

Quanto às respostas eficazes, que até agora não aconteceram, o que me faz mais impressão é o imobilismo e a ausência de tentativas concretas de combate às doenças dos sobreiros que estejam à altura das circunstâncias.

Incomodam-me igualmente as reticências que me parecem existir na divulgação pública da situação concreta dos nossos montados e da sua vitalidade.

Uma vez que já tenho a certeza que pertenço à geração que irá ver desaparecer as palmeiras, perdida que me parece estar a guerra contra o escaravelho vermelho que as devora com uma rapidez impressionante, não gostaria mesmo nada de pertencer à geração que verá desaparecer os sobreiros.

Se isso vier a acontecer, as consequências serão bem mais graves do que as resultantes do desaparecimento das palmeiras.

A razão é simples: os povoamentos de sobreiros e os ecossistemas que lhes estão associados, são, sem sombra de dúvida, um dos mais importantes activos naturais que possuímos.

Importantes, pela riqueza que geram: somos o maior produtor mundial de cortiça, uma das mais polivalentes matérias-primas naturais conhecidas e exportamos anualmente mais de 800 milhões de euros de produtos transformados com valor acrescentado 100% nacional.

Importantes, pelos postos de trabalho directos que a sua conservação e exploração justificam e que ascendem a muitas dezenas de milhares, quer junto à produção, quer em cerca de 600 empresas de transformação.

Importantes, porque os povoamentos de sobreiros são os elementos centrais de um dos mais ricos, complexos, estáveis e multifuncionais ecossistemas das regiões mediterrânicas pobres, que constituem uma grande parte do nosso território.

Temos mais de 700 mil hectares ocupados com sobreiros, que fixam carbono, protegem e enriquecem os solos, modulam o clima e abrigam e alimentam ricos habitats de flora (140 espécies aromáticas, medicinais e melíferas) e fauna silvestre (a mais rica fauna da Europa, sobretudo de vertebrados de que se conhecem 55 espécies correntes), favorecendo a diversidade biológica. Contudo, se continuarmos como até aqui, abandonando programas de defesa da subericultura, como aconteceu em 2005, e mais inclinados em consagrar recursos à preservação de espécies com interesse relativo face à enorme importância dos sobreiros, o risco é grande de ainda em vida não conseguir assistir ao triunfo da investigação e da técnica sobre as doenças mortais mais importantes que, dia após dia, acentuam o declínio dos montados.

Sei que há relativamente pouco tempo, em Julho de 2014, foi subscrito por várias instituições um protocolo que formaliza a constituição do Centro de Competências do Sobreiro e da Cortiça, com quinze membros fundadores, entre os quais várias associações, universidades, além do Ministério da Agricultura e da Câmara Municipal de Coruche.

Não sei o que vai dar este protocolo, cujas boas intenções reconheço. Contudo, gostaria bastante mais de ver ser posto em prática um programa concreto, com recursos financeiros e humanos concretos e suficientes para desenvolver uma acção nacional em larga escala que procedesse à análise sistemática dos solos e do estado sanitário das árvores e que, sem limitações nem reticências pseudo-científicas, fosse acompanhado de uma rede alargada de experimentação sistemática de antídotos relativamente às principais causas de morte que fossem detectadas (por exemplo, a utilização de fungos antagonistas do género Trichoderma para combater a fhytophthora).

Incomoda-me pensar que não existam antídotos para o que está a acontecer.

Incomoda-me pensar que existem investigadores preparados e interessados, mas com limitadíssimas condições materiais para desenvolverem acções em larga escala.

De tempos a tempos, ouve-se falar de produtos e tratamentos que poderiam eventualmente revelar-se eficazes contra as doenças principais dos sobreiros, mas que não estão disponíveis para utilização, ou porque ninguém se interessa pela sua homologação ou porque os interessados se deparam com obstáculos que os conduzem à desistência.

Ouve-se falar de práticas agrícolas que potenciam as doenças, mas nada se sabe sobre o seu desencorajamento público. Se se cortar um sobreiro mesmo em estado de morbilidade adiantada, corre-se um sério risco de se ser objecto de uma coima de valor significativo.

Contudo, se não se cortar nada e se deixarem morrer centenas ou milhares á vista de todos, nada acontece, memo que os seus esqueletos fiquem no terreno a contaminar os sobreiros sãos na sua proximidade.

Alguma coisa terá de ser feita para alterar este estado de coisas. Será impensável continuarmos como até aqui, a fechar os olhos à realidade, como se nada estivesse a acontecer.

PS: Começaram recentemente a aparecer as novas regras a que devem obedecer os projectos de investimento agrícolas e agro-industriais que estarão em vigor até 2020 no quadro do Programa de Desenvolvimento Rural (o novo PRODER). O que se vai vendo, infelizmente, não é muito encorajador. Foi dada excessiva liberdade ao funcionamento do complicómetro que habita em cada um de nós e, neste caso, aos responsáveis pela concepção dessas regras. Está-se a regredir, sem explicação razoável, relativamente ao programa anterior e torna-se vital que os responsáveis tomem disso consciência o mais rapidamente possível e que se lembrem das consequências resultantes dos primeiros anos de funcionamento do PRODER e das suas regras absurdas que prejudicaram seriamente o seu funcionamento.

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Pedi e recebereis

por papinto, em 17.01.15

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